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Fernando Abrantes – Comandante Bombeiros Voluntários da Pampilhosa: “É com muita mágoa que não conseguimos controlar todas as situações”
02 Nov 2017, 00:00
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114 mortos. 45 vidas perdidas nos vários incêndios do dia 15 de outubro. 65 pessoas já tinham morrido, num só incêndio, em Pedrógão Grande. Mais 4 pessoas perderam a vida, noutros incêndios ocorridos em 2017. 235 mortos desde o início do século, por causa dos incêndios, em Portugal. Dos quais 114 nos últimos quatro meses. 

Desde junho arderam 500 mil hectares de floresta. Por consequência, dezenas de casas foram destruídas pelo fogo, que atingiu também muitas empresas, causando prejuízos financeiros avultados, bem como a nível ambiental e patrimonial. Áreas de cultivo foram arrasadas, morreram milhares de animais. Os incêndios deste ano ultrapassaram, de longe, em área ardida, os últimos 10 anos. 

Os fogos fustigaram com particular intensidade as regiões norte e centro de Portugal, gerando um cenário de morte, destruição e medo.

Momento para uma avaliação rigorosa sobre o problemático e delicado assunto. O Jornal da Mealhada esteve à conversa com Fernando Abrantes, Comandante dos Bombeiros Voluntários da Pampilhosa.

Como analisa os incêndios ocorridos no dia 15 de outubro?

Existe uma série de fatores que se conjugaram e que estão na origem desses incêndios. Vivemos um período de seca extrema, depois a desorganização da floresta, a desertificação, dentro das aldeias as casas estão abandonadas. Vimos aqui na Póvoa do Garção, por exemplo, que a proximidade da floresta com a zona urbana está uma miséria em termos de vegetação. Canaviais com canas de 5/6 metros de altura junto às casas, uma vegetação que arde com muita velocidade quando inflamada. Tudo isso contribui para as situações ocorridas. Não se trata de qualquer desorganização dos bombeiros, não é isso, temos que dar prioridade às habitações. É complicado gerir esta situação, nós tentamos dar prioridade conforme a nossa análise, mas os populares querem um veículo de socorro para cada casa, é a aflição natural das pessoas que se revoltam, o que é natural. Felizmente no concelho da Mealhada não tivemos nenhuma habitação ardida.

Depois do que aconteceu e perante as consequências destes incêndios, é altura para uma reflexão?

Estamos a partir da estaca zero. Será daqui para a frente que temos de pensar a nível de interface urbano e ordenar a floresta. Por vezes o agricultor planta eucaliptos para rentabilizar a atividade, não se respeita as áreas de ninguém. Metem-se planos para aprovar plantações de eucaliptos, e quem os aprova está sentado a uma secretária e não vem ao terreno analisar as situações, e depois dá no que dá. É preciso uma política de sensibilização nesta matéria. Espero que daqui para a frente isto seja um ´abre olhos´, e que no meio de tanta infelicidade se parta do ponto zero para que coisas destas não se repitam. Daqui vamos tirar muitas ilações a todos os níveis. É urgente organizar a floresta, um dos grandes problemas são os acessos. Se levamos veículos pequenos, vamos com 500 litros de água, isso não dá para nada. Cada vez mais temos que ter a necessidade de ter o maior suporte de água. Os acessos são essenciais, muitas vezes não conseguimos chegar perto do incêndio. 

Quanto à falta de meios que tanto se tem falado, a que nível é um problema?

Meios humanos faltam para todos. No caso dos incêndios de 15 de outubro, era impossível haver meios para tantas ocorrências. Aqui na zona Centro, bem perto de nós, tínhamos os incêndios de Oiã, Vagos, Mira… eram muitos incêndios e os meios não chegavam a todo o lado. A nossa corporação, em Arinhos, inicialmente fez o combate à floresta, mas depois fui alertado e tivemos que recuar para fazer combate à entrada da aldeia, onde as habitações estavam em risco. Se o incêndio entrava direto na aldeia podia ser mais complicado, felizmente as coisas correram bem.

