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Profissões com maior presença feminina pelo olhar de cinco mulheres


tags: Mealhada, Mealhada Categorias: Especial terça, 08 março 2022

É certo que existem áreas cujo género feminino marca pela sua maioria, como psicologia, enfermagem, advocacia e educação, maioritariamente fruto de fatores históricos e culturais. E, certo é, que os dados nacionais refletem também que, nalgumas profissões, as mulheres ultrapassaram o número de homens. O Dia Internacional da Mulher assinala-se hoje e o Jornal da Mealhada quis dar voz a alguns dos rostos que abraçam estas profissões. São rostos que marcam e mudam a estória. São rostos que lideram mudanças e fazem a diferença, ainda que esta diferença exija um longo caminho de modo que não sejam apenas reflexo de uma maioria, mas sejam também merecedoras da liderança.

 

Professora

Sónia Taira, é professora na Escola Profissional Vasconcellos Lebre há 20 anos, mas esta não era a sua profissão de eleição enquanto criança e adolescente. E foi a paixão pela literatura, nos tempos de liceu, que a cativaram a traçar um caminho para as letras e não para as ciências. Licenciou-se em Ensino de Português na Universidade do Minho e a primeira experiência começou num estágio integrado. Em 2020, segundo dados da Pordata, 55.080 docentes mulheres exerciam o ensino de 3º ciclo e secundário, enquanto que 21.789 eram docentes do género masculino. Esta tendência é conclusiva desde 1972 e, para Sónia Taira, justifica-se “pelo facto de no passado as mulheres não poderem exercer qualquer profissão”. “Com o tempo as mulheres foram conquistando o seu lugar e reconhecimento na sociedade, foram investindo na sua formação académica e foram enveredando pelas mais diversificadas áreas de estudo”, acrescentou. Para si, “querer ser professor(a) é uma escolha e não uma imposição”, na medida em que “é uma profissão desgastante, o reconhecimento pelo professor é menor e a sociedade não respeita esta profissão”, levando a que nos dias que correm “não seja vista como uma carreira atrativa e são várias as razões”. “O salário, o tempo dedicado às tarefas (planificação e preparação de aulas, preparação de atividades, correção de trabalhos, testes e reuniões) e a indisciplina que se vive nas salas de aula. Mas há também aspetos positivos, a começar pela formação de professores que é muito boa e por isso a qualidade do ensino em Portugal é elevada. Há no professor a dedicação, a preocupação com os seus alunos, há o querer ajudar a fazer a diferença nas suas vidas”, acrescentando que “é estar convicto que “a educação transforma o indivíduo””.

 

Educadora de Infância

Para a profissão de educadora de infância, a realidade é a mesma. As mulheres mantêm a sua maioria. Em 2020, registaram-se 16.454 docentes do sexo feminino em exercício no ensino pré-escolar. Quanto ao sexo masculino, eram 157. Paula Simões é educadora na Casa da Criança desde que se formou, em 2003, e embora considere que o papel do pai seja, na atualidade, incomparavelmente mais consistente e ativo na educação dos filhos, reconhece que a profissão que exerce continua associada a uma vertente “extremamente maternalista”. “Creio que existe ainda um preconceito, vindo ao passado, que inibe muitos homens de querer enveredar pela área da educação, em creche e pré-escolar. Na qualidade de mãe e educadora, papéis que represento com orgulho e dedicação, destaco o privilégio de poder acompanhar o crescimento das crianças e de participar do processo que mais importa, desde a primeira infância, que é, educar”, partilha Paula Simões, que desde cedo ambicionou trabalhar na área da educação, quer pelo gosto que desenvolveu na interação com crianças, como pela empatia mútua que se evidenciava e, não tem dúvidas: “Recebo bem mais das crianças, do que lhes consigo proporcionar”, adiantou.

 

