Diogo Canilho – O Bom Gigante
O Diogo tinha uma integridade rara, dessas que não se anunciam mas que se reconhecem.
Conheci o Diogo nos idos anos de 2000. Ou talvez não. A verdade, como tantas vezes acontece nas coisas importantes, é mais subtil: conheci a Ana e o Diogo. E não havia um sem o outro. Eram uma espécie de milagre estatístico, a sorte grande e a terminação: improváveis, inseparáveis e inevitáveis.
Conheci primeiro a Ana, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Ficámos logo muito amigos. O Diogo apareceu pouco depois, deslocado, como todos os que pertencem verdadeiramente a um sítio: andava em Letras. E nós, com a arrogância leve dos estudantes de Direito, repetíamos à exaustão aquela velha piada da praxe coimbrã: que as três estátuas em frente à Faculdade de Letras eram dos únicos burros que alguma vez tinham chumbado. O Diogo ouvia. Sorria. E respondia sempre com uma serenidade desarmante, com aquela inteligência tranquