Domingo, 06 de Julho de 2025

Alianças políticas e coerência ideológica: o caso PSD-Chega

Alianças políticas e coerência ideológica: o caso PSD-Chega

Opinião

Alianças políticas e coerência ideológica: o caso PSD-Chega

Em política, a aritmética eleitoral não é, nem pode ser, o único critério de orientação estratégica.

Em política, a aritmética eleitoral não é, nem pode ser, o único critério de orientação estratégica. Reduzir as escolhas de governação a meras contas parlamentares é transformar o sistema democrático num exercício de oportunismo e desvirtuar o sentido ético e programático da ação política. Neste contexto, a possibilidade de uma aliança entre o PSD e o Chega exige uma reflexão séria e despida de eufemismos: se essa aproximação acontecer, não deve ser justificada por uma exigência quantitativa de estabilidade, mas assumida como uma escolha qualitativa de afinidade e identificação ideológica.
O Chega é um partido que se afirma – uma e outra vez, com todo o orgulho e pujança – racista, xenófobo e promotor de um discurso de ódio que mina os alicerces da convivência democrática. A sua retórica, orientada para a exclusão, a simplificação populista dos problemas complexos e a exploração das emoções mais viscerais da população, configura um desvio profundo em relação aos princípios fundadores da democracia pluralista. Uma eventual coligação com o Chega não pode, por isso, ser tratada como um mal necessário ditado pelos números, mas como uma adesão consciente a uma visão de sociedade.
É precisamente por isso que não se coloca, e nunca se colocou, nem entre as mentes mais criativas do comentário político, a hipótese de alianças entre o PS e a IL. Ou, ainda mais absurdamente, entre o PS e o Chega. Não se trata de uma questão de somar deputados, mesmo que dessa soma saia uma maioria, mas de saber com quem se partilha um horizonte mínimo de valores. A governabilidade não se faz à custa da coerência ideológica, e o silêncio estratégico sobre este ponto compromete a autenticidade dos partidos tradicionais. Corrói a sua credibilidade aos olhos do eleitorado.
A propósito, é urgente recuperar o valor do programa de governo enquanto expressão de uma visão de país. Quando se assina um compromisso com os eleitores, esse compromisso é mais do que uma peça de marketing eleitoral: é a pedra de toque da legitimidade democrática. É, por isso, profundamente contraditório que se aceite governar com base num programa que promete uma inflexão à direita, enquanto se admite – em surdina – a viabilidade de um entendimento com o PS, depois de promessas eleitorais distantes das propostas de execução. Tal arranjo não é apenas incoerente em termos políticos: é dissonante em termos éticos. Transforma o programa eleitoral numa mera ficção retórica e a política numa performance cínica de conveniências.
Se, depois das eleições, o PSD reclama um entendimento com o PS para viabilizar o governo, mas acena ao Chega como potencial parceiro através do lançamento de um programa hiper-adireitado, está a abdicar de uma identidade própria e a adotar uma estratégia de dupla face. Isso não é centrismo; é ambiguidade tática. E essa ambiguidade tem consequências reais. Normaliza o extremismo, valida o discurso de ódio e empurra o debate político para os terrenos da intolerância e da fragmentação social.
A democracia não se sustenta apenas nos números. Numa era marcada por polarizações, radicalismos e degradação do debate público, é imperativo que os partidos com responsabilidade histórica saibam distinguir entre aliados e cúmplices. Se o PSD quiser governar com o Chega, que o faça não sob o pretexto da aritmética parlamentar, mas assumindo, com clareza e frontalidade, que partilha com esse partido uma visão de país, de sociedade e de futuro. A História, os cidadãos e a democracia agradecerão essa honestidade. Mesmo que para a reprovar – ainda não me permiti perder a esperança.

Autor: Jornal da Mealhada

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