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Os desafios da colheita bairradina


tags: Mealhada, Mealhada, Mealhada, Mealhada, Mealhada, Bairrada Categorias: Região quarta, 02 outubro 2019

Os meses de agosto e setembro marcam o início do período de vindimas e a Bairrada já é conhecida por ter bons vinhos brancos, tintos e espumantes.

Algumas das colheitas são feitas de forma manual e outras de forma mecânica, tudo dentro de um sistema em que o clima, o solo, as castas e o tratamento dado às uvas e à produção vitivinícola influenciam, cada uma à sua maneira.

Pela parte da Adega Rama, o ano foi bastante positivo, conforme afirma o diretor comercial, João Pedro Rama. Nos vinhos brancos há “vinhos com acidez interessante, mas elevado grau, por causa do calor”; nos vinhos tintos, a “acidez já está num nível bom” e os vinhos para rosé prometem “um bom ano de espumante baga”. Segundo João Rama, o ano foi diferente de 2018 e registaram-se temperaturas razoáveis em 2019, comprovado pelo facto de que os “tratamentos que fizemos foram menos frequentes este ano”.

O responsável da colheita, Francisco Calado, confirma que a “produção a nível de brancos é muito boa, embora de menor quantidade” e “a nível de qualidade, este ano, é um fora de série”. O profissional considera até que “este ano a qualidade é ainda melhor do que no ano passado” e afirma que as uvas são “muito maduras, muito sãs” e a concentração do açúcar, comprova-se pelo facto de estas saberem “a geleia”.

O trabalhador, que está ligado desde o dia 6 de dezembro de 2017 à Adega Rama, afirma que “não foi preciso dizerem-me quais é que são as castas”, visto conseguir distinguir pelas folhas e pelas uvas”. Esse conhecimento vem do facto de já trabalhar no ramo há cerca de 23 anos na produção e elaboração do vinho, mas, como é necessário na vindima, acaba por ser aí que trabalha.

Também nas Caves Messias a expectativa é para um ano com “produção de muita qualidade”, “maturações fenólicas perfeitas e maturações do álcool”, segundo indica o diretor da viticultura, Manuel António Baptista, ligado há 30 anos à empresa.

Segundo explica, a produção está 20% abaixo da expectativa inicial e parte desse resultado deve-se às alterações climáticas, que levaram algumas plantas a entrarem em stress hídrico, visto terem “tido dificuldades em arranjar água”.

A colheita que fazem é mecânica há cerca de 20 anos e compraram uma máquina automotriz própria por volta de 2016 para o total dos 100 hectares que têm em produção.

O diretor explica que o objetivo principal das Caves Messias é produzir vinhos de alta qualidade e, para atingir esse objetivo, precisam de ter “produção baixa”, numa lógica em que “qualidade é aversa à quantidade” e, nesse sentido, cortam cachos para “maior concentração de nutrientes e açúcar nas vinhas”, conhecida como a monda, para controlo de produção.

Nas Caves Messias a produção é feita sem rega e Manuel Baptista explica que sempre fizeram assim, a respeitar o ciclo biológico e natural, mas que as alterações climáticas podem levar a uma mudança.

Para compreender quando é que a colheita da vindima deve ser feita, o diretor da viticultura explica que usam um parâmetro analítico, visto fazerem análises químicas e avaliarem qual a acidez, o ph e o grau alcoólico, mas o que determina o período da vindima é um parâmetro sensorial, ou seja, uma prova da baga por parte do enólogo para decidir a altura indicada.

O enólogo das Caves Messias, João Soares, já é trabalhador na empresa desde 2002 e, quando questionado sobre o que é que se procura na prova da baga, afirma que “procuram-se os taninos, a polpa”, e que é muito importante “perceber qual o vinho que se espera e quais as referências”. É um determinado “sauvoir-faire” - “saber fazer”, como lhe chamam os franceses – e isto é especialmente importante quando se pretender fazer um vinho com potencial de guarda, em que o produto continua a maturação após o engarrafamento.

O enólogo também reconhece que “as uvas que estão a entrar” têm um potencial enorme e as expectativas eram muito elevadas “já há algum tempo”. Segundo diz, tal também se deve ao “ano seco com início de verão intermitente e frio” que levou a que a maturação das uvas fosse abrandada, e contribuísse assim para a “manutenção do aroma e da qualidade”.

