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Bolos da Páscoa: Idalina Várzeas mantém tradição há 50 anos


tags: Mealhada, Casal Comba, Mealhada, Casal Comba, Páscoa Categorias: Especial segunda, 18 abril 2022

Farinha, açúcar, canela, ovos, raspa de limão, jeropiga ou aguardente, sal, manteiga, azeite e fermento. Para os ingredientes não há segredo, até porque o segredo está é nas quantidades que tornam os Bolos da Páscoa de Idalina Ventura Várzeas únicos e saborosos. É da Vimieira, freguesia de Casal Comba, e foi ao ver a sua mãe e avó darem azo a esta tradição, que também quis colocar as mãos na massa logo aos 14 anos. “Faço Bolos da Páscoa desde que a minha mãe me ensinou, ou seja, desde que eu consegui amassar a massa. Comecei com a minha avó e com a minha mãe tinha cerca de 14 anos. E depois comecei a aperfeiçoar e a meter mais açúcar”, partilhou.

Já o faz há 50 anos e conta que “não tem nada que saber”, bastando ser-se fiel à tradição. Por isso, para confecionar os Bolos da Páscoa, além dos ingredientes, não pode faltar um alguidar, um forno a lenha – apesar de garantir que mesmo em forno elétrico o sabor não deixa a desejar -, uma folha de couve e alguns costumes que não dispensa. “O primeiro passo é envolver todos os ingredientes com a farinha num alguidar e amassar durante uma hora. Depois disso, passa-se a manteiga derretida por cima e faz-se uma cruz com a mão direita. Benzemo-nos e dizemos: São Mamede te levede, São Vicente te acrescente, Deus te ponha a virtude, que da minha parte fiz o que pude. Amén”, contou. A massa fica a levedar entre quatro a oito horas, molda-se e vai ao forno durante meia hora com a folha de couve por baixo. “As antigas usavam para o bolo não se queimar porque a folha é fresca e o ar mantém-se. Tem é que ser couve galega e deve estar dura, não pode ser a mais tenra”, partilhou. O bolo está cozido e o último passo é deixar arrefecer e bater um ovo com açúcar, fazer uma calda e pincelar por cima para lhe dar brilho.

Dedicação e gosto são outros dos ingredientes imprescindíveis que dão qualidade aos famosos Bolos da Páscoa de Idalina, cobiçados pelos seus afilhados e pela sua família. Para esta altura de Páscoa conta cozer cerca de 50, o que equivale a três fornadas. Idalina recorda que antes da pandemia também vendia os bolos através do Rancho da Vimieira, no qual é presidente, e até nas feiras. Contudo, de há dois anos para cá que o faz só para consumo próprio e para oferecer aos afilhados, tal como manda a tradição da Vimieira, e não há nada que lhe encha tanto o coração.

 

Tradições do Bolo da Páscoa na Vimieira marcam gerações

Para Idalina, manter esta tradição viva “significa muito”. “Eu tenho orgulho de dizer que já se coze bolos na Vimieira há muitos anos e a minha freguesia também mantém esta tradição. Porque é principalmente na Vimieira que existe desde sempre a tradição de dar o bolo ao afilhado até ser casado, sendo que se até aos 30 anos não estivesse casado, também não recebia mais o bolo”, começa por explicar, acrescentando que muitas histórias marcam esta tradição.

“Antigamente, os Bolos da Páscoa eram um doce que se fazia só na Páscoa para presentar os afilhados, daí o nome e, claro, só recebia o bolo o afilhado que já estivesse batizado pela religião católica. No Domingo de Páscoa, o Senhor Padre vinha pelas ruas e os afilhados iam a casa dos padrinhos, depois de beijar o Senhor, e pediam a bênção ao padrinho. Diziam “Bênção padrinho” e o padrinho dizia “Deus te abençoe” e dava-lhe o bolo. O tamanho dos bolos variava conforme a relação entre padrinhos e afilhados, podendo ir até um quilo ou quilo e meio. Porque quanto mais os afilhados fossem amigos dos padrinhos, maior era o bolo. E às vezes dizia-se: “Faz um bolo maior para o meu afilhado que eu gosto tanto dele”. E era assim a tradição”, acrescentou, adiantando que na época, “quando o afilhado se casava, a madrinha cozia bolos da Páscoa para todos os convidados”.