Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2025 às 10:30

Crescer com o Natal

Crescer com o Natal

Opinião

Crescer com o Natal

Houve um tempo — o meu — em que ninguém queria um Natal bonito para mostrar, mas sim um Natal vivido.

Parte I — O Antigamente
Houve um tempo — o meu — em que ninguém queria um Natal bonito para mostrar, mas sim um Natal vivido. Não precisava de ser instagramável.
As casas enchiam-se de fitas prateadas feitas à mão, brilhantes como papel de alumínio — porque eram mesmo papel de alumínio — e de um presépio que ganhava vida com musgo apanhado no campo. Trazia consigo o cheiro da terra molhada, tratado como relíquia e depois devolvido à natureza. Era ali, nesse tufo de filídeos — o que sei hoje! — que as figuras de barro se multiplicavam ano após ano.
Não faltava o pinheiro verdadeiro, também ele devolvido à origem, com um aroma fresco, ligeiramente cítrico, que enchia a casa de cheiro a floresta e espírito de Natal. Simplesmente.
A comunicação natalícia era outra. Não havia mensagens instantâneas nem emojis: havia cartas escritas à mão para o Menino Jesus, enviadas cedo, no início de dezembro — tempo suficiente para nos arrependermos três vezes do que tínhamos pedido. E os postais, esses iam e vinham pelo carteiro, cheios de carinho, laços desenhados e um leve perfume que os tornava especiais.
E depois, claro, os presentes. Não havia montanhas de embrulhos. Havia um presente. Um só. O escolhido. O esperado. Colocado com cuidado ao lado do sapatinho engraxado, estrategicamente ao centro, na noite de 24. Tão bem alinhado que até o Menino Jesus, lá do alto, pensaria: “Assim sim, dá gosto entregar.”

Parte II — O Natal 2.0
Entretanto, foram chegando outros tempos a que nos fomos adaptando. Um Natal atualizado para a versão 2.0.
As luzinhas teimosas deram lugar a LEDs controlados por aplicações, que mudam de cor ao ritmo de playlists natalícias. Com um toque no ecrã, a sala transforma-se em “Noite Feliz” e até pode nevar num T3. E os pinheiros naturais? Poucos arriscam quando existe a versão artificial, à prova de gato, escaladas felinas e ataques-surpresa às bolas vermelhas.
A comunicação também mudou. O carteiro deu lugar ao WhatsApp, que em dezembro se transforma numa feira digital de renas, Pais Natais a dançar e mensagens de voz pouco articuladas. As cartas ao Menino Jesus foram substituídas por videochamadas com o “Tio Zé”, às vezes pixelizado, mas de coração cheio. As listas de presentes já não se escondem: partilham-se, comentam-se e editam-se como relatórios.
E os presentes evoluíram. Onde antes havia um, agora há drones, consolas, gadgets e até caixas que piscam antes de serem abertas. E se alguém se esqueceu da Black Friday? Sem problema: uma compra online no dia 24, entre a sobremesa e o café, e a magia do “entregamos ainda hoje” resolve tudo. Quase um milagre — feito por estafetas de capacete fluorescente, que lhes esconde o cansaço, a origem e o género, mas entregam dedicação mesmo na noite de Natal. E como eles, há muitos outros.

Parte III — A Magia e a Realidade
A magia do antigamente tinha um sabor especial, feito de inocência e ingenuidade — facilmente desmistificado pelo tempo.
Houve um Natal em que essa magia sofreu a primeira fissura. Anos depois, percebi que não era o Menino Jesus quem trazia os presentes. A revelação surgiu no quarto dos meus pais, na véspera de Natal: um embrulho no armário. O mesmo que apareceu no sapatinho na manhã seguinte.
A minha mãe tentou salvar a fé: — “Não é o Menino Jesus. São os Reis Magos. Ele não consegue chegar a tantas casas.”
Hoje sabemos que o Pai Natal tem uma rede de distribuição bem organizada.
O presente era um carro da polícia com fricção — um VW Carocha com sirene e um barulho infernal. Só anos mais tarde descobri que o meu pai o silenciou de propósito, ao fim de um dia, para salvar a sanidade da casa. E eu, sem traumas pela descoberta de uma “piedosa verdade”, aprendi a brincar sem fricção e sem ruído.

Parte IV — Mensagem
Talvez seja isso que precisamos hoje: desligar as sirenes sociais, reduzir a fricção, diminuir o ruído das comparações e das expectativas irreais.
Que o Natal se prolongue em atenção ao outro, respeito pelas diferenças, empatia e alegria genuína. O Natal não tem cor nem género — tal como o mundo, é de todos.
Que a fricção social diminua, dando lugar à partilha, à leveza e à solidariedade. Que cada pessoa, em qualquer canto do mundo, experimente a paz e a magia sem interferências. Sem sirenes. Sem fricções.
Que a MAGIA da INFÂNCIA nunca acabe.

Natal

Autor: Jornal da Mealhada

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