Advento…preparar a visita de Deus aos corações desertos
“Curioso, o Evangelho começa sempre pela noite. Sim! A noite como lugar de nascimento.”
Entramos no Advento, neste tempo de espera, de acolhimento, de esperança, para viver o Natal. Há quem viva estes dias como se esperasse a primavera, com saudade das luzes, dos reencontros, do calor da família. Mas há, também, quem viva estes tempos antes do Natal como inverno, com frio, no silêncio, na ausência. Para estes, a noite de 24 de dezembro não ressoa em sinos nem risos. Ressoa em memórias, em saudades, num vazio que parece ecoar dentro do coração.
Curioso, o Evangelho começa sempre pela noite. Sim! A noite como lugar de nascimento. O Natal não aconteceu ao meio-dia, quando tudo se vê. Aconteceu de madrugada, quando o medo cresce, quando a esperança parece um vulto distante, o território da noite, onde solidão vive. É assim que se sente quem não tem com quem partilhar a mesa, quem guarda fotografias de pessoas que já não estão, quem reza por alguém que não chegou, quem chora por se sentir derrotada.
É fácil acreditar em Deus quando o mundo é cheio. Difícil é percebê-l’O quando a vida se torna um lugar solitário. Mas é, precisamente e em primeiro lugar, para os solitários que Deus vem. Deus gosta de começar onde tudo parece acabado. O Salvador não nasceu em Jerusalém, mas em Belém, uma aldeia esquecida no mapa. Não nasceu no palácio, mas numa manjedoura. Não nasceu cercado de glória humana, mas de silêncio e pobreza.
Tudo isto é mensagem! O Natal quer dizer-nos que Deus não espera que a vida esteja arrumada para entrar. Deus não precisa do brilho exterior para iluminar o interior. Deus escolhe quase sempre os lugares pequenos para revelar o Seu Amor infinito. Se Jesus tivesse nascido no conforto, talvez pensássemos que Deus visita apenas os que têm tudo. Mas Ele quis nascer onde faltava tudo, para nos recordar que o amor começa precisamente no lugar onde a falta, o vazio e a indiferença dos outros são dor.
O Natal é, também e sobretudo, dos que choram. É fácil montar um presépio na sala. Difícil é reconhecer que muitas vidas são presépios verdadeiros, improvisadas, frágeis, incompletas. O Natal dos que choram é o mais sincero. Porque a dor não mascara a oração, porque a solidão não apaga a fé, porque, quando não temos nada, descobrimos o essencial: Deus e o Seu Amor. Jesus não vem ao mundo para perpetuar festas perfeitas. Ele vem para abraçar vidas imperfeitas, não chega para substituir o amor humano, mas para revelar que nenhum amor é maior do que o d’Ele.
A solidão no Natal é também saudade. Sim! Muitos sentem falta de quem partiu para a eternidade, de quem está longe, de quem se perdeu pelo caminho, de uma família que nunca existiu, ou de si próprios. A saudade é uma ferida que só existe porque amámos. É incriável, esse amor, mesmo quando ferido, é santo. Aliás, no coração de Deus, a saudade não é fraqueza; é como altar.
Deus entra, extraordinariamente, pela porta da vulnerabilidade. Se observarmos o presépio e com um pouco de esforço e imaginação, veremos Maria e José exaustos, a noite fria, a solidão de quem não encontrou hospedaria. A Sagrada Família experimenta a primeira forma de exclusão, não houve lugar para eles. É a imagem dos que, no Natal, sentem que não há lugar para si no coração de ninguém! Mas Deus não recua diante das portas fechadas. Ele procura outra entrada. Ele nasce onde O deixam nascer. O presépio é a prova de que o impossível não é barreira para Deus, mas é berço.
Extraordinariamente, a solidão fala de Deus. A solidão pode ser uma ferida, mas também pode ser uma voz. Pode dizer «eu não tenho ninguém», «ninguém se lembra de mim», «eu não pertenço a lugar nenhum». Mas, quando escutada, no silêncio, ela revela outra verdade: «Alguém te procura amorosamente»! Deus não nos deixa sós. Ele não veio apenas cumprir uma promessa antiga, Ele veio pronunciar o nosso nome. Ele veio para que ninguém tivesse de atravessar a vida sem a Sua companhia.
O Evangelho diz que «a luz brilhou nas trevas». Não diz que trevas deixaram de existir, diz claramente que a luz é mais forte. O Natal é o triunfo da Luz humilde sobre a sombra orgulhosa. E essa luz é presença. Mesmo que ninguém bata à nossa porta, Deus bate. Mesmo que os telefones não toquem, o Céu chama. Mesmo que a casa esteja vazia, o coração de Deus está aberto.
É que o Natal transforma o que parece impossível. Transforma as lágrimas em oração, o silêncio em escuta, a ausência em encontro, a noite em promessa, a solidão em presépio. Torna a falta de companhia humana numa proximidade amorosa, o Deus connosco, o Emanuel. Não um Deus distante, não um Deus indiferente, não um Deus condicionado ao sucesso humano. Mas um Deus que desce ao coração!
Então, se este Natal te encontra só, não acredites que és esquecido, não acredites que Deus está longe, não acredites que a fé é fantasia. Deixa que o presépio te ensine que Deus visita primeiro os que não têm lugar; o Céu começa onde a terra se confessa fraca; o Menino nasce onde o coração se desarma. Porque, para Deus, não há solidão definitiva, não há história perdida, não há vidas inúteis, não há lágrimas invisíveis!
O Natal não resolve tudo, mas revela tudo. Revela que o Amor não te abandona, que a esperança não morre, que a fé não é ilusão, que o silêncio não é vazio. Revela que Deus vem sempre. Ele vem à vida quebrada, ao coração cansado, à história que parece não ter remédio. E vem para habitar em ti!
Por isso, aos que vivem o Natal, em solidão, há algo a ser lembrado: o Amor de Deus chega primeiro aos que não têm nada para oferecer. Ele chega como chega a madrugada, silenciosa, mas certeira. Chega para te segurar, para te consolar, para te dar paz, para te lembrar que o Céu inteiro se move por ti. Porque, no fim, o mistério mais profundo do Natal é este: ninguém está realmente só!
Já agora, entre as lágrimas e a esperança, entre a saudade e o silêncio, entre aquilo que a vida te tirou e o que o Evangelho oferece, surge um pequeno gesto divino: um Menino que transforma a noite do mundo com o Seu Amor. Prepara-te para O acolher.
Autor: Jornal da Mealhada
