Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério
Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério
Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério
Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

Cultura

Capela de Santa Ana: três séculos de história e mistério

O edifício religioso conta com 300 anos de histórias e mistérios, sendo o maior de todos a dúvida acerca de quem construiu a capela branca.

Entre as muitas construções históricas, encontra-se a Capela de Santa Ana na Mealhada, caracterizada no seu interior pelo estilo barroco. Foi propriedade da Junta de Freguesia da Vacariça, numa altura em que a Mealhada ainda não era freguesia. Em 22 de março de 1908 foram cedidos à Santa Casa da Misericórdia da Mealhada os direitos sobre a capela e terrenos anexos.

Fragmentos de uma história

O edifício religioso conta com 300 anos de histórias e mistérios, sendo o maior de todos a dúvida acerca de quem construiu a capela branca, um ícone da paisagem da Mealhada. Edificada em 1716, acontecimento marcado num friso, na padieira da porta principal do templo: “Hec Est Domvs Domini Firmitir Edificata/Anno 1716”, cuja tradução é “Esta é a Casa do Senhor firmemente/solidamente edificada no ano de 1716.”

No interior o mistério adensa-se. Na obra “300 Anos da Capela de Santa Ana”, da autoria de Nuno Canilho, é feita referência a alguns elementos, como a bacia do púlpito e duas imagens dos séculos XV e XVIII, sendo, a primeira referida, a mais antiga e cuja data é anterior à construção da Capela.

Na entrada apresenta-se como “a memória dos inúmeros danos causados pelo exército francês comandado pelo general Massena durante o aquartelamento na Mealhada aquando da retirada das tropas, após a derrota na batalha do Bussaco, a 27 de setembro de 1810. A capela foi incendiada e a imagem da padroeira Santa Ana foi degolada.”

A Mealhada desde os seus tempos medievais é um local de passagem, estadia e descanso para peregrinos que realizam o percurso para Santiago de Compostela e de Compostela para Lisboa. Mas é no início do século XVII, durante o fim do período de agitação política originada pela Guerra da Sucessão em Espanha que a Capela de Santa Ana é construída, nascendo, um mistério que perdura há três décadas: quem a construiu e qual a razão da sua edificação?

Quando o Barroco abraça a simplicidade

Três décadas que refletem um espírito de fé, força e sobrevivência, característicos de monumentos e edifícios antigos que lutam contra a deterioração da passagem do tempo, catástrofes naturais e instabilidades sociais e políticas.

Embora a Capela de Santa Ana apresente elementos do estilo Barroco com um forte contraste de luz e sombra e dominância do dourado com pinturas realistas, a simplicidade chega com a estrutura geométrica simples e com o seu exterior de branco. A capela como a conhecemos hoje é uma construção que se fez ao longo do tempo, na qual foram sendo acrescentados os elementos, muitos provenientes de outras capelas.

Nos documentos do Departamento de Património, a investigadora, mestre em Património Artístico e Conservação, Cláudia Emanuel, apresenta uma caracterização de várias partes do edifício religioso. “A Capela, voltada a poente, apresenta planta longitudinal com nave, capela-mor, e sacristia adossada lateralmente. Destaque ainda para a torre sineira, provida de quatro arcos campanários. A fachada principal da Capela de Santa Ana está virada para poente e tem um portal único de verga e cornijas retas. A porta tem moldura reta de friso e cornija, ladeada por frestas retangulares em vãos retangulares e moldurados decorados com almofadas. [O lintel da porta apresenta a inscrição supracitada]. (…) A fachada principal da Capela é encimada por janela de coro retangular com vidros coloridos, aberta posteriormente, já no século XIX.”

Na obra “300 Anos da Capela de Santa Ana”, o autor também refere que “a Torre Sineira- que como já se viu provavelmente não existia em 1794 e que terá sido construída no século XIX.”

