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João Pega
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Diária

Viagem a uma região onde está tudo calmo


Para o estimado leitor do Jornal da Mealhada, o nome Bjork poderá não dizer nada. Trata-se de uma cantora islandesa, que teve sucesso sobretudo na década de 1990 e no início deste século, e que teve um grande êxito chamado “It's Oh So Quiet” (está tudo muito calmo). Esse podia ser o título desta reportagem e a banda sonora desta viagem, mas optei por sons nacionais. Sérgio Godinho e Rui Veloso fizeram-me companhia enquanto visitava a Mealhada, Anadia e Cantanhede em pleno isolamento social. E arranquei com uma questão: será que estas três cidades estão a cumprir bem o isolamento?

O arranque
São 10h25 quando entro no carro, em Coimbra, para arrancar a viagem. Está um dia maravilhoso, com um sol fantástico. Um péssimo dia para ficar em casa, mas as regras assim o obrigam. Apenas o meu dever de informar me faz sair. Para não me sentir sozinho, tenho a companhia do leitor de CD do carro. Começo com “Lupa”, um álbum lançado por Sérgio Godinho em 1997. E ponho o carro a trabalhar.

Entro na Circular Externa, uma zona sempre muito movimentada. Vi duas pessoas a caminhar na berma, sem carros. A situação mantém-se até às rotundas antes de entrar no IC2. Na chamada rotunda da Fucoli (por se situar junto à fábrica com o mesmo nome), caótica num dia normal, passam três carros. Coimbra a assumir o compromisso perante o país e o Mundo.

À entrada no IC2, o meu leitor de CD toca uma canção que não se pode praticar atualmente: “Dancemos no Mundo”. No lado oposto da via, alguns carros em direção a Coimbra. A caminho da Mealhada, contei-os pelas mãos. Não há fotos da viagem porque as autoridades não estão em isolamento (e bem), e este que vos escreve precisa do carro. Ainda esperei por um sinal vermelho para tirar algumas, mas nesta viagem eles não quiseram nada comigo.

Em Santa Luzia, um condutor mais apressado faz uma ultrapassagem numa linha dupla contínua, quando havia um camião do lado oposto. Não esteve longe uma tragédia e este condutor esteve perto de me dar trabalho, mas a manobra acabou por correr bem. À chegada à Mealhada mais uma faixa de “Lupa” com que muitos se poderão identificar nos dias de hoje: “Na Prisão”. São 10h50 e estaciono.

Mealhada ainda tem vida
Caminhada de cerca de meia hora pela Mealhada. Mais sossegada do que é habitual, menos sossegada do que estaria à espera para o momento. Contei entre 15 a 20 pessoas na rua, umas a dirigir-se às compras, outras a trabalhar, outras sem que eu percebesse muito bem o que estavam a fazer fora de casa.

Uma padaria aberta, a Tropical. Fila à porta, clientes a entrar um de cada vez, como mandam as regras. Os de fora não pareceram muito incomodados por ter de cumprir com o que estava estabelecido.

Os serviços abertos eram os esperados: agências bancárias, uma padaria, um quiosque, um supermercado. O único mais estranho foi uma seguradora, que penso não estar no regime de exceção. Mas nos tempos que vivemos, nunca se sabe! Não vi autoridades na rua, o que não quer dizer que não estivessem. Antes de arrancar para Anadia, uma vista de olhos pelo parque da cidade. Uma pessoa a correr, sozinha. A Mealhada a cumprir dentro do possível, apesar de algumas pessoas ainda não parecerem muito importadas com o vírus e os seus problemas.

Anadia em modo fantasma
São 11h40 quando volto a entrar no carro. A viagem é curta, até Anadia. No entanto, não deixou de ser agitada. Tudo porque o condutor (ou seja, eu), não viu uma mini-rotunda à entrada da cidade e travou a fundo, felizmente sem consequências. O meu carro era o único na estrada. À chegada, ainda toca “Lupa”, de Sérgio Godinho, e um verso que ganha muito significado nestes tempos conturbados que vivemos: “A vida é um doido brinquedo”. Mesmo!

11h54. Estaciono o carro próximo da Câmara Municipal e dou uma volta. Não me cruzo com pessoas, vejo duas ao fundo, à entrada de uma agência bancária. Um dia antes de fazer esta viagem, foi conhecido um caso no concelho, o que pode ter contribuído para as pessoas serem mais cumpridoras.

Reforço uma ideia que manifestei no início deste texto: está um dia maravilhoso e um sol fantástico. Andei de t-shirt a manhã toda. Um dia a pedir para sair de casa, mas as pessoas não podem. E cumprem. E bem.

São 12h13 quando me dirijo ao carro para voltar para trás. Passagem por Cantanhede e regresso a Coimbra. Até agora, poucos carros e poucas pessoas no caminho.

Obras e "Avenidas"
Arrancamos para Cantanhede e mudamos a banda sonora. Sérgio Godinho vai agora cumprir a sua quarentena no porta-luvas e entra Rui Veloso. “Avenidas” é um álbum lançado no final de 1998 e abre com uma canção que até pode ser inspiradora: “O meu guru”.

Ao fim de sete minutos na estrada, deixei de estar sozinho. Cruzei-me com uma moto, a velocidade moderada. O caminho é tranquilo, a vista é bonita, numa paisagem verdejante. Um passeio a recomendar, para um futuro. E a música que toca será certamente inspiradora no futuro, quando este período terminar: “Todo o tempo do Mundo”. É o que teremos para as pessoas que queremos bem. Logo a seguir toca “Ninguém escreve à Alice”. Não sei de quem se trata, mas em época de isolamento torna-se ainda mais difícil não ser correspondido.

Quase a chegar a Cantanhede, quase sem me cruzar com carros, Rui Veloso canta “As regras da sensatez”. Que neste momento passam por ficar em casa. Chego a Cantanhede às 12h43. As ruas estão confusas, não por haver muita gente, mas pelas obras no centro.

Pessoas são poucas ou nenhumas. Passo pela Praça Marquês de Marialva e pelo largo da Câmara Municipal. Tudo calmo, numa zona que costuma ter alguma agitação.

13h15. Já é hora de almoço e já são muitos quilómetros feitos. Hora de regressar a Coimbra para cumprir as normas do Estado de Emergência e ficar em casa. A região está, na generalidade, a cumprir bem as normas e, seguramente, a suspirar por melhores dias. No caminho para casa, Rui Veloso canta “Nunca me esqueci de ti”. Não se esqueçam de, no fim destes dias, abraçar aqueles de quem nunca se esqueceram.