Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026 às 09:21

Capela de São João de Luso: o mistério da planta sextavada

Capela de São João de Luso: o mistério da planta sextavada

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Capela de São João de Luso: o mistério da planta sextavada

A Capela de São João, em Luso, passou por uma intervenção que partiu de uma preocupação com o estado de conservação do monumento.

A Capela de São João, em Luso, passou por uma intervenção que partiu de uma preocupação com o estado de conservação do monumento.  Segundo o presidente da Junta de Freguesia de Luso, João leite, a capela pertence à Fábrica da Igreja de Luso, embora esteja inserida no conjunto monumental da Fonte de São João, propriedade da Junta de Freguesia. “Aquela capela pertence à fábrica da Igreja de Luso, mas está inserida no conjunto monumental que é a Fonte de São João”, explica. O edifício apresentava um elevado estado de degradação, agravado pelas características do local. “É uma zona de nascente e é uma zona muito húmida”, refere o autarca.

A última intervenção tinha ocorrido em 2010, pelo que passaram cerca de 16 anos até à nova recuperação. A Junta de Freguesia começou por alertar para o problema e procurou o apoio da Fundação Luso, que já tinha participado na intervenção de 2010. A instituição mostrou-se disponível para apoiar novamente a recuperação e a obra acabou por ser suportada em 90% pela Fundação Luso e em 10% pela Junta de Freguesia. Os trabalhos incidiram sobre diferentes elementos da capela. Foram remodeladas e substituídas algumas peças do telhado, feita a lavagem e aplicado um produto destinado a impedir a passagem de humidade para o interior através da cobertura.

As paredes foram raspadas, rebocadas e posteriormente pintadas. A recuperação da capela integrou ainda um conjunto mais vasto de intervenções realizadas pela Junta na zona central da vila, que incluiu a reparação e pintura de muros públicos, a lavagem do granito da Fonte de São João e a recuperação de mobiliário urbano. A fonte, segundo o presidente da Junta, não tinha sido objeto de uma intervenção daquela natureza desde a obra realizada em 2009. A inauguração da recuperação da capela ocorreu no passado dia 14, com a presença da Fundação Luso, representada por Noémia Calado, e do executivo da Câmara Municipal, que participou a convite da Junta de Freguesia.

O presidente da Junta explica que está em curso um “Programa de Valorização do Património Histórico da Freguesia”, pensado para os quatro anos do mandato. A intenção é que, até ao final desse período, os pequenos monumentos históricos que estão sob responsabilidade da freguesia, nomeadamente fontanários e lavadouros, estejam recuperados e apresentáveis. “Queremos ter ao final dos quatro anos todos os pequenos monumentos históricos que são responsabilidade mesmo da freguesia apresentáveis.”

O programa pretende abranger não apenas o centro de Luso, mas também as aldeias da freguesia, onde estes elementos podem assumir uma importância ainda maior enquanto referências da memória local. A recuperação da Capela de São João passa, assim, a integrar uma estratégia mais ampla de preservação patrimonial.

Neste âmbito, o Jornal da Mealhada (JM) foi a Luso, e entrevistou o hoteleiro Nuno Alegre que contou a história da região apoiando-se em fontes documentais relacionadas com Luso e o Bussaco e apontando algumas das teorias que cercam a história da Capela e de Luso.

 Na sala do Hotel Alegre, o hoteleiro sentou-se em um dos sofás debruçou-se sobre a mesa de centro na qual pousou alguns livros. Começando pela origem da capela, Nuno Alegre menciona como um dos principais pontos de partida a obra “Aquilegio Medicinal”, de Francisco da Fonseca Henriques publicada em 1726 e destinada a fazer o elenco das águas com valor medicinal em Portugal. A obra descreve a água, referindo “um olho de água quente” situado abaixo de uma “copiosíssima fonte de água fria”, identificada como a Fonte de São João. Contudo, não existe nessa descrição qualquer referência a uma capela. “Em 1726 não há qualquer Capela”, afirma Nuno Alegre.

Mas, para o hoteleiro, constitui uma evidência indireta importante. Já em documentação cartográfica de 1810, produzida no contexto da Batalha, surge a indicação de “Capela e fonte”. Da comparação entre os dois momentos resulta uma janela temporal: a capela terá sido construída entre 1726 e 1810. Nuno Alegre é, contudo, alerta na forma como apresenta esta conclusão. “Esta é uma evidência indireta. Não é documentada.”

O mistério dos seis lados é precisamente a arquitetura que torna a Capela de São João particularmente intrigante. A construção apresenta uma planta hexagonal, que Nuno Alegre considera extremamente rara em Portugal. Recorre à obra do professor Paulo Varela Gomes que escreveu um livro sobre as capelas do Bussaco e o Sacromonte. Segundo Nuno Alegre que em determinada altura cruzou-se com a obra explica que o autor afirma que as capelas com planta sextavada “são extremamente raras em Portugal”. Acrescentando que surgem sobretudo na Beira Litoral e aparecem frequentemente associadas à água. Nuno Alegre explica apontando a existência de uma capela em Santa Comba Dão, junto ao rio e a Norte, na praia de Miramar. Neste sentido, o hoteleiro realça que a Capela de São João “é efetivamente é especial, porque são raras”, afirma.

Nuno Alegre reforça a raridade da capela explicando que é feita “em plena época da Inquisição”. A configuração do edifício é relacionada com outros elementos existentes no local, nomeadamente a fonte e as suas características. Há ainda as seteiras existentes nas paredes da capela. O hoteleiro considera que não terão sido concebidas com uma função militar. A sua localização permitiria observar quem circulava junto ao edifício e, simultaneamente, proporcionaria alguma reserva a quem estivesse no interior. “Era um sítio em que se conseguia realmente conversar com algum recato”, afirma. Esta interpretação, porém, não está documentada.

