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CRÓNICAS LOCAIS - 253 - O prazer de viajar
31 Out 2018, 00:00
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São cinco e vinte duma madrugada tépida quando o regional rápido se assume por presença na derradeira curva antes da estação ferroviária de Brignole. É terça-feira dum mês de Outubro quente, cheirando ainda a Verão, o que nos leva a dizer que os processos do clima vão mudando as estações, um contraponto à nossa oposição atávica à preguiça da mudança. É noite escura e a longa fila de carruagens do primeiro comboio da manhã surge através do foco central da locomotiva, rasgando pelas paralelas dos carris dois raios de luz difusa. Atrás dos cavalos, força do seu motor eléctrico, divisam-se entre sombras das luzes da cidade as carruagens que curvando na distância se assemelham a uma cobra, acomodando ao leito do caminho segmentos do corpo. A esta hora da alva por surgir, a cidade é quase deserta nos seus quilómetros de centralidade, ouvem-se os primeiros autocarros matinais ou os serviços de limpeza na azáfama normal. Só a gare da estação atrai os vespertinos viajantes que se cruzam no edifício de entrada, nas salas de espera, nos tuneis de acesso às gares, na plataforma superior e finalmente no patamar de acesso a cada composição. Seguimos o rumo da humana conduta.

Ao nosso lado, enquanto o pendular chegado de Turim parte para Roma, o regional frena lentamente em sentido contrário, chiando ruidoso em rodas e carris até estacionar por completo na gare à nossa frente. Para um e outro lado estendem-se as carruagens onde se precipitam, com mais ou menos frenesim, os passageiros apressados. Puxo a mala de carrinho e entro na primeira carruagem onde vejo lugares vazios. O regional não tem lugares marcados, são livres e por metade do custo da viagem, ao contrário dos intercidades e dos comboios de longo curso, TGV’s rápidos que se fazem pagar aos preços de mercado. São cinco e trinta e seis quando, respondendo ao apito do factor, a locomotiva eléctrica dá o primeiro avanço para logo entrar no comprido túnel que, sob o piso da cidade, o vai levar à estação principal de Génova, a estação Príncipe.

A noite mantem-se fechada e negra e uma multidão invade as carruagens. Gente de todas as cores e nações tomam os lugares vazios, confundindo usos e línguas, e na minha frente senta-se um simpático casal. Ele, um italiano magro, alto, meia-idade, ela, uma pequena coreana, elegante, bolachuda, bonita e sorridente. Sobre o corpo um vestido vermelho com pequenas flores de várias cores, que lhe dão um aspecto de boneca oriental e um decote desportivo que lhe dá um ar de jovem. Olho a senhora de certo modo admirado, porque não sei se a conheço. Procuro os olhos de amêndoa buscando-lhe empatia, mas o seu olhar brilhante não reflecte emoções e fico no silêncio da dúvida. Isto porque a única cidadã sul coreana que conheço no mundo vive na cidade. Falei três ou quatro vezes com ela em festas de família e confesso: parecem-me iguais no porte e rosto. Mas não nas atitudes. O casal fala italiano fluente e deixa-me a impressão dum par feliz. A meio da viagem aconteceu um facto curioso, quando a senhora resolveu calçar umas meias calças de rede transparente sobre a pele nua das pernas. Fá-lo sem cerimónias e sem inibições. Retirando as meias duma mala de mão e descalçando os sapatos, enfia-as pelos bicos dos pés, perna a perna, e vai ajeitando a peça até aos joelhos. Aqui levanta-se, tira o casacão cor-de-rosa que traz vestido, com a ajuda do marido, e levanta a parte inferior do vestido até ajustar a parte superior das meias à cintura. Com um sorriso e à vontade inexistente numa mulher ocidental. Desisto de perguntas sobre a identidade da senhora e esqueço o pormenor.

Em Pavia, depois das pontes sobre o Pó e o Ticino, o comboio encheu como um ovo e foi assim, com gente nos corredores, que foi até à gare de Rigoredo, já dentro de Milão e estação Central. Milão é uma cidade grande, populosa e centro de moda, por excelência. A principal estação de chegada é uma cúpula gigante a albergar duas dezenas e meia de gares, donde partem ligações para toda a Itália e Europa. O enorme espaço é uma feira permanente, tudo se compra e vende neste centro nevrálgico europeu, lugar de encontros de povos do mundo inteiro, espécie de nova feitoria da globalização dos nossos tempos, rica e variada nos seus negócios.

São sete e meia da manhã e o dia nasce enquanto percorro a gare ao longo do cais do serviço regional, na direcção da saída empurrando a mala de mão. São comboios de aspecto usado os que volteiam diariamente entre as regiões da Lombardia, do Piemonte, da Ligúria. Os que fazem grandes percursos ou altas velocidades são TGV´s made in Itália, os flechas "rossas" da Trenitália ou o Itálico dos privados que fazem um Milão-Roma em menos de três horas. Passo pela livraria para comprar o jornal diário e desço as escadas para o andar inferior, onde vou apanhar o bus que me leva ao aeroporto em Orio All Sério. Para trás deixo a cidade e a sua gótica Catedral, o Duomo, um dos símbolos mediáticos da civilização ocidental, de alicerces judaico-cristãos cuja arquitectura dirige ao Céu as suas torres, os seus pináculos e as suas preces. Milão é sem dúvida um dos centros da globalização dos nossos dias, uma cidade cosmopolita, pujante e imparável nas variadas direcções dos seus negócios.

Outubro, 2018

Tags: Opinião, Ferraz da Silva
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