Clara Macedo Cabral apresenta o livro: “Enterrem-me na Vertical” e recorda as suas raízes literárias na Mealhada

No âmbito da Feira Literária da Mealhada - FLIM, a escritora Clara Macedo Cabral esteve na Mealhada a apresentar o seu mais recente livro “Enterrem-me na Vertical”, ontem, dia 3 de abril. As suas ligações à Mealhada são muitas, é sobrinha trineta de Maria da Nóbrega, e quando era criança vinha à casa da família na Mealhada.
O pai de Clara Macedo Cabral falava-lhe muito da escritora que Maria da Nóbrega tinha sido, e contava-lhe que ela organizava tertúlias literárias com Júlio Dantas e Carlos Malheiro Dias “era uma casa com muita vida cultural e literária”, lembra a escritora.
Assim, contente por apresentar o seu livro na Mealhada, a escritora refere, em entrevista ao JM, que esta cidade a remete para essas vivências de infância. Aliás, “a Maria da Nóbrega dedicou-se à escrita, e eu sou a descendente mais direta dela que se dedicou completamente à escrita”, compara Clara Macedo Cabral.
O orgulho da escritora pelos seus antepassados é profundo e, citando António Breda Carvalho, recorda os saberes de Maria da Nóbrega: «era uma mulher com sólidos conhecimentos clássicos, porque o seu avô, Joaquim Carreira de Melo, foi pedagogo e autor de várias obras. Além disso, dirigiu o Colégio Nossa Senhora da Conceição, em Lisboa.»
A escritora recorda ainda, com orgulho, que o seu bisavô, José Rebelo de Melo Cabral, dá nome a uma rua na Mealhada: a 'Rua Capitão Cabral', uma homenagem que perpetua a sua memória.
Com que idade é que começou este gosto pela escrita?
Desde muito nova, com 4 anos e meio aprendi a ler e a escrever com a minha mãe e sempre gostei dessa área. Licenciei-me em Direito, mas tirei um curso de escrita criativa, publiquei livros coletivos em coautoria. Quando tinha 35 anos decidi ir viver para Londres onde me dediquei exclusivamente à escrita, deixei para trás a carreira jurídica que não me trazia satisfação e realização, contrariamente à escrita.
O facto de estar em Londres influencia a sua escrita?
Sim, aliás todas as situações que marcam a vida de um escritor refletem-se na sua escrita. Sendo a cultura londrina completamente diferente da portuguesa, a escrita ajuda-me na interpretação e compreensão dessa cultura. Também é em Londres que encontro temas que me despertam a atenção e a curiosidade de escrever. Portanto, se eu não tivesse saído de Portugal não teria a panóplia de interesses e temas para escrever que tenho hoje em dia. Um dos meus livros: “A Inglesa e o Marialva” é o verdadeiro exemplo disso, fala de uma inglesa apaixonada por cavalos que veio para Portugal aprender a tourear. Esta é uma história verídica que me levou a uma investigação dos acontecimentos.
Veio à Mealhada apresentar o livro: “Enterrem-me na Vertical”, em que o biografado é o seu avô. Também foi para o Norte investigar para escrever este livro?
Sim, este livro obrigou-me a descobrir Trás dos Montes. Queria perceber o que é que ainda restava da memória dele. Encontrei testemunhos que me ajudaram muito na investigação. Ao falar com as minhas tias consegui reconstituir o meu avô enquanto político e a nível pessoal e familiar. Foi também à Torre do Tombo onde encontrei nove processos da PIDE em nome dele.
Enquanto ia descobrindo mais acerca da pessoa que o seu avô foi, que sentimentos lhe iam despertando?
Posso dizer que me causou surpresa. Também uma certa dor, por causa do sofrimento que a minha avó e tias sentiram devido à vida atribulada e instável que ele teve. Descobri que existe uma meia-filha que ele nunca reconheceu e isso provocou-me um determinado choque. Por outro lado, falando de sentimentos mais positivos. O meu avô deixou uma imagem positiva na sua região, pois era advogado e trabalhava no apoio aos pobres, ele defendia-os gratuitamente. Era altruísta, usou os seus conhecimentos para ajudar a população carenciada. Portanto, confesso que há uma dicotomia, há emoções que me causam bem-estar e outras questões mais difíceis de lidar. Neste momento os sentimentos negativos passaram e restam apenas os sentimentos positivos!
Têm muitas ligações à Mealhada. Que significado tem para ter apresentado aqui o seu livro?
É uma grande alegria ter apresentado o meu livro na Mealhada e participar no lançamento do livro “Contos Maria da Nóbrega” da autoria António Breda de Carvalho. Tenho de agradecer à Câmara Municipal que me fez este convite que me deixou muito orgulhosa.
O prémio literário Maria da Nóbrega, bienal, aconteceu em 2024, este ano existe o lançamento do livro. Qual a importância deste tipo de iniciativas?
O prémio, tal como a republicação da sua obra, são muito importantes, pois traz para o domínio público o nome de Mária da Nóbrega que estava condenado ao esquecimento.
Foi uma ilustre da Mealhada, nascida na Vacariça, que dedicou a sua vida à escrita e uma mulher muito culta. Nasceu em 1875, naquela altura poucas mulheres eram letradas, porque não tinham posses económicas para aprender. Considero também que a FLIM é muito importante para dar a conhecer novos autores.
O que é que a motiva a escrever e explorar novas narrativas?
Motiva-me o conhecimento e a descoberta por histórias reais que despertam em mim o desejo de compreender a vida de uma pessoa concreta, no seu tempo e espaço. Além disso, escrever em português permite-me manter uma ligação constante com a minha língua, o que é também uma das motivações que me leva a escrever.
Qual é o escritor(a) que mais a influencia?
Gosto muito de Virginia Woolf e Jane Austen. Outras autoras que me inspiram profundamente são Katherine Mansfield e Clarice Lispector. No que toca aos autores portugueses, aprecio os clássicos como Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís e Aquilino Ribeiro. Já na literatura japonesa, destaco Haruki Murakami e Yasunari Kawabata. Quanto à literatura da América Latina, admiro especialmente Gabriel García Márquez e Isabel Allende.
Estamos cada vez mais a viver num mundo acelerado e digitalizado. Acha que isso tem impacto na literatura?
Infelizmente, sim. As pessoas já não têm tempo para a leitura — um ato que exige tempo, atenção e ausência de interrupções. A leitura está a ser progressivamente deixada de lado. Vejo com apreensão esta crescente digitalização; acredito que não era necessário estarmos constantemente ligados.
Como vê o estado atual da literatura portuguesa no estrangeiro?
Muito mal. A presença de autores portugueses no mundo anglo-saxónico é reduzida. Publicam-se sobretudo obras de autores já falecidos, como Fernando Pessoa ou Eça de Queirós. Seriam necessários mais apoios, nomeadamente no campo da tradução.
Foto: da esquerda para a direita - João Paulo Teles, moderador da sessão de apresentação, António Breda de Carvalho e Clara Macedo Cabral