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CRÓNICAS LOCAIS - 251 - Francisca
03 Out 2018, 00:00
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A Francisca mora no Casal Filomena, à saída da vila depois da reta do pontão, na rua da Pampilhosa, no Luso.  No extremo de lá, onde a estrada vai acabar, a rua chama-se o contrário, do Luso, na Pampilhosa e a recta ali é mais comprida. Há poucos anos colocaram-lhe do lado esquerdo de quem sai um passeio pedonal apontado à Quinta do Valongo, para uso das pessoas que ali construíram as suas casas. Por enquanto poucos, mas fizeram o que deviam fazer protegendo o cidadão munícipe, o morador que paga os seus impostos, dos perigos da rodovia onde muitos utilizadores por motivos variados excedem as normas de trânsito, principalmente no que diz respeito à velocidade permitida.

Porém, na ponta de cá do Centro de Estágios, no Luso, para cima não há proteção nenhuma e a partir do Casal Filomena há muito mais gente a morar, seguramente meio milhar de munícipes utilizam a estrada para chegar ao centro da vila onde, ao contrario da Rua do Luso, na vila da Pampilhosa, não há passeio para peões. O mesmo cidadão do município caminha entre a estrada e os veículos, utilizando valetas e muros para se proteger dos loucos do volante e da ineficácia autárquica.

A Francisca, que mora no Casal Filomena, é um desses peões. É pequena, loira, bonita e faladora, e um dia destes seguia do mercado para casa acompanhada da avó quando me cruzei com elas, na recta do pontão. A recta do pontão é murada dum lado e doutro, é um canal fechado sem valetas nem bermas, nem lugar para onde fugir, e toda a espécie de viaturas ali passa com os poucos cuidados que são devidos a uma recta. Sabe-se hoje que no infinito não há retas, mas aqui, em pequenas distâncias, as retas persistem em segmentos e os carros são ligeiros e pesados que nos passam tangentes às pernas e aos corpos. Na sua inocência, a Francisca, que tem dois anos e meio, fala como um papagaio e num constante mexer vai do muro branco dos lados ao negro alcatrão do piso na ingenuidade da idade, alheia aos perigos que corre. Para complicar a situação a avó, tropeçando nas pernas e embrulhos que lhe ocupam as mãos e lhe vergam a coluna vertebral, só tem a voz para proteger a criança. Uma voz que não chega facilmente ao labirinto do seu ouvido interior nem a impede de saltar, de correr ou de algaraviar alegremente. Um dia será fatal para uma criança como esta, provavelmente a brutalidade dum desastre há-de esmigalhar uma Francisco contra os muros, contra a inépcia dos autarcas. Quando isso acontecer, hão-de desfazer-se em promessas e lágrimas de crocodilo a pensar nos votos das eleições que se seguem e das festas que hão-de fazer para as ganhar. As mortes não estão na agenda.

É um absurdo, para não dizer um crime, uma Câmara ter trinta ou quarenta mil euros para contratar Carreiras (há quem ganhe boas comissões) que andam por aí a plagiar cantigas de outros autores, e não ter esse dinheiro para lançar sobre os largos pegões que sobressaem do pontão desde que foi construído, um passadiço pedonal para proteger as Franciscas deste município. As Franciscas, os Antónios, as Marias, os Josés, todo o cidadão ou pessoa que por ali é obrigada a passar, diariamente. A falta de respeito pela vida do cidadão e das famílias que os levaram ao poleiro com a sua votação, sublinhando crianças inocentes, potenciais vitimas prematuras da hipocrisia dos políticos, é flagrante e insultuosa.

Salvaguardando a pequenez do meio, mas não outras, faz-me lembrar a recente preocupação do presidente Trump pelos emigrantes que chegam à Europa, quando aconselhou o ministro dos negócios estrangeiros de Espanha a construir um muro no deserto do Sara. O ministro agradeceu a sugestão, dizendo-lhe que construir um muro com cinco mil quilómetros era coisa complicada e, com ar de admiração, Trump perguntou se a sua fronteira era maior que a dele com o México, imaginando que fora da América é tudo em escala reduzida. Foi então que os conselheiros o informaram que o Sara não é na Europa e que Espanha tem apenas na África dois enclaves, Ceuta e Mellila, ao que Trump respondeu «night clubs!», finalizando a conversa.

Esta historieta evidencia a tragédia e o perfil de quem hoje se propõe remediar os destinos dos outros, gente vulgar que compreende perfeitamente os problemas da outra gente comum, mas não desce da posição de sobas que assumiram, onde perdem a noção de que a terra é o único sitio onde se pode viver. Por enquanto!

É o drama dum mundo que se torce em lamas de off shores, Jêsetes e em agências de rating, onde os poderes actuais amealham os seus negócios de classe descendo ao baixo teor de fósforo solidário. Matar nas estradas ou com metralhadoras deixa no ar a mesma irresponsabilidade.

Luso, Setembro, 2018                            aguasdoluso.blogs.sapo.pt

Tags: Ferraz da Silva, Opinião
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