Sexta-feira, 22 de Maio de 2026 às 16:30

Rita Simões-Muir: Uma portuguesa que conquistou o paddock internacional

Rita Simões-Muir: Uma portuguesa que conquistou o paddock internacional

Rita Simões-Muir @Fernando Simões

Rita Simões-Muir @Fernando Simões

Rita Simões-Muir @Fernando Simões

Rita Simões-Muir @Fernando Simões

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Rita Simões-Muir: Uma portuguesa que conquistou o paddock internacional
Rita Simões-Muir @Fernando Simões
Rita Simões-Muir @Fernando Simões
Rita Simões-Muir @Fernando Simões

Entrevista

Rita Simões-Muir: Uma portuguesa que conquistou o paddock internacional

Há pessoas que seguem caminhos previsíveis, outras preferem construir o caminho enquanto avançam. Rita Simões-Muir, pertence à segunda categoria

Há pessoas que seguem caminhos previsíveis. E há outras que preferem construir o caminho enquanto avançam.
Rita Simões-Muir, conhecida como Rita from the Pit Lane, pertence claramente à segunda categoria.
Bairradina, nascida em Anadia, saiu de Portugal há 13 anos, formada em Design pela Universidade de Aveiro, acompanhada por uma enorme vontade de descobrir o mundo — e por uma gata, Natinha, que a acompanha desde os tempos de estudante.
A Escócia, mais precisamente Glasgow acabou por se tornar casa. Primeiro trabalhou em hotelaria. Depois entrou na Apple.
Mais tarde integrou uma multinacional ligada à advocacia, onde hoje trabalha na área de conteúdos e formação para jovens advogados, entre reuniões, palestras e viagens frequentes a Londres.
Mas, paralelamente à vida profissional, existia outra paixão antiga.
O automobilismo.
Aquilo que começou em criança, ao lado do pai, diante da televisão, transformou-se numa presença reconhecida dentro do universo da Fórmula 1 e dos ralis. Hoje, Rita é convidada por marcas como Aston Martin, Audi e Mercedes para eventos oficiais como seja a apresentação de novos carros e equipas
Da Formula 1 e esteve recentemente no Rali de Portugal , convidada pelo WRC, para comentar e entrevistar os pilotos do WRC 1 e 2.
Mas por detrás da velocidade existe sobretudo uma mulher profundamente ligada às pessoas, aos animais, à autenticidade e à liberdade de poder ser exatamente quem é.

A Mulher que saiu para se encontrar

“Precisava de descobrir quem era”

Quando saiu de Portugal rumo à Escócia, num ja longínquo 12 de Agosto, Rita não levava um plano fechado.
“Nunca imagino os próximos cinco ou dez anos. Tenho os meus sonhos, mas gosto mais de aproveitar aquilo que a vida traz do que criar objetivos muito específicos.”
Saiu à procura de oportunidade, mas também de espaço.
Espaço para crescer.
Espaço para respirar.
Espaço para existir sem se sentir limitada.
“Sempre fui um bocadinho ‘outsider’.”
A mudança acabou por ter um impacto muito mais profundo do que imaginava.
“Precisava mesmo de poder ser eu e descobrir quem eu era.”
Mais do que uma mudança geográfica, foi quase um renascimento emocional.
“Sinto que, de certa forma, voltei a nascer. Isso ajudou-me a reinventar a Rita do futuro, mas também ajudou a apaziguar a Rita do passado.”

Identidade, cultura e liberdade

“Aprendi a não pedir desculpa por ser eu”

Na Escócia encontrou algo que sente que não tinha vivido totalmente em Portugal:
diversidade humana.
Criou um forte círculo de amigos de diferentes culturas, religiões, orientações e
formas de estar.
E isso mudou-a profundamente.
“Cresci numa espécie de bolha, toda a gente era muito parecida.”
Mas foi nesse novo ambiente em Glasgow que aprendeu a sentir-se confortável consigo própria.“Chegar a uma cidade onde as pessoas parecem “gomas” — todas diferentes e com sabores diferentes — permitiu-me aprender a ser eu mesma sem ter de pedir desculpa por isso.”
Apesar disso, Portugal nunca desapareceu da sua identidade.
Pelo contrário.
“Faço um esforço consciente para continuar a ser Portuguesa.”
Porque reconhece que foi precisamente por ter nascido e crescido em Portugal que
ajudou em parte a formar a pessoa que é hoje.