Neste contexto o hoteleiro levanta a seguinte questão: “por que razão foi escolhida uma planta de seis lados? Nuno Alegre, aponta que há muitas teorias. Mencionando o professor Moisés Espírito Santo, que era sociólogo e “correu” o país todo à procura de indícios da presença de culturas semíticas na religião pagã portuguesa. Destacando que o autor também fez o “único” dicionário que existe de púnico (a língua fenícia) para português.

A hipótese de uma presença criptojudaica

Neste ponto, Nulo Alegre realça que são teorias e cruzando a arquitetura da capela com os estudos do sociólogo Moisés Espírito Santo sobre possíveis influências semíticas na religiosidade popular portuguesa. A interpretação parte da associação simbólica entre o feminino e a água, representada pela nascente, e o masculino, associado à montanha. A junção desses elementos conduziria a uma forma hexagonal, que Nuno Alegre relaciona com a estrela de David. “São coincidências, mas são muitas”, aponta.

A hipótese é reforçada, na sua leitura, pela própria fonte. Segundo a descrição que faz dos vestígios e do material fotográfico, a antiga estrutura teria sete degraus, um patamar e a nascente. Para Nuno Alegre, estas características podem corresponder às condições necessárias para a existência de um mikveh, uma estrutura destinada à purificação ritual judaica. “Um mikvei é uma tina de purificação judaica”, explica. Mas faz uma ressalva importante: “Um mikveh pressupõe determinadas condições de utilização e privacidade e a fonte de Luso, na configuração que é possível reconstruir, seria demasiado pública”. Neste sentido, conta que “não cumpre essa premissa, mas cumpre as outras todas.” A possibilidade de uma presença criptojudaica em Luso é, por isso, apresentada como hipótese e não como conclusão histórica.

Nuno Alegre refere ainda outros indícios: a tradicional divisão entre “Luso da Igreja” e “Luso d’Além”. As antigas casas associadas à família Pimenta, com passagens interiores; e o topónimo “Cabeço dos Judeus”, que interpreta como possível sinal da existência de um antigo cemitério. Mas realça que “não há evidências físicas de nada disto”, para além dos elementos arquitetónicos e da configuração da fonte.

É precisamente por isso que considera necessária uma investigação arqueológica. “Se não houver arqueologia, a gente não chega lá.”

 Origem do financiamento da construção da capela

Nuno Alegre levanta como hipótese que a capela possa ter sido construída com dinheiro de alguém que regressou do Brasil. Segundo o hoteleiro era comum que pessoas que faziam fortuna nas colónias regressassem à terra de origem e financiassem obras como forma de agradecimento ou devoção.

A possibilidade ganha sentido no contexto económico que descreve para Luso entre finais do século XVIII e princípios do século XIX. A localidade era uma comunidade pobre, ligada aos moinhos e à exploração da água. Neste contexto Nuno Alegre expõe a seguinte questão: “De repente, tem dinheiro para fazer uma capela. Porquê? Como? De onde é que veio o dinheiro?”.

O santo padroeiro

A capela é dedicada a São João Evangelista e não a São João Batista, cuja ligação simbólica à água seria mais imediata. O Evangelista é celebrado no solstício de inverno, enquanto São João Batista é associado ao solstício de verão. São João Evangelista é ainda representado pela águia de Patmos, precisamente a figura que surge sobre a fonte no brasão de Luso. Para Nuno Alegre, estes elementos devem ser interpretados de forma mais ampla, onde símbolos religiosos, topónimos, água e arquitetura se cruzam. “Esta terra está cheia de pequenas microtoponímias muito engraçadas”, afirma.

Segundo Nuno Alegre, não encontrou, nem no Livro Preto da Sé de Coimbra nem na documentação paroquial que consultou, um registo da construção da capela ou da sua propriedade. “Que saiba, mesmo no Livro Preto da Sé e aqui na própria paróquia, não há registro da construção da capela. Ou da propriedade da capela.” A explicação para a escassez documental passa também, na sua leitura, pela própria natureza das fontes históricas disponíveis. Durante muitos séculos, a documentação detalhada ficou sobretudo associada a as dioceses, que mantinham inventários e registos das suas propriedades. Uma parte significativa da população era analfabeta e deixava poucos documentos escritos.

Por isso, a história da capela terá de ser reconstruída, pelo menos em parte, através do cruzamento de fontes, mapas, vestígios arquitetónicos, fotografias e estudos de outros autores.

O conhecimento sobre aquilo que se está a conservar continua incompleto. É justamente por isso que Nuno Alegre insiste na necessidade de prudência.

“A documentação é inexistente”, resume. O trabalho passa, portanto, pela interpretação dos indícios, deixando sempre aberta a possibilidade de novas descobertas alterarem as conclusões atuais. “Quanto mais estudamos, mais dúvidas temos. Esta é que é a grande verdade da coisa.” A Capela de São João permanece, assim, entre alguns factos comprovados e algumas teorias que alguns índios apenas permitem levantar.

 Para Nuno Alegre, a investigação histórica e arqueológica poderá, no futuro, ajudar a perceber o que está por detrás dos seis lados da planta da capela, da fonte e das histórias que o lugar ainda conserva: “Se alguém quiser provar o contrário, e tiver uma evidência que prova o contrário, melhor. Quem trouxer luz à discussão é sempre bem-vindo.” A história da Capela de São João de Luso ainda não está fechada. E talvez seja precisamente essa ausência de uma resposta definitiva que torne o pequeno templo junto à fonte um dos patrimónios intrigantes da freguesia.

Luso

Autor: Jornal da Mealhada

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