Rui Cabral recupera memória familiar e histórica da Mealhada em “A Cama do Rei”
O lançamento da obra é organizado pela Misericórdia da Mealhada e realiza-se no dia 25 de junho, às 17h30, no Cineteatro Messias
O livro “A Cama do Rei: Fotobiografia de uma família da Mealhada”, do autor Rui Quaresma de Macedo Cabral, vai ser lançado no dia 25 de junho, às 17h30, no Cineteatro Messias, e conta com a apresentação da escritora Clara Macedo Cabral. O autor iniciou a profissão de jornalista em 1970 no jornal “O Século”, onde era repórter quando eclodiu a Revolução de 25 de Abril de 1974. Em entrevista ao Jornal da Mealhada, contou como surgiu a inspiração para escrever a obra.
O autor e jornalista explicou que o livro nasce de uma investigação que faz há oito anos do espólio pessoal da sua família. “O meu pai morreu em 2018, em janeiro de 2018. E numa casa na Mealhada e em duas em Lisboa, pertencentes à família, havia imensos baús e caixas e toda uma panóplia de documentos. Havia uma acumulação de várias gerações de documentação e de fotos. Então passei imensos serões, meses, pela noite dentro, com máscara na cara, porque eram papéis muito velhinhos, a estudar toda a documentação”, descreveu.
O autor conta que no princípio não entendeu o conteúdo do espólio da família até que, a certa altura, encontrou uma fotografia. “Era uma fotografia com muitas pessoas que tinha uma legenda, e isso foi uma pérola, porque logo descobri que as pessoas que estavam ali se relacionavam com outras fotografias, e os documentos também foram ajudando. E a certa altura consegui compor uma árvore genealógica da família”, relata.
A descoberta de documentos e fotografias acabaria por levar o jornalista a uma parceria com a Santa Casa da Misericórdia da Mealhada para a publicação de uma obra. “Ao começar a minha investigação, contactei o Dr. António Breda Carvalho e ele, ao ver aquilo que tinha entre mãos e o espólio fotográfico enorme que reconstituí, propôs apresentar-me ao Dr. Nuno Castela Canilho, que imediatamente me convidou a fazer uma fotobiografia a ser publicada pela Santa Casa da Misericórdia da Mealhada”, afirmou.
A investigação tornou-se um processo de oito anos e o autor explicou o trabalho de reconstrução da informação genealógica e histórica, salientando os “serões intermináveis a ler assentos dos batismos, casamentos e óbitos”. Recordou que desde o Concílio de Trento (1545-1563) os abades de todas as paróquias passaram a ter de proceder aos assentos de batismo, casamento e óbito – documentação essa depositada actualmente na Torre do Tombo e disponível on line. Conhecer-se um assento de casamento é uma descoberta ótima porque, como se trata de um contrato, tem muitos mais dados, como os nomes e naturalidade dos pais e avós dos nubentes.
No que diz respeito à ligação da sua família com o concelho, Rui Cabral afirma que tem uma grande implantação na história da Mealhada: “O meu avô paterno é o Capitão Cabral recordado na toponímia da rua Capitão Cabral, perpendicular à Estação dos Caminhos de Ferro.“ E acrescenta:
“Tive dois antepassados que foram presidentes da Câmara Municipal da Mealhada no século XIX, eram dois irmãos, João Batista Ferreira e Adriano Batista Ferreira. O Adriano e o seu sogro, Joaquim Lopes Carreira de Melo, fundaram uma grande empresa de comercialização de vinhos, e a história diz que foram, com essa companhia, os propulsores da região demarcada dos vinhos da Bairrada”.
O autor conta ainda que Maria da Nóbrega, escritora da terra, é a sua tia-bisavó. “O meu avô paterno, o Capitão Cabral, casou-se com uma senhora nobre de Viseu, que é a minha avó Clara, descendente dos rei D. Fernando I, e portanto, toda essa linhagem está historicamente estabelecida. É uma linhagem que vem do D. Fernando I, de um vice-rei da Índia e de capitães-mores da carreira da Índia”.
Neste sentido, o autor continua contando que o seu avô, o tal Capitão Cabral, era neto de uma prima do Marquês de Tomar, porque o pai e o avô paterno deles eram de uma aldeia chamada Casais, no Concelho de Mangualde. Aponta que o pai desse Capitão Cabral, Aníbal Costa Cabral, era estudante em Coimbra quando conheceu a irmã da Maria da Nóbrega, a irmã mais velha, Maria Luísa, na Mealhada. “E casou-se com ela, daí a união e o ramo da Mealhada, da minha família”, conclui.
Rui Cabral realça que o livro é importante para a história da Mealhada, como uma memória local, e reforça que o valor histórico do trabalho desenvolvido ajuda a colmatar lacunas na memória local. “No fim do século XIX, a Câmara Municipal da Mealhada ardeu toda”, relata. O autor acrescenta que grande parte da documentação histórica da região se perdeu, o que torna a reconstrução do passado mais difícil.
O autor revela que a sua família também tem uma grande ligação ao Exército: “Os arquivos militares têm as fichas de todos os oficiais, e portanto do meu avô, do meu pai, e isso mostra bem o que sou: filho, neto e bisneto de militares. O meu pai era militar, o meu avô também, o irmão do meu pai era militar e, do lado materno, o meu avô e o meu bisavô também eram militares. Os arquivos do Exército são uma fonte importante”, afirma. Rui Cabral aponta que a ligação da família à vida militar aumentou a sua vontade de investigar. “Dá-me curiosidade, porque é interessante perceber esta cultura. Nos arquivos do Exército descobre-se tudo sobre os oficiais, se eles saem do quartel onde estão instalados, ou se saem do distrito. Os arquivos têm o percurso de todos os militares, porque têm de assentar tudo administrativamente e financeiramente na ficha deles”, afirma.
Mas, para o jornalista, há outra fonte importante para a história do seu ramo da Beira Alta: “São as inquirições da Inquisição”. E aponta que tem um antepassado distante familiar do Santo Ofício que, para o ser, era investigado. “Eram enviados agentes da Inquisição a partir de Coimbra para a região, para investigar pelas aldeias todas e saber quem eram os pais e os avós e verificar como deviam ser registados”, descreve. O autor reconhece que não é “bonito de contar assim”, mas inseriu a informação na sua obra como uma realidade de outros tempos.
“Essas inquirições estão todas na Torre do Tombo. E assim, quando se sabe que alguém foi familiar do Santo Ofício, descobre-se lá quem eram os pais e os avós dessa pessoa. Há logo ali uma série de ramos. Depois investiga-se os nascimentos e os casamentos e começa-se a descobrir mais uma panóplia de gente. É assim que se vai formando uma árvore genealógica. Depois há a tradição oral, a lenda e aquilo que se contava na família, as cartas que nunca se deitavam fora e muito estudo e leitura” explica o autor. Parte inferior do formulário
Autor: Jornal da Mealhada

