Educação, telemóveis e Inteligência Artificial em destaque na receção à comunidade educativa da Mealhada
A sessão teve como mote “Vamos continuar a sonhar?” e juntou autarquia, diretores escolares e comunidade educativa
A Receção Municipal à Comunidade Educativa da Mealhada para o ano escolar 2026/27 realizou-se ontem, dia 10 de setembro, no Cineteatro Messias, pelas 9h30. A sessão teve como mote a questão “Vamos continuar a sonhar?”.
O encontro contou com a presença do diretor do Agrupamento de Escolas da Mealhada, Fernando Trindade, do diretor da Escola Profissional Vasconcellos Lebre (EPVL), Carlos Sousa, do Executivo Municipal, de professores, pessoal não docente, técnicos e representantes das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), das Juntas de Freguesia, da Assembleia Municipal, do Conselho Municipal de Educação e de Associações de Pais.
Além das intervenções institucionais, decorreram momentos musicais, com a aluna do 12.º ano da Escola Secundária da Mealhada e residente na freguesia da Pampilhosa, Joana Batista, a interpretar alguns temas. Seguiu-se a apresentação de um vídeo alusivo ao setor de educação da Mealhada.
O presidente da Câmara Municipal da Mealhada, António Jorge Franco, afirmou que este é o momento para novos desafios. “Sempre na expectativa de que seja melhor do que o ano anterior, é tempo de novos desafios, aprendizagens e encontros. De renovar a nossa confiança naquilo que podemos construir juntos. A educação é uma das grandes preocupações deste Executivo Municipal, dos diretores, de todos os que se têm envolvido, no sentido de criarmos as melhores condições para os nossos alunos, professores e assistentes técnicos. Que possamos ter o melhor para o nosso futuro, e temos de procurar mostrá-lo não apenas através de palavras, mas também com investimentos e, sobretudo, com presença.”
O autarca da Mealhada apontou ainda intervenções que têm o objetivo de melhorar as condições das escolas: “Intervindo nos espaços, criando melhores condições para os alunos, professores e pessoal não docente. Há obras que ainda não estão concluídas, outras planificadas e que ainda estão no imaginário, mas com a nossa preocupação: falo da Pampilhosa, do jardim de infância, e de Barcouço, que é um problema que temos de resolver. Estamos, através da Carta Educativa, a trabalhar para que isso seja uma realidade a curto prazo”, declarou.
De seguida, decorreu a intervenção do diretor do Agrupamento de Escolas da Mealhada, Fernando Trindade, que se dirigiu aos presentes e realçou a importância da educação. “Sabemos hoje que temos, pela primeira vez na história da civilização, uma geração com nível médio de QI mais baixo do que a anterior; isto não era suposto acontecer. Com tudo o que sabemos sobre nutrição, proteínas, vitaminas, e com as condições, em grande parte do mundo, no que toca à alimentação e cuidados de saúde muito melhores, quando se consegue reduzir a taxa de mortalidade infantil e chegamos a um ponto em que se descobre isto, alguma coisa está errada.”
O diretor do Agrupamento de Escolas da Mealhada continuou apontando a importância da linguagem: “Construímos uma civilização com mais de dois mil anos que se centrou em construir tudo com base em duas ou três coisas. A mais elementar de todas — e que ainda não desapareceu, nem vão conseguir fazê-la desaparecer, pois a própria tecnologia agora usa isso — é a linguagem.” Fernando Trindade expôs que a linguagem tem sido desvalorizada: “Aquilo a que chamamos linguagem tem sido particularmente maltratado. Nota-se na competência linguística ao nível da escrita, oralidade, relações, da compreensão do mundo e das decisões.”
Neste âmbito, o diretor do Agrupamento de Escolas da Mealhada questionou: “Como se explica que, num tempo em que nunca se fez tanto investimento em educação ou em recursos materiais e humanos, para que os resultados ainda estejam a piorar?”.
“Continuamos a falar e a precisar da linguagem. Para se fazer programação e para nos explicarmos aos computadores, continua a ser necessária. Por isso é que o problema não é os robôs criarem um mundo paralelo ou substituírem os humanos. O mundo é o mesmo porque estamos sempre no mesmo ponto”, declarou Fernando Trindade.
