A magia dos números
Nas tabelas oficiais afixadas à entrada da lona, todos os aprendizes de artista voavam com destreza olímpica.
No Circo da Comarca, a direção descobriu um truque de ilusionismo que faria inveja ao próprio Houdini: o desaparecimento misterioso das quedas. Nas tabelas oficiais afixadas à entrada da lona, todos os aprendizes de artista voavam com destreza olímpica. A realidade na pista, contudo, era mais pedestre. Havia miúdos que passavam o ano a tropeçar nos próprios atacadores e outros que insistiam em engolir as facas pelo cabo, acumulando uma coleção inédita de “negativas de desempenho”.
“Não são notas negativas”, corrigiu prontamente o Anão, ajeitando os óculos na sua habitual postura de sapiência. “São percursos de progressão alternativa. Se o rapaz atira as massas de malabarismo à cabeça do público em vez de as manter no ar, ele não falhou. Ele está a redefinir o espaço tridimensional da pista. Seria uma violência pedagógica reter o seu talento na bancada dos repetentes.”
Para garantir que a magia dos números funcionava, a direção ativou o sistema de Apoios Especiais de Almofada. O regime era estritamente ambulatório: quando um aluno passava a vida a rasteirar os palhaços ou se recusava a treinar, um mestre exausto tinha de o caçar nos dez minutos de intervalo entre atuações. Ali mesmo, a correr junto aos bastidores, enquanto mastigava uma sandes, o mestre tentava uma “orientação de conduta”, implorando ao miúdo para, pelo menos, fingir que assinava a folha das tarefas.
A verdadeira arte de magia operava-se, no entanto, na avaliação do segundo e terceiro escalões do espetáculo. A gerência do circo implementara uma diretriz estrita sobre a qualidade artística.
“O bom mestre”, explicava o diretor do Circo nas reuniões, apontando o chicote para um gráfico projetado, “é aquele que distribui as insígnias de Quatro e Cinco Estrelas. Se os vossos alunos só têm direito a Duas ou Três Estrelas, a culpa não é do desinteresse deles, nem do facto de passarem o treino a dormir na rede. A culpa é vossa. Mestre que não dá boas notas não sabe ensinar.”
No final da temporada, o picadeiro estava cheio de medalhados que não sabiam dar uma cambalhota sem assistência médica. Mas a direção do Circo da Comarca sorria para as fotografias, orgulhosa dos 100% de sucesso estatístico.
Autor: Jornal da Mealhada
