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Ser e Parecer
03 Out 2018, 00:00
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Começo por um reparo às minhas próprias palavras da quinzena passada, dado que isto de nunca me enganar e raramente ter dúvidas está longe de ser um atributo ou uma particularidade da minha pessoa. Defendi intransigentemente a continuidade da Procuradora-Geral da República, mas hoje sou obrigado a respeitar e a aceitar até a argumentação que presidiu à sua não continuidade. Primeiro, confesso que desconhecia que, até agora, na história da nossa Democracia, nunca tinha havido lugar a um segundo mandato para o mesmo PGR. De seguida, faz todo o sentido e mais algum que, para a saúde da Democracia, e à luz dos mais nobres valores da rotatividade democrática, que é um dos garantes primeiros dessa mesma saúde, tão relevante mandato seja efectivamente único e prolongado. Joana Marques Vidal foi realmente dura com os duros e, por isso mesmo, colhe toda a simpatia e mais alguma da minha parte, sendo que Lucília Gago, a sua sucessora, tem, ao que parece, traços de actuação bastante semelhantes, o que desde logo me conforta. Posteriores avaliações ficarão para mais tarde.  JMV foi brilhante no combate à impunidade, mas não deixou de representar um sistema permeável e algo permissivo até a fugas de justiça, muitas delas com ligações promíscuas óbvias a alguns órgãos de Comunicação Social tenebrosos, realidade que espero que não se continue a manifestar de forma tão evidente. A confiança do cidadão comum nas suas instituições depende, e muito, da limpeza deste tipo de interesses interdependentes, que faz com que hoje em dia haja uma detenção ou uma qualquer desgraça e apareça primeiro o jornalista do periódico A, B ou C do que as autoridades propriamente ditas. Quando o objecto é conhecido e se tornou num alvo a abater, aí sim, surge de imediato todo o furor do circo mediático que alimenta justicialismos públicos vários, uns que são devidamente fundamentados e outros que nem por isso. Por uma questão de consistência, sinto-me na necessidade de fazer este esclarecimento.

Não tendo rigorosamente nada a ver, há outro assunto na ordem do dia que me tem provocado alguma comichão e que, apesar de se tratar de um tema absolutamente polémico e que mexe com sensibilidades várias, creio que chegou a altura de o abordar de forma desassombrada. Começou com o célebre movimento #metoo, de origem californiana, mas que rapidamente passou à escala global, com Portugal à mistura, a propósito de um acórdão que aparentemente desvalorizou uma alegada violação ocorrida numa discoteca. Nem eu nem ninguém ao cimo da Terra tem o direito de negar a existência de graves abusos e de coacções várias, de natureza física e psicológica, entre indivíduos abusados e indivíduos abusadores. O que não me parece passível de ser consensualmente aceite é que esses mesmos abusos e coacções tenham exclusividade de género. A mais pérfida maldade não tem exclusividade de género, e a História é pródiga em episódios que assim o provam, dado que numerosos foram os episódios de crueldade atroz cujos crimes em causa foram perpetrados por mulheres. Não se pense que com estas palavras estou a suavizar comportamentos ilícitos e inaceitáveis, longe disso, até porque o combate à impunidade é uma das causas que me é mais cara, tenha ela que rosto tiver, rosto, raça, sexo ou credo. Parece-me é que tem havido uma onda crescente de oportunismos vários associados a este tipo de movimentos generalizados que têm surgido, por razões que vão mais além do que aquilo que por norma passa para a esfera pública. Não duvido minimamente que haja um número bastante maior de mulheres violentadas do que propriamente o contrário, talvez mais por valores culturais fortemente enraizados do que por outra coisa qualquer, mas uma coisa parece-me certa e absoluta, daí sublinhá-lo de novo: a maldade não tem exclusividade de género. Tem havido fumo, muito fumo mesmo em torno desta problemática, mas parece-me que a proporção do respectivo fogo não será assim tão justificável. Sou a favor de que abusadores de crianças indefesas sejam castrados quimicamente e encarcerados para sempre, tal como espero que violadores incuráveis de mulheres passem o resto dos seus dias atrás das grades. Que ninguém duvide disto. Mas muitas vezes as coisas não são bem aquilo que parecem à primeira. O ser e o parecer estão separados por uma distância demasiado ténue. Por exemplo, cabe na cabeça de alguém que um colectivo de juízes defenda a sentença que foi aplicada pelo Tribunal, no caso da rapariga alegadamente violada pelo barman e pelo porteiro da discoteca, caso não tivesse fundamentos sólidos que provassem a justiça dessa mesma sentença? Não creio que isso seja possível. No entanto, foi de imediato dado o mote para acusações de misoginia e indignações públicas da mais variada espécie. Há uma forte repressão moral culturalmente enraizada que muitas vezes é cega, ou pelo menos não é justa. A ideia de uma mulher que bate num homem é muito mais tolerável do ponto de vista social do que propriamente a de um homem que bate na mulher, quando ambas deveriam ser censuradas em igual proporção. Não tenho dúvidas que há uma onda de oportunistas declarados a procurar tirar partido do respectivo fenómeno.

Os aparentes contornos do recente assassinato do triatleta Luís Grilo são um exemplo desta dualidade de “parecer” público e social. Quando tudo apontava para que a vítima fosse o maléfico infiel causador da sua própria morte, por motivos passionais, veio a verificar-se após investigação que pelos vistos a mulher é que terá encenado o seu assassinato da forma mais macabra, por motivações meramente financeiras, com o contributo activo do seu respectivo amante. As aparências muitas vezes iludem mesmo, e não faltam por aí lobos vestidos com pele de ovelha, pelo que é preciso algum cuidado e algum recato na análise, sendo a generalização, a este propósito, o pior dos caminhos, como normalmente acontece. Há o ser, claro, mas há também o parecer. Convém preferir estar com os olhos abertos e não “emprenhar” somente pelos ouvidos, como nos lembra o sempre sapiente Povo.

Os pesos e as medidas continuam a depender muito tanto do objectivo como do objecto. Por isso mesmo é que é urgente estar alerta contra todo o tipo de generalizações, no sentido de avaliar devidamente o que está em causa, sem preconceitos de espécie alguma. Nem sempre tudo é o que parece. O ser e o parecer estão demasiadas vezes separados por uma distância que é demasiado ténue.

Convém estar de pestana aberta.

Tags: Mauro Tomaz, Opinião
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