O que se sente no terreno numa situação destas?

Ficamos impotentes ao querer dar resposta a todas as situações. É frustrante, mas temos que agir, e da melhor maneira, estabelecendo prioridades, gerindo os meios após avaliação no terreno.

Em termos locais, em junho aconteceu o incêndio de Barcouço. Foi preocupante?

Foi um grande incêndio, é quase a imagem de 2005, faz quase o mesmo percurso, passando a A14 e vai terminar na parte de Coimbra. Perdemos muita floresta, felizmente não houve vítimas, embora os prejuízos materiais fossem grandes.

Como comandante de uma corporação, que resposta tem a dar em relação às críticas dirigidas aos Bombeiros?

É natural que surjam críticas aos bombeiros. Na hora da aflição, todos falam e ninguém tem razão. Com quanta mágoa nós não conseguimos controlar algumas situações… somos humanos, não somos robots, não conseguimos entrar dentro da frente de incêndio. Reconhecemos as nossas limitações e capacidades. Quando não há condições para entrar, não entramos. Da parte dos comandantes tem que haver noção das situações, não posso mandar entrar um veículo e ele ficar lá, basta uma mudança rápida de vento e perdemos quatro, cinco vidas. Este ano no incêndio de Anadia, um veículo nosso ficou danificado, são precisos quinze mil euros para o conserto, mas o mais importante é que nenhum bombeiro ficou ferido. Resguardaram-se no carro, combateram o incêndio e saíram ilesos.

Sendo de uma enorme importância o trabalho dos bombeiros voluntários, até que ponto é importante avançar para a profissionalização?

É inevitável a aposta na profissionalização, só assim se consegue uma resposta muito mais rápida e musculada. No entanto, quero sublinhar que vou continuar a ser apologista do voluntariado, os nossos bombeiros gostam do que fazem. A corporação que temos na Pampilhosa é constituída por homens excelentes, dão tudo o que têm. Este ano chegámos a estar presentes em três incêndios distintos no mesmo dia. Mas só os voluntários não chegam. Todos deram o seu melhor este ano, todos eram precisos e todos responderam da melhor maneira.

De que forma regressavam os bombeiros ao quartel?

Chegam desgastados. O calor, o pó, andar a subir e a descer serra abaixo, serra acima, puxar uma mangueira, enrolar mangueira… é desgastante. É preciso muita força de vontade da parte dos voluntários.

No que diz respeito ao apoio da autarquia da Mealhada, tem sido importante para os Bombeiros da Pampilhosa?

A nível da Câmara de Mealhada o apoio é total. Vimos no incêndio de Barcouço, que foi o que mais afetou o Concelho, onde tivemos um apoio incondicional da autarquia a todos os níveis. Tivemos o Pavilhão de Barcouço à disposição, que nos serviu de Posto de Comando, para gerir a situação, para descanso e alimentação dos bombeiros. Em 26 anos a combater incêndios, tenho andado por todo o país, e nem sempre encontramos apoio. Sem dúvida que a Câmara da Mealhada esteve muito bem no apoio logístico, foi dos melhores que tenho encontrado.

Quanto à renovação da corporação, tem sido difícil recrutar novos Voluntários?

Um bombeiro que está de serviço 24 horas, ganha 46 euros, é irrisório. Se alguém estivesse a olhar para a parte monetária, não tínhamos cá ninguém. Os bombeiros gostam do que fazem. Mas tem sido difícil captar voluntários, porque a exigência é cada vez maior, e acho bem que assim seja, é fundamental uma boa formação, tudo isso exige muitas horas. Falta a parte de incentivos para que mais gente venha até nós, não há regalias, não há nada que retribua o esforço da parte dos voluntários. Tem sido cada vez mais difícil, todos se queixam do mesmo. Na minha altura, há 26 anos éramos quase 20 no Curso Inicial de Bombeiro, agora vêm no máximo 8 voluntários e chegam ao fim metade deles… é o que há. Não vejo aquela vontade em vir para os bombeiros, talvez por medo, o risco é muito grande. 

 

 

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