Transição

E talvez tenha sido precisamente essa procura por identidade, pertença e liberdade
que tornou ainda mais forte a ligação a um universo onde durante muitos anos as
mulheres quase não tinham espaço e onde ainda lutam por ele.
O automobilismo.

A menina dos domingos de Fórmula 1

“O som dos motores ainda me faz sentir em casa”
Muito antes dos paddocks internacionais, existia apenas uma menina sentada ao lado do pai a ver corridas de Formula 1 ao Domingo.
E essa memória continua viva.
“O som dos carros de Fórmula 1 ainda hoje me dá conforto.” Mais do que velocidade,
aquelas tardes representavam casa, família e segurança. “É aquele sentimento de
estar no sofá com o meu pai e com a família. A semana já passou, a próxima começa
amanhã… e aquele som ficou ligado a isso.”
Talvez por isso continue a falar do automobilismo quase como quem fala de um lugar
emocional.

A mulher no automobilismo

“Ainda sinto que tenho de provar o meu valor”
Hoje, Rita tornou-se uma presença reconhecida no universo do automobilismo como @ritafromthepitlane.
Mas entrar num meio ainda muito masculino nunca significou facilidade.
“Sinto todos os dias que tenho de fazer mais para provar o que valho.”
Apesar da evolução do desporto, os preconceitos continuam presentes.
“Recebo mensagens a dizerem para eu ir para a cozinha. Ainda acontece semanalmente.”
Com o tempo, aprendeu a lidar melhor com isso.
Mas sem perder consciência da realidade.
“Há pessoas que ainda pensam que as mulheres não pertencem ao desporto automóvel.
Não entendem ou incomoda”

Comunicar o automobilismo de forma diferente

“Uma modalidade não pode ser diversa se for inacessível”

Curiosamente, Rita vê pontos de contacto entre aquilo que faz na empresa e aquilo que faz no automobilismo.
Nos dois lados existe comunicação, proximidade e partilha de conhecimento.
“No fundo, aquilo que faço hoje na empresa não é assim tão diferente do que faço no automobilismo.”
No trabalho ajuda jovens advogados em início de carreira através de conteúdos, formação e palestras.
E sente que essa capacidade de comunicar também passou naturalmente para o universo da Fórmula 1 e do automobilismo.
“Gosto de estudar profundamente para perceber e depois ensinar e transmitir conhecimento às pessoas.”
Talvez por isso a sua forma de comunicar automobilismo seja mais próxima, mais simples e mais humana.
Porque acredita que o desporto automóvel não deve estar fechado apenas para especialistas.
“Uma modalidade não pode ser diversa se for inacessível.”
Rita tenta trazer humor, simplicidade e emoção para aproximar novos públicos.
“Se colocarmos demasiada dificuldade, as pessoas afastam-se.”
E no centro de tudo continua sempre a existir a fervorosa adepta.
“Espero que a profissional nunca ultrapasse a fã.. Assim o interesse será sempre mais intenso”

O automobilismo por dentro

“As pessoas não imaginam o que existe nos bastidores”