Sobre os vinhos da Bairrada, João Soares indica que os tintos apresentam o desafio “mais difícil e mais interessante”, visto serem vinho que transportam a leveza e a frescura já inerente às produções da região. “A característica de frescura, de leveza, permite aos vinhos da Bairrada estar em competição com os melhores vinhos internacionais”, afirma, e até chega a ser um competidor face aos vinhos da Extremadura, com potencial de guarda.

Na Adega Rama, o período para se iniciar a vindima é definido pelo “bom ph e pela acidez”, afirma o diretor comercial, João Pedro Rama. Assim, se acontecer a situação da acidez estar muito alta, a decisão é aguardar que essa acidez diminua.

“Quase todos são velhotes”

 

Para o futuro, os principais desafios são a mão-de-obra e as alterações climáticas e os produtores contactados afirmam em uníssono essas ideias. Os escaldões do ano passado são um exemplo do que as alterações climáticas trazem, em termos de dificuldades, para a produção vitivinícola.

João Pedro Rama afirma que “as mudanças climáticas vão provocar mais escaldões” e levar a “maturações mais desequilibradas”, especialmente porque “a tendência é para haver mais calor”. Apesar das vinhas acabarem por recuperar, por si, dos escaldões, a seu tempo, se estas sofrerem esse ataque, não há nada a fazer.

Assim, o período do inverno, crucial para a maturação da uva, começa a ser um período bastante influente na produção final, porque a planta tem dificuldade em abrolhar devido ao facto do inverno estar a ficar “um pouco mais quente”.

O diretor da viticultura das Caves Messias, Manuel António Baptista, explica que “as plantas no seu ciclo biológico precisam de um acumular de horas de frio e sol, e com a falta de invernias há interferência no ciclo biológico, não só em doenças, bem como em pragas”, especialmente se se tiver em conta que os “fungos precisam de calor e humidade”, duas características que se têm juntado nos atuais invernos.

As medidas preparadas pelas Caves Messias para as alterações climáticas são “ajudar a regular o stress hídrico e o stress térmico, sem pôr em causa a qualidade” e ainda tentar controlar as pragas e as doenças com o mínimo de carga possível.

Para se compreender as diferenças nos últimos anos, o enólogo das Caves Messias, João Soares, indica que um estudo que realizaram sobre o período de início das vindimas mostrou que, comparativamente com 2002, em média, a colheita antecipou sete dias e isso deve-se às influências das alterações climáticas.

Relativamente às dificuldades em arranjar mão-de-obra, o que os produtores comprovam é que as populações envolvidas nas vindimas tendem a envelhecer e é cada vez mais difícil juntar pessoas para a colheita manual.

O diretor da viticultura das Caves Messias, Manuel António Baptista, indica que, para a área de 100 hectares em que produzem, precisam de 60 pessoas durante um período de 20 dias para o trabalho, e mesmo que pagassem mais do que já pagam – entre 40 e 50 euros por dia – é difícil reunir 60 pessoas diariamente.

O responsável da colheita da Adega Rama, Francisco Calado, confirma essas dificuldades e explica: “isto não é um trabalho fácil”, e, para o setor, é ainda mais complicado pelo facto de que “uma empresa não contrata pessoas só para vindimar”, visto ser um trabalho sazonal. Só nas colheitas da Adega Rama são precisas 16 pessoas e, mesmo aí, é complicado arranjar um grupo, sendo que “quase todos são velhotes”.

Da parte da Comissão Vitivinícola da Bairrada (CVB), confirmam-se esses desafios. O presidente da CVB, José Soares, explica que “do ponto de vista das alterações climáticas é preciso perceber e combater essas alterações”, mas sente que na região essas alterações não se sentiram de forma evidentemente tão negativa. “Têm conduzido a períodos de chuvas menores que têm sido positivos para a nossa região” e reconhece que “as vindimas vão acontecendo mais cedo”.

Também na questão prática da mão-de-obra, admite que “há realmente falta de pessoas” e que a faixa etária das pessoas que trabalha a vinha “está muito avançada”. Segundo afirma, o que se pode seguir é “mecanizar cada vez mais” e a formação de “consórcios na área agrícola para investir na profissionalização. Em suma, José Soares explica que é “um avanço, acima de tudo, natural num setor que vai perdendo a mão de obra.

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