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Entre Céu e Mar duas semanas
03 Out 2018, 00:00
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Foi pouco mais ou menos o tempo que durou a 2ª Volta a Portugal à Vela (7 a 19 de agosto de 1989), e na qual participei com dois engenheiros agrónomos, gémeos, de Coimbra, e mais dois rapazes novos, estes habituados às lidas do mar e fortes fisicamente.

Os engenheiros, já velhotes como eu, tinham adquirido um veleiro de 7 metros e tal em 2ª ou 4ª mão, não sei; era um bom barco de competição e ganhador de várias provas, em donos anteriores, o Flyer II.

Os meus amigos engenheiros introduziram-lhe algumas alterações com a intenção de tornar mais fácil o subir e descer das velas, que passavam num sulco do mastro e deixaram de passar, exigindo assim menos esforço na manobra ao substituí-las, o que era frequente acontecer, dependendo da intensidade do vento. Perderam com isso alguma eficácia, mas mesmo assim ainda era um dos barcos mais competitivos.  

Conheci os gémeos de Coimbra muito antes da prova, foi durante uma consulta no IPO em que eles, no final, me convidaram a assistir a aulas de navegação, dadas à noite em sua casa, por um amigo deles, oficial da Marinha. Aceitei, foi interessante. Aprendi muito e sobretudo a gostar de matemática, trigonometria plana e esférica, esta difícil, mas de que gostei porque lhe encontrei aplicação imediata.

Acabámos todos os três por tirar os cursos de marinheiro – exame na capitania da Figueira da Foz. O de Patrão de Costa, na capitania da Nazaré e, por último, o de Alto Mar, em Lisboa, na Marinha de Guerra, o que obrigou a várias idas semanais de comboio para durante meses assistir às aulas lá recebidas à noite e, no final, ao exame. Aprendi muito, coisas interessantíssimas que obrigam a esforço físico e, sobretudo, intelectual, bem como a dispor de algum tempo, tirado às férias, para a instrução dada num veleiro grande “O Creoula”, em viagens à Madeira.

O Creoula, antigo bacalhoeiro, parte de uma frota de 3 famosos, mandada construir na Alemanha por Salazar. Era um veleiro resistente, feito todo em aço, com motor, mas com pouca comodidade. Como passámos por um temporal com ondas de 8 metros, houve muitos episódios interessantes que talvez um dia conte.

Com as habilitações completas, inscrevemo-nos na prova que incluía 6 regatas “A Volta a Portugal”. 1ª regata: Viana do Castelo -> Leixões; 2ª regata: Leixões -> Figueira da Foz; 3ª regata: Figueira da Foz -> Cascais (Lisboa); 4ª regata: Lisboa -> Sesimbra; 5ª regata: Sesimbra -> Baleeiros (Algarve); 6ª regata: Baleeiros -> Vilamoura.

As regatas decorreram com alguns episódios à mistura em que eu, como médico, estava frequentemente metido, porque os engenheiros, sabendo que as outras tripulações não tinham clínico, andavam a oferecer, numa emergência, os meus serviços, o que talvez lhes tinha aumentado a grande simpatia de que já usufruíam.

Vou contar um episódio que ocorreu antes da prova começar, estávamos em Viana do Castelo.

Havia uma inspeção aos veleiros, feita pela entidade competente, para verificação da identidade dos concorrentes, as habilitações, a existência e qualidade do material de segurança. À última hora soubemos, pelas inspeções já efetuadas a outros barcos, que nos faltava um barco salva-vidas e uma âncora (só tínhamos uma e eram necessárias duas).

Quanto ao barco salva-vidas, os rapazes, não querendo por nada deste mundo deixar de participar, foram pedir um emprestado a um dos concorrentes que, no final da inspeção, devolveram. No que respeita à âncora, mostrámos a que tínhamos. O inspetor perguntou: então, a outra? Os rapazes responderam em simultâneo: é igualzinha a esta. Ficou tudo resolvido com o desenrascanço à portuguesa e a conivência da inspeção. Correu bem e todos saíram beneficiados.

Com o início das regatas começaram os verdadeiros problemas, sendo para nós o mais grave de todos o enjoo, porque o mar estava muito agitado e não nos deu tempo à adaptação; até eu que costumava resistir, enjoei. O vento estava forte (nortada) e na altura, como viemos a saber, fez grandes estragos na mastreação de vários barcos.

Noutras regatas, mais para sul, com vento forte de popa, em que navegávamos em grande velocidade com a vela balão, chegávamos a ultrapassar os 12 nós e, então, era frequente ver uma espécie de barreira enorme de água à popa, que teimava em nos perseguir e parecia ir desabar sobre nós a qualquer momento, mas nessa altura o barco elevava-se e ela passava por debaixo, o que era um alívio, repetido vezes sem conta.

Quando há temporais, e sobretudo de noite, é obrigatório amarrarmo-nos ao barco com cordas. É fácil dizê-lo, mas ninguém o faz, porque é impossível fazer as manobras necessárias ao estar amarrado. O que é preciso é ter força e sorte. Nas grandes tempestades aconselha-se o afastamento da costa e esperar até que passem. Estes barcos são inafundáveis, desde que não sofram um rombo por abalroamento.

Há imensas tarefas a distribuir num barco em regata: os mais fortes encarregam-se das velas (a da proa, a grande, a genoa, a balão, a tempestina). O leme ocupa outro permanentemente, os que sobram vigiam o rádio e a bússola permanentemente, a sonda de profundidade e fazem a distribuição da alimentação aos que não podem abandonar os postos de trabalho.

Para nós, sem grandes ambições, tudo correu bem até ao fim, ficámos em 17º em 21 concorrentes dentro da classe, mas havia muitas classes e muitos barcos melhores. Tivemos sorte, não sofremos acidentes, cumprimos as regras. A classificação pouco nos interessava. Tudo bem, graças a Deus.  

Tags: Virgílio Brêda, Opinião
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