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A irmã Miquelina


tags: Humberto Pinho da Silva Categorias: Opinião segunda, 24 março 2025

 

Começo por dizer que não se chamava Miquelina; mas, como o que vou relatar é verdadeiro, devo, por respeito, ocultar o verdadeiro nome.

Miquelina era moça recatada, tímida e modesta. Trabalhava como mulher de limpeza, num hospital.

Diariamente era solicitada por médicos, enfermeiras, e pelas Religiosas, que mantinham o respeito, a ordem, e a manutenção da Casa.

Se demorava a responder, quando a chamavam, logo vinha, de mau humor, a severa reprimenda:

- " Miquelina, não sabe que o serviço era para ontem?!; Miquelina, são horas de chegar?!; Miquelina, mexa-se, parece que tem ovos debaixo dos braços?!; Miquelina, acha que isto está bem limpo?! -  Dizia a madre, mostrando a ponta do indicador, depois de o passar pela mesa.

E a moça, acabrunhada, tudo ouvia de cabeça baixa, sem altercar, sem se desculpar...

Não tinha namorado. Bem o desejava, mas ninguém se interessava por ela. Era faxineira, ganhava pouco, e os rapazes não queriam sustentar mulher; mas, que ela os sustentasse.

Uma noite fria, que estava de serviço, saltou-lhe a ideia de buscar outro emprego; mas não descortinava qual, quando se lembrou de ser Religiosa.

Os anos passavam...a idade avançava... e, os rapazes já não eram como os do tempo de seus pais – o que procurava: era beleza e dinheiro.

Falou do intento, e como era educada, obediente, sisuda e respeitadora, foi aceite como noviça.

Uma década se passou..., por mero acaso foi parar ao mesmo hospital em que trabalhou.

Logo na portaria sentiu a diferencia – o segurança cumprimentou-a com a boca cheia de sorrisos.

As Irmãs tratavam-na com deferência; os médicos e enfermeiras, pediam-lhe por favor, e tratavam-na por Irmã; e até o Senhor Administrador, fazia reverencia e apertava-lhe respeitosamente a mão.

Admirou-se de tal mudança. Não era a mesma? Até os jovens médicos olhavam-na dissimuladamente e pensavam: " Que pena uma jovem tão engraçada e trabalhadeira, não se ter casado!..."