Enfermeira

Em 2019, existiam 75.773 enfermeiros em atividade, em Portugal. Mais de 80% dos enfermeiros eram mulheres (82,2%). Ana Carina Soares, enfermeira Diretora do Hospital Misericórdia da Mealhada, avança que estes dados podem estar relacionados com a parte histórica e socialmente, pois “o cuidar esteve sempre muito associado à mulher e aos pressupostos da função e papel expectável da mulher (mulher-mãe, mulher-esposa, mulher-zeladora)”. “O carácter religioso imputado ao cuidar, nos seus primórdios, mostra-nos que este era levado a cabo por freiras. O peso cultural e histórico, impacta diretamente no facto de, ainda hoje, a enfermagem ser uma profissão maioritariamente feminina”, avançou, lembrando que “a evolução da autonomia e regulamentação da profissão e a sua afirmação enquanto ciência, tem-na tornado mais apelativa também ao género masculino”. “Pese embora o facto de existirem naturalmente áreas específicas, em que os/as utentes preferem ser cuidados por enfermeiros ou enfermeiras, com base nos seus próprios quadros socioculturais, não considero que possamos referir-nos a vantagens e/ou desvantagens dos cuidados prestados por mulheres ou homens. O método e rigor técnico-científico da profissão, determina que os enfermeiros exerçam a profissão com base nos mesmos pressupostos e padrões e consequentemente, se obtenham resultados semelhantes, em igualdade de circunstâncias”, acrescentou Ana Carina Soares, enfermeira desde 2006 e que desde muito cedo aspirou trabalhar na área da saúde.

 

Psicóloga

Ainda na mesma esfera, o mesmo se aplica à psicologia: já no ano de 2012, 77,4% dos membros efetivos da Ordem dos Psicólogos Portugueses eram mulheres e apenas 22,6% eram homens. Sandra Martins é psicóloga e psicoterapeuta há 22 anos, exercendo atualmente no Hospital Misericórdia da Mealhada, e a especialidade de psicoterapeuta foi fundamental no sentido que permitiu orientar e ajudar crianças, jovens, adultos e idosos a desenvolver recursos e estratégias para ultrapassarem dificuldades emocionais e relacionais de forma a encontrarem estabilidade psicológica. “Realmente, existe um maior número de mulheres a estudar e a exercer Psicologia, nos seus vários ramos. No meu ponto de vista, esta tendência é fruto de fatores históricos e culturais, pois as profissões de cuidar sempre foram mais femininas. A própria maternidade sempre levou a profissões nesta área. Mas os papéis estão em evidente mudança! O cuidar do desenvolvimento do outro está cada vez mais a ser partilhado por ambos os géneros”, partilhou com o nosso jornal.

 

Advogada

Por fim, e com igual importância, a advocacia. Mas será que desde sempre estiveram mais mulheres ao serviço do que homens? Os dados da Pordata mostram-nos que apenas a partir de 2006 é que assim foi. Em 2020, de um total de 33.115 inscritos na Ordem dos Advogados, 18.224 correspondiam a mulheres e 14.891 a homens. Daniela Esteves é advogada há cerca de 24 anos e desde sempre desenvolveu a sua atividade na comarca da Mealhada. “A advocacia surgiu como a opção profissional mais óbvia, por ser aquela onde é possível o contacto diário com pessoas prestando-lhes auxilio e zelando pelos seus direitos, como instrumento imprescindível de realização da justiça”, adiantou-nos a advogada. Quanto à escolha pelo curso de Direito, essa deveu-se ao interesse e curiosidade “em conhecer melhor a sociedade, as leis que a regem e a estrutura do Estado”. Daniela Esteves faz também parte desta mudança que acredita tratar-se “de um simples reflexo da evolução da nossa sociedade e do papel que, atualmente, a mulher tem no mercado de trabalho, que não poderia deixar de se repercutir nas profissões jurídicas”. “A presença da mulher na advocacia é hoje um dado absolutamente incontornável. As advogadas são, em geral, muito dedicadas e batalhadoras e isso permitiu-lhes merecer hoje o reconhecimento pelos pares e pelos clientes da qualidade do trabalho jurídico que executam. As mulheres são mais intuitivas emocionalmente, fator importante na tomada de decisões e na gestão de problemas e de pessoas, sejam elas colaboradores, colegas ou clientes”, complementou. Contudo, a advogada observa que “as mulheres ainda encontram alguns obstáculos que não são colocados aos homens e enfrentam desafios que estão diretamente relacionados com o papel social que uma mulher pode querer ocupar na sua vida pessoal, e principalmente, se quiser constituir família”.

“Ainda assim, estamos em crer que o sucesso do advogado dependerá em maior medida da sua capacidade técnica, da sua capacidade de trabalho e das suas qualidades, do que propriamente do facto de ser homem ou mulher”, concluiu.

 


Educação ensinos pré-escolar, básico e secundário

32.391 homens

114.650 mulheres

fonte: PORDATA, 2020

 

Advocacia

14.891 homens

18.224 mulheres

fonte: PORDATA, 2020

 

Enfermagem

17,8% homens

82,2% mulheres

fonte: INE, 2019

 

Psicologia

22,6% homens

77,4% mulheres

fonte: Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2012