No recente Rali de Portugal, Rita teve oportunidade de viver ainda mais intensamente os bastidores do desporto automóvel, nesta modalidade.
E aquilo que mais a marcou foram as pessoas.
“Há milhares de pessoas anónimas a trabalhar dia e noite e ninguém imagina isso.”
Pilotos, comentadores, equipas, mecânicos, emoções, tensão e euforia — um universo inteiro que existe para lá daquilo que o público normalmente vê nas “classificativas”..
Mas houve também algo particularmente evidente na forma como viveu o evento: a energia leve, próxima e descontraída com que comunicou no recente Rali de Portugal.
Entre entrevistas, comentários e conteúdos para o WRC, Rita trouxe humor, espontaneidade e uma alegria muito própria, quase transformando aqueles momentos numa celebração coletiva da paixão pelo automobilismo.
Uma abordagem que acabou por gerar uma reação muito positiva não apenas junto do público, mas também entre responsáveis do WRC e vários pilotos, que reconheceram precisamente essa capacidade de aproximar o desporto das pessoas sem perder profissionalismo.
E isso não acontece por acaso.
Porque, para Rita, o automobilismo nunca foi nem será apenas competição. É estudo profundo.
Mas também comunidade.
Partilha.
Emoção.
“Ver os pilotos ao final da noite a comerem connosco, ver os altos e baixos, o burburinho quando acontece alguma coisa… é incrível.”
Há imagens que ficaram gravadas.
“Ver o pôr do sol no service park e os pilotos a chegarem ali tão perto… são coisas que uma pessoa nem imagina. Sente-se tensão, vibração”
E tem que ser contado tal como é vivido.

Livros, Senna e memória

“As paixões contam quem somos”

Fora das pistas, continuam a existir outras paixões antigas.
A leitura é uma delas.
Um dos momentos mais especiais aconteceu quando recebeu pessoalmente um prémio das mãos de Dan Brown, um dos autores que admira.
“Na noite anterior sonhei que o ia conhecer. E aconteceu mesmo. Ganhei um prémio”
Guarda o livro autografado ,“Origins”, e a mensagem personalizada que o escritor lhe deixou, mas também os momentos que conversou com ele no backstage.
Mas existe outra figura emocionalmente incontornável na sua vida: Ayrton Senna.
O recente encontro em Milton Keynes com Keith Sutton, fotógrafo histórico e amigo próximo do piloto brasileiro, teve um significado especial.
“Eu e o Keith Partilhamos muita coisa pois temos uma paixão muito parecida pelo
automobilismo.
Ele vem imensas vezes a Portugal . Gosta muito do nosso país tal como gostava de Ayrton Senna. Eles cresceram juntos e o Keith continua a ter uma paixão muito inocente e muito efusiva pelo desporto automóvel e temos muita essa ligação apesar de sermos de gerações completamente diferentes. Temos assim uma paixão que é quase igual e a ligação com Portugal porque como nós sabemos a Ayrton era um ídolo no Brasil mas era também um ídolo em Portugal ,como no mundo inteiro. Ele tinha um apego muito grande a Portugal onde ganhou o seu primeiro Grande Prémio na Formula 1.”

Casa

“Os motores também me fazem sentir em casa”

No meio de viagens constantes, projetos, corridas e exposição pública, há coisas que continuam essenciais.
Os animais são uma delas.
“Os meus animais são família.” Buster o cão e Natinha a inseparável companheira.
Durante muitos anos pensou até em ser veterinária, até perceber o impacto emocional de lidar com sofrimento animal.
Hoje continua profundamente ligada aos animais e à relação emocional que cria com
eles.
Mas também às pessoas.
À família que sempre teve.
E à família que foi construindo pelo caminho. Ao marido Scott, escocês, e aos inúmeros amigos que tem atualmente junto de si.
“As minhas pessoas fazem-me sentir em casa.”
E curiosamente, também os motores continuam ligados a esse sentimento de pertença.
“O barulho dos motores faz-me sentir em casa.”

Fazer Acontecer

Nos próximos meses, Rita seguirá de perto ligada ao automobilismo, incluindo já em Agosto uma presença em Zandvoort, convidada Mercedes e pelo piloto Kimi Antonelli, para estar nas “boxes” da marca, além de novos projetos ligados ao WRC, ainda com provas no Campeonato do Mundo de Ralis deste ano e algo mais que a seu tempo se revelará.
Mas no meio de tudo existe uma ideia que resume muito daquilo em que acredita.
Para Rita, fazer acontecer não significa apenas conquistar espaço.
Significa aproximar pessoas.
“Relembrar que somos todos pessoas. Que podemos estar unidos pelas mesmas paixões ou por paixões diferentes.”
Porque talvez seja isso que verdadeiramente distingue as pessoas que fazem
acontecer.

Fotografias:Fernando Simões 

Leitura

Autor: Fernando Simões

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