 O altar também é detalhado no livro de Nuno Canilho que descreve ter “um retábulo de talha dourada de colunas salomónicas com decoração com de vieiras e folhagens (…) Este retábulo é do primeiro terço do século XVII, ou seja, contemporâneo da Capela de Santa Ana. No entanto, pelos acabamentos e harmonização do conjunto acredita-se que tenha sido reaproveitado de outro templo e adaptado ao espaço (…)”

Santa Ana

Mas não é só a estrutura e o mistério da origem da Capela que são de realçar, mas também a sua santa padroeira, que lhe dá o nome e é venerada pelos visitantes e moradores da Mealhada.

Nuno Canilho referenciou que no arco triunfal sobre as pilastras, aparece a inscrição: “Anna Tibi Meritam Solvm Dant Sydera Sedem Namqve Ex Ventre Tvo Tota Gloria Nata Est”, que o autor aponta ser uma exaltação à Santa Ana e pode traduzir-se como: “Ana, os astros (o céu) dão somente a ti um merecido lugar e na verdade nasceu do teu ventre toda a glória”.

A Santa Ana é a Mãe da Virgem Maria e a avó de Jesus Cristo. No século XVIII (século das luzes, da Razão, do movimento iluminista, da Revolução Francesa, independência dos Estados Unidos da América e o início da Revolução Industrial), a devoção a Santa Ana era muito grande, o autor Nuno Canilho apresenta no seu livro que “segundo o estudo das Memórias Paroquiais desta época em 33,9% das igrejas matrizes do território que hoje compõe o distrito de Aveiro existia uma imagem de Santa Ana, no total de 35 imagens. (…) No espaço do atual do distrito de Aveiro existiam no século XVIII, 12 capelas dedicadas a Santa Ana (…)”

Na mesma obra, o autor refere que a Santa Ana durante séculos foi padroeira da cidade de Aveiro, o povo recorreu à santa na aflição de uma epidemia que se abateu sobre a cidade. No século XIX, os aveirenses passaram a celebrar a Santa Joana, a princesa irmão do príncipe Dom João II.

Ruína e reedificação

39 anos depois de ser construída a Capela Santa Ana é posta à prova pela natureza e acaba por ser afetada pelo terramoto de Lisboa, seguido de um tsunami, em 1 de novembro de 1755. O autor Nuno Canilho expõe que “dizem os especialistas que o material usado nesta época nos edifícios da Barraca-o calcário e argila mostram-se muito vulneráveis ao desgaste a situações limite (…) Sabe-se que o terramoto resultou na ruína da capela (…)”

Os mealhadenses reconstruíram a Capela, mas segundo o autor Nuno Canilho foi acrescentada uma sacristia, que não existia no edifício primitivo. No século XIX é acrescentada a torre sineira, “aproveitando-se para abrir a janela do coro na fachada principal. É também desta altura a pintura original dos caixotões do teto da capela-mor. Também aqui não se sabe se esta pintura foi feita para a Capela de Santa Ana ou para outro espaço. Na década de 1950 foi feito o restauro das pinturas dos caixotões do teto.”

Outra mudança significativa foi em 30 de outubro de 1969 quando o relógio e amplificador sonoro oferecido por Adelaide Kennedy Falcão de Vasconcellos Lebre foi adicionado ao edifício. Entre outras reabilitações e mudanças realizadas na capela está a que decorreu entre 2 de maio de 2017, até 30 de setembro de 2020, em que o edifício passou por várias obras realizadas pela Santa Casa de Misericórdia da Mealhada.

O autor Nuno Canilho explica que o seu livro foi escrito no âmbito da celebração dos 300 anos da Capela, na altura o autor achou que “seria digna de haver uma recolha histórica e comemorativa” para assinalar a comemoração. Além da celebração dos 300 anos, Nuno Canilho realça a ligação emocional com o edifício religioso. “A Capela diz-me muito, fui lá batizado e está ligada à minha condição como cidadão e católico.” O autor ainda expõe que em Portugal, a nível local não há muitas pessoas a fazerem este trabalho de pesquisa e aponta como exemplo “a Capela de São Sebastião que fez 400 anos e não tem um livro.”

O autor expressa que se escrevesse uma nova obra sobre a Capela de Santa Ana seria “com maiores pormenores e mais informação”, acrescentado que vão surgindo novas informações ao longo do tempo.

FreguesiasMealhada

Autor: Jornal da Mealhada

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