Apanhados nas redes
Ficções verdadeiras “A verdade é mais estranha do que a ficção” – Mark Twain
“Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela, ó pescador!
Não se enrede a rede nela.”
Almeida Garrett
O mestre Baltazar esteve muitos anos na Capitania do Porto Velho, a passar multas aos pescadores que utilizavam redes com malha mais fina do que a permitida por lei, ou que vendiam peixe fora da lota à porta fechada. Tinha rigidez de âncora para com o erro alheio. Por causa desse currículo na rigorosa eficácia de pescar transgressores pequenos e graúdos, o Governador da Província promoveu-o ao cargo máximo: Superintendente de Todas as Águas e Portos. O homem ia, finalmente, pôr ordem no caos marítimo.
O estado de graça de Baltazar naufragou num vaivém de maré. As obras na sua cabana de praia privada foram descobertas pelas gaivotas vigilantes. A estrutura, que nos registos oficiais devia ser apenas um abrigo de madeira para guardar anzóis e canas de pesca, fora transformada num casarão com terraço e piscina de água salgada, avançando atrevidamente pela duna protegida.
Investigações posteriores, de quem se alimenta com escândalos políticos, apuraram que o mestre-de-obras tinha sido o Tobias, o próspero dono dos estaleiros navais que, nos últimos oito anos, tinha ganho todos os concursos públicos, por ajuste direto e sem concorrência, para reparar as traineiras e barcos de fiscalização da Capitania outrora liderada por Baltazar.
Para adensar o nevoeiro costeiro, os jornais revelaram que Baltazar se tinha “esquecido” de declarar no livro oficial que a sua esposa geria uma taberna de fado na falésia.
Instado a explicar-se perante as acusações, Baltazar não gaguejou. Com a autoridade natural de quem sempre mandou prender, ajeitou o boné de capitão, olhou de frente para a banda de jornalistas e respondeu com o ar mais sério do mundo: “O Tobias é meu amigo de infância. Se ele me ajudou a erguer um alpendre para o sol não me queimar a calvície, e eu lhe adjudiquei a manutenção da frota do Estado, estivemos apenas a manter a boa vizinhança da nossa costa. Na minha praia tudo se resolve com uma faina partilhada e um copo de tinto, não com papéis. Comigo nunca houve água no convés, o barco andou sempre bem atrelado.
Percebeu-se ali que, mesmo debaixo de tempestade, Baltazar continuaria firmemente
Autor: António Breda Carvalho
