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A vindima e trabalhos a ela inerentes anteriores à mecanização moderna
31 Out 2018, 00:00
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Tinham de ser cultivadas manualmente, usando enxadas, alviões, farpões, sachos e outras ferramentas e as videiras, para que pudessem ser trabalhadas, não estavam alinhadas e muito menos aramadas. Estavam apoiadas em paus, afiados à podoa e espetados junto ao pé da videira, de modo a que elas pudessem ser cavadas em redor.

O trabalho nas vinhas, como agora, variava consoante a estação do ano. Era a poda feita com tesoura, videira por videira; a empa utilizando a verga, que se ia buscar nos vergueiros, junto aos rios, e que se levava para casa para limpar à noite, fazendo pequenos molhos; a cava, feita na Primavera, trabalho que requeria grande esforço, pois era muito cansativo. Em geral, era feito por grupos de homens, cavando em simultâneo uma leira de terreno, depois outra e outra. Era trabalho violento, que experimentei quando já tinha idade suficiente, permanecendo um dia inteiro a cavar com um grupo de homens, quase todos já falecidos.

Apenas resta um ainda vivo, de quem sou amigo e com quem cavei lado a lado com outros trabalhadores. É o Manuel Bairrada, originário da Vacariça e que vive na Lameira de S. Geraldo, onde é conhecido por ser homem de trabalho. Ele era também homem de confiança lá de casa, da qual os meus pais, que por serem professores, não podiam, na altura, tomar conta. Eu, o meu irmão e a minha irmã andávamos na Universidade de Coimbra. Eu, só aos fins de semana ia dar uma ajuda e, no tempo da cava, chegava a cavar um dia inteiro, ficando com as mãos cheias de bolhas. Era uma contribuição que dava para ajudar os meus pais que, com alguma dificuldade, chegaram a ter, em simultâneo, três filhos na Universidade.

Depois de cavar tinha de se arrasar o terreno (meses depois, antes da vindima), era o que se chamava arrendar, trabalho mais leve do que cavar, mas, ainda assim, violento, porque tinha de ser feito em tempo quente e tudo feito à enxada. Posteriormente, quando as videiras já tinham muita rama e os cachos começavam a desenvolver-se, aplicavam-lhes o enxofre para combater o oídio e o sulfato de cobre para combater o míldio. Eram estas as únicas doenças que afligiam os agricultores. Era um trabalho, a maioria das vezes, feito por um homem e uma mulher.

Quando a vinha ficava a poucos quilómetros de casa, em geral, ele e ela transportavam tudo para o local de trabalho onde havia um poço ou um rio, onde iam buscar água para fazer a calda bordalesa, que também era feita com sulfato de cobre e cal. A mulher levava a latão (de 100 litros) à cabeça e o homem a máquina de sulfatar e o restante material. Feita a calda, ele iniciava a sulfatação e ela ia-lhe levando o sulfato em regadores. Era um trabalho também pesado e às vezes, muitas vezes, até debaixo de chuva, tinha de ser repetido de 15 em 15 dias.

Chegava a vindima, feita em fins de setembro, princípios de outubro; era o trabalho mais agradável e, por assim dizer, era uma grande festa para todas as famílias, que se reuniam para dar uma ajuda umas às outras, com grande alegria. Mas havia trabalhos paralelos a fazer nas adegas, para preparar a chegada das uvas.

Tinha de se limpar, lavar e calafetar as vasilhas, todas elas feitas de madeira (balseiro, toneis, pipas de variados tamanhos), o que dava muito trabalho, a entrar pela noite dentro, com iluminação de candeeiro de petróleo ou, quando era preciso mais luz, o gasómetro a acetileno. Alguns desses trabalhos tinham de ser feitos por garotos, que tinham de ser fortes física e psicologicamente, como a lavagem do interior de grandes toneis, em que era preciso ir lá para dentro através do postigo, por onde só uma criança cabia. Fiz esse serviço, era o único lá em casa que o podia fazer. Ficava o meu pai do lado de fora a orientar o que tinha de fazer e, se necessário, ajudava-me para sair de lá. Agora até me arrepio só de pensar nisso e no ar que se lá respirava.

Chegado o dia da vindima, dia de grande alvoroço, carregava-se a dorna ou dornas no carro de bois, os poceiros de verga dentro, mais os cestos, tesouras e água para beber. Seguia-se cedo, a pé, em rancho para a vinha.

Os poceiros, à medida que iam sendo cheios, eram transportados pelos homens ao ombro, para a dorna, que quando ficasse cheia rumava à adega onde eu e o meu irmão gostávamos de pisar os cachos, junto com o homem que nos acompanhava; bebíamos às vezes um pouco de mosto, fazendo concha com as mãos (que bom que era) e ajudávamos a transferir as uvas e o mosto para o balseiro onde depois era feita a balsa, virando o bagaço após o início da fermentação. Os bois, com o carro e as dornas, voltavam vagarosamente connosco à vinha as vezes que fossem necessárias, até que tudo estivesse vindimado, até noite dentro, quando a vinha ficava longe, que era o habitual.

Após a fermentação, que decorria quase sempre bem, porque era raríssimo parar (amuar), em geral por falta de leveduras, quando não transportadas pelas moscas das estrumeiras para a cascas das uvas, ainda na vinha. Nessa altura havia muitas moscas e muitas estrumeiras, o que era uma vantagem para ter bom vinho.

A fermentação durava à volta de 3 dias e depois o vinho era retirado dos balseiros ou lagares para as pipas e toneis, usando cântaros de lata de 20 litros (almudes). Cheios os toneis e pipas, punha-se no batoque uma maçã que, mais tarde, quando a fermentação lenta ficasse completa (o que se verificava pondo o ouvido junto do batoque e quando deixasse de se ouvir um crepitar próprio era sinal que o processo estava concluído), então retirava-se a maçã, atestava-se a vasilha e rolhava-se.

Estava quase terminado o trabalho de adega, que também incluía o fabrico de água pé, juntando água ao bagaço ou fazendo aguardante com um pouco do mesmo bagaço.

Terminado o trabalho na adega, depois era esperar pelo S. Martinho para provar o vinho. Nessa altura apareciam sempre compradores, vindos de cidades e vilas distantes; provavam o vinho, gostavam, deixavam um sinal e regressavam meses depois com camionetes carregando cascos vazios que enchiam, pagavam e levavam. Era tudo simples. Com esse dinheiro os lavradores cobriam a maior parte das despesas e viviam alegremente.

Nos tempos que correm tudo é diferente, desde a evolução técnica, incluindo a facilidade do transporte, as boas estradas, às máquinas que podam e também vindimam (aspirando os bagos das uvas), deixando nas videiras apenas os engaços dependurados, sendo o mosto transferido diretamente para cubas em inox para fermentação.

Os grandes vinhateiros têm grandes marcas de vinhos que produzem e engarrafam e parece não terem dificuldade em os vender. Quanto aos pequenos produtores, deixam de contar com os compradores que se apareciam à porta e têm de vender as sobras ao desbarato, mas, mesmo assim, pelo amor que têm às vinhas, teimam em continuar a cultiva-las com prejuízo, mesmo sabendo que os filhos um dia as abandonarão. É a vida.

Tags: Opinião, Virgílio Brêda
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