O diretor do Agrupamento de Escolas da Mealhada também abordou o uso de telemóveis, afirmando que “não há nada mais perigoso, neste momento, do que um telemóvel para uma criança”. “Tive, no ano passado, um ano extraordinário, no pior dos sentidos, em termos de processos disciplinares por causa do mau uso de telemóveis. Um telemóvel hoje é uma arma e é usado por esta geração sobretudo como uma. Portanto, quando um pai dá um telemóvel a uma criança, há que o responsabilizar”, alertou. Acrescentou ainda que é uma problemática a combater: “Há um combate a travar. Não estou a dizer que é para acabar com os telemóveis — isso não é possível. Mas não se pode dar um telemóvel a uma criança sem primeiro a ensinar a usá-lo”, reforçou.
Além do telemóvel, outro tema que Fernando Trindade destacou foi a Inteligência Artificial (IA) considerando-a “algo que põe em causa o mais básico da nossa função na escola ou como educadores: ensinar e uma criança a aprender. Já todos usamos, mas ataca o mais essencial da nossa civilização: a educação.” O diretor explicou que, atualmente, a Inteligência Artificial consegue encontrar informação “em apenas três segundos”, o que, no seu entender, poupa tempo e ajuda, mas realça que, no caso de um aluno, “não é isso que acontece”, referindo que, “em vez de aprender, deixa que seja a IA a fazer por ele”. “A educação é aprender; quando se mete a IA nisto, o aprender acaba”, afirmou.
O diretor da EPVL, Carlos Sousa, também discursou, começando por referir que “a escola é um espaço em constante mutação”. Acrescentando que “não há nenhum ano em que não haja uma alteração. A escola vive desta relação, desta gestão de pessoas e de interação social.” O diretor fez uma menção ao mote da sessão, afirmando que na EPVL continuam a sonhar todos os dias: “Porque, como já nos ensinaram e todos tivemos a oportunidade de pensar, cada vez que o homem sonha, a obra nasce. Se não sonhamos, a obra não acontece. Por isso, sonhamos com uma cidadania cada vez mais ativa e responsável.”
O responsável pela EPVL realçou que sonham com uma escola mais equipada e mais capaz de estar ao serviço da comunidade. “Temos um centro tecnológico, num investimento de mais de 1 milhão de euros — não em paredes, mas em equipamento para pôr ao serviço das pessoas. Convido toda a comunidade a usufruir desse espaço e desses equipamentos: se precisarem de fazer um filme, uma reportagem com mais qualidade, uma impressão em 3D ou para trabalhar numa formação sobre tecnologias, estamos de portas abertas. O centro tecnológico não faz sentido sem estar ao serviço da comunidade e da região”, expressou.
Carlos Sousa abordou também uma das problemáticas referidas, apontando como uma preocupação e um objetivo ter “melhores resultados ao nível da leitura e da escrita, uma vez que os indicadores que chegam são preocupantes”. “Vamos ajudar a resolver este problema criando oportunidades para os nossos alunos terem contacto com o livro e com a escrita. Investimos cada vez mais no Festival Literário e em oportunidades para os alunos comunicarem e estabelecerem relações. Precisamos de criar oportunidades para a leitura”, afirmou.
O diretor continuou a sua intervenção apontando a aprendizagem através da resolução de problemas: “Se aprenderem dessa forma, terão capacidade mental para lidar com a matemática, com a física e com todas as disciplinas que lhes são apresentadas. Estamos a fazer uma aposta muito grande neste ano letivo em trabalhar através da resolução de problemas e em planificar projetos integrados.”
No final da sessão, o presidente da Câmara Municipal da Mealhada, em entrevista ao Jornal da Mealhada, apontou intervenções em Barcouço e na Pampilhosa. Segundo o autarca, está previsto fazer uma análise técnica em Barcouço: “Sentimos já essa necessidade de aumentar a capacidade e que levará, ao nosso entender, a que tenha de ser um edifício novo para responder ao aumento de capacidade do jardim de infância local”, explicou. Na Pampilhosa, o presidente da Câmara Municipal da Mealhada referiu que “encontra-se em estudo a integração das novas instalações do jardim de infância junto ao complexo educativo do centro escolar da vila”.
Questionado sobre a problemática do uso de telemóveis por parte das crianças e jovens, o edil mealhadense expôs uma abordagem formativa e pedagógica: “Temos de aproveitar a tecnologia, neste caso esta ferramenta, para ensinar os nossos alunos e alertar para os perigos que qualquer ferramenta tem.”
Autor: Jornal da Mealhada


