Ano Novo : Vencer a ansiedade para viver a expetativa
O início de um novo ano tem sempre algo de simbólico. É como uma página em branco que se abre diante de nós […]
O início de um novo ano tem sempre algo de simbólico. É como uma página em branco que se abre diante de nós, cheia de possibilidades, mas também de incógnitas. Mudam os números, no calendário, mas o coração humano continua o mesmo, desejando a segurança, o sentido da vida e do viver, a paz e a felicidade. É precisamente neste ponto que surge a diferença entre viver com expectativas ou viver dominado pela ansiedade.
A ansiedade nasce, muitas vezes, do excesso de controlo. Gostamos e queremos prever tudo, garantir resultados, evitar qualquer sofrimento. Olhamos para o futuro como quem tenta agarrar algo que ainda não chegou. E, sem nos darmos conta, deixamos de viver o presente. O coração fica cansado antes do tempo, sobrecarregado por medos que talvez nunca se concretizem.
Por isso, a fé cristã oferece-nos uma outra forma de encarar o «tempo». Ensina-nos que o futuro não é um inimigo a temer, mas um espaço onde Deus já está e já é. Ter expectativas, à luz da fé, não é exigir que tudo corra bem, é antes confiar que, aconteça o que acontecer, não estaremos sós, apesar dos possíveis «vales tenebrosos», Ele está e estará connosco (cf. Salmo 23). Esta confiança transforma tudo.
Jesus nunca nos prometeu uma vida fácil. Fala-nos de «cruz», de esforço, de escolhas difíceis, de sacrifício, de entrega. Mas fala-nos, acima de tudo, da presença, do amor fiel e inesgotável, de um Deus que não abandona a humanidade, que cuida dos Seus filhos. Quando entramos num novo ano com esta certeza, a ansiedade perde força. O medo deixa de ser o centro, porque a confiança ocupa esse mesmo lugar.
Viver de expectativas é aceitar que o Ano Novo trará dias bons e dias difíceis. Haverá conquistas, mas também perdas. Haverá momentos de alegria e outros de silêncio ou dor. A diferença está em como os enfrentamos. A expectativa cristã diz-nos que «não precisamos de saber tudo agora», Deus ama-nos. Basta dar o passo, cada dia, com liberdade, verdade, fé e assente no amor.
Muitas vezes, fazemos resoluções grandiosas, mudarmos de vida, sermos outras pessoas, alcançarmos grandes objetivos. Quando falhamos, vem a frustração e a culpa. Talvez o convite deste novo ano seja mais simples e mais profundo, a saber: viver melhor, não viver mais depressa. Amar mais, escutar melhor, julgar menos. E porque não, rezar mais, confiar mais, agradecer mais.
A ansiedade foca-se no «e se?». A fé foca-se no «Deus está», «Deus ama-nos». Esta diferença transforma o modo como enfrentamos o trabalho, a família, a saúde, e todas as incertezas do mundo. Não elimina os problemas, mas dá-nos um «chão» firme onde pousar os pés.
Que este Ano Novo seja vivido com expectativas serenas, não com pressões excessivas. Que saibamos entregar a Deus aquilo que não conseguimos controlar. Que aprendamos a acolher cada dia como um dom, não como uma ameaça. Afinal, o futuro constrói-se com passos simples, dados com confiança. Entrar num novo ano com fé não é ter todas as respostas, mas caminhar com esperança. E essa esperança, quando é verdadeira, traz a paz ao coração.
Já agora, uma das afirmações mais conhecidas do Papa Francisco sobre a esperança, com clara referência ao futuro, é: “Não deixemos que nos roubem a esperança.” Esta frase encontra-se na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (nº 86), publicada em 2013. Neste documento, o Papa recorda que a esperança cristã não ignora as dificuldades do mundo, mas recusa viver prisioneira do pessimismo, confiando que Deus continua a agir na história e na vida de cada pessoa. Que bom seria se nunca o esquecêssemos!
Autor: Jornal da Mealhada
