Diretor: 
João Pega
Periodicidade: 
Diária

O verdadeiro impacto das atividades humanas na biodiversidade


Categorias: Região quinta, 03 abril 2025

Um estudo internacional, que conta com a participação dos investigadores Ruben Heleno e José Miguel Costa, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), concluiu que a vegetação natural sofre um impacto significativo da atividade humana, apresentando frequentemente um défice de espécies que, em condições ideais, poderiam estar presentes. A investigação, liderada pela Universidade de Tartu, na Estónia, foi publicada na revista Nature e envolveu mais de 200 cientistas da rede DarkDivNet.

A pesquisa analisou quase 5500 locais em 119 regiões do mundo, registando todas as espécies de plantas presentes em cada área e identificando a chamada “diversidade escura”, isto é, a ausência de espécies nativas que deveriam estar ali, mas que, por diferentes razões, não se encontram. O objetivo foi medir a diversidade vegetal potencial de cada local e avaliar a extensão real do impacto humano sobre os ecossistemas.

Os resultados mostram que, em regiões pouco afetadas pela ação humana, os ecossistemas preservam mais de um terço das espécies potencialmente adequadas ao ambiente. No entanto, em locais fortemente impactados por atividades como a urbanização, a desflorestação ou a poluição, essa proporção cai para apenas uma em cada cinco espécies. As medições tradicionais da biodiversidade, baseadas na contagem do número de espécies presentes, não conseguiram detetar este impacto porque a variação natural da biodiversidade entre regiões e ecossistemas mascarava a sua verdadeira extensão.

Portugal no estudo: impacto humano no centro do país

A equipa do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da FCTUC estudou 34 locais na zona centro de Portugal, incluindo fragmentos florestais com diferentes níveis de perturbação, desde áreas bem conservadas até antigos campos agrícolas abandonados. A análise das espécies presentes e das suas associações ajudou a perceber quais as espécies em falta em locais a norte de Coimbra, onde o grupo de investigação tem desenvolvido trabalho ao longo da última década.

Os dados recolhidos em Portugal reforçaram a conclusão global do estudo: nenhuma região analisada isoladamente permitiu obter conclusões significativas sobre o impacto humano. No entanto, quando os investigadores cruzaram os dados de todas as regiões, verificaram que a ausência de espécies nativas era muito mais expressiva em locais com maior presença humana, mesmo quando esses locais mantinham todas as condições para suportar a vegetação natural.

O grau de impacto humano foi avaliado através do Índice de Pegada Humana (Human Footprint Index), que considera fatores como a densidade populacional, alterações no uso do solo (urbanização e agricultura) e infraestruturas como estradas e caminhos-de-ferro. O estudo revelou que a diversidade vegetal é influenciada negativamente por este índice e pelos seus componentes, afetando áreas até centenas de quilómetros de distância.

Um alerta para o futuro da biodiversidade

Os investigadores alertam que os efeitos da atividade humana não se limitam apenas às áreas diretamente afetadas, como cidades ou zonas agrícolas, mas estendem-se a ecossistemas vizinhos, comprometendo a regeneração da vegetação natural. Além disso, o estudo revela que muitas plantas enfrentam dificuldades para recolonizar locais que seriam adequados para o seu crescimento, destacando a importância da fauna selvagem na dispersão de sementes.

«Este resultado é preocupante. Por um lado, mostra que os efeitos das atividades humanas, tais como estradas, desflorestação e poluição, vão muito além dos locais normalmente considerados perturbados. Por outro, demonstra, pela primeira vez, que as plantas estão com dificuldades em recolonizar locais que seriam perfeitamente adequados para elas», explica Ruben Heleno, professor do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra e investigador do CFE e do Laboratório Associado TERRA.

O estudo sublinha a necessidade de proteger não apenas as áreas ambientalmente preservadas, mas também os ecossistemas mais amplos, garantindo a saúde da biodiversidade. O conceito de “diversidade escura” oferece uma ferramenta prática para identificar espécies que deveriam estar presentes em determinados locais e pode ser fundamental para monitorizar e orientar políticas de conservação e restauração ambiental.

O artigo científico completo, intitulado "Global dark diversity study reveals hidden impact of human activities on nature", pode ser consultado na revista Nature.