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Saúde em Mortágua


tags: Mauro Tomaz Categorias: Opinião quinta, 27 fevereiro 2020

Já há muito se sentia que a situação da saúde em Mortágua estaria prestes a explodir, dado o cada vez mais deficitário serviço que é prestado à população, mas esta semana soou finalmente o alarme social, depois de atingido mais um cúmulo, o que levou a um sobressalto cívico por parte de uma franja considerável de Mortaguenses. O Centro de Saúde passou a ser obrigado a fechar mais cedo, dada a falta de clínicos. Não há médicos de família em número suficiente. Pelo que consta, de um universo de seis, dois destes profissionais têm apresentado sucessivas baixas e um outro encontra-se em pleno gozo de licença de paternidade, à qual tem evidentemente pleno direito, mas não há quem possa satisfazer as actuais necessidades que existem. A situação é dramática. Repetem-se os cancelamentos de consultas marcadas a praticamente toda uma população, que se vê assim impedida de solicitar receitas de farmácia, fundamentais para que possam comprar os medicamentos de que precisam, tal como também não conseguem marcar análises ou exames importantes. Os cuidados de saúde preventivos estão neste preciso momento comprometidos de uma forma quase absoluta. Do serviço de urgências, já nem se fala.. o que nos mostra que a presente realidade é penosa, dado que o Centro de Saúde de Mortágua é hoje uma autêntica sombra do que já foi. O actual SNS peca e de que maneira no serviço de proximidade que hoje apresenta, pelo que é preciso compreender as causas para que depois possamos apontar a soluções. Desde os tempos da Troika, quando a dupla Passos & Portas se propuseram a ir ainda mais além do que constava no memorando de entendimento, que a Saúde em Portugal tem vindo a ser drasticamente penalizada, com problemas atrás de problemas. Depois da direita ter posto a faca não só nas gorduras, como também no músculo e no osso, seguiu-se um Governo socialista que almejou, efectivamente e com todo o sucesso, a uma estrondosa recuperação financeira e económica, conseguida com enorme sacrifício mas que também nos trouxe custos sociais de inegável relevo. As cativações de Costa e Centeno na Saúde, determinantes para a fantástica redução do défice das contas públicas, em tempo recorde, levaram a uma disrupção significativa dos serviços prestados neste sector, com episódios de gravidade nos grandes centros urbanos e situações-limite nas regiões do Interior, como é o caso de Mortágua. O Concelho onde resido não é, desse modo, uma “ilha” que seja alheia aos fenómenos que se abatem sobre toda a região, pelo que hoje, se calhar mais do que nunca, importa lançar um conjunto de reflexões sobre toda esta problemática de um “esquecimento” que é manifestamente imperdoável: há mais País além de Lisboa e Porto.

 

A Constituição consagra o direito inalienável de todos os Portugueses a cuidados de saúde dignos, ou seja, o Estado tem de garantir a alocação de recursos humanos em número suficiente para que possa desse modo garantir a cobertura total de todo o território nacional. A realidade, porém, é que os concursos de médicos não têm conseguido corresponder, de todo, às necessidades que existem. As colocações destes nos meios mais pequenos das regiões interiores são muito complicadas porque esbarram na vontade da esmagadora maioria dos profissionais em ali prestarem serviço. Se nos lembrarmos que as populações em causa estão cada vez mais envelhecidas, o que as torna consequentemente mais frágeis e expostas, o drama de toda uma região ainda se torna mais evidente. Esta razia nos serviços básicos está a tornar-se criminosa, porque há pessoas a morrer. Só há uma conclusão a retirar: isto não pode continuar a acontecer, pelo que é preciso lutar! A causa terá que inevitavelmente unir a sociedade civil aos respectivos representantes… partidos políticos e todos os que desempenham cargos de representação. O desespero dos Mortaguenses tem sido notório, pelo que o cheiro a “sangue” rapidamente atraiu os necrófagos do costume, ávidos de oportunidades como esta, e fez com que alguns protagonistas desta praça apontassem de imediato o dedo ao Executivo local, acusando-o de inconsequência e de inércia, tentando com isso ludibriar os eleitores, fazendo-os implicitamente crer que a competência responsável por todo este descalabro é de uns, os representantes locais, e não de outros, os da Administração Regional e Central, que por sinal até são da mesma cor. Sou socialista, mas sei olhar para a minha própria casa, e sobretudo detesto logros deste género, os da capitalização política de desgraças em benefício próprio, que expõem imediatamente o carácter de quem a tenta levar a cabo… política rasteira, pois claro. É nela que melhor se movimentam.

 

A delicadíssima situação da saúde em Mortágua será temporariamente atenuada por um regresso ao activo de dois médicos reformados, o que é sempre de louvar, como é óbvio. No entanto, parece-me mais um paliativo do que outra coisa qualquer… pois esta não será, com toda a certeza, solução definitiva para problema algum. Longe vão os tempos em que não faltava médico de família para ninguém… em que tínhamos um hospital em pleno funcionamento e não um centro de saúde em condições cada vez mais precárias. Repito, a situação não é exclusiva de Mortágua, mas sim de uma região inteira. Numa análise mais alargada, a falta de médicos é um problema de todo o país, apesar de ser mais facilmente verificável em determinado lugares. Trata-se de um problema sério que necessita de ser rapidamente solucionado. O que podemos fazer nesse sentido? Unirmo-nos na reivindicação. Não vejo outro caminho. Não creio que nos reste outra solução a não ser berrar. Uma manifestação, televisão… até um bloqueio de estrada se for preciso. Situações extremas exigem atitudes mais criativas. O problema só se consegue resolver no alto… e para nos ouvirem de lá, vamos ter mesmo de berrar.

 

Não podemos continuar a brincar com a saúde de todos, enquanto continuamos a injectar ao mesmo tempo milhares de milhões na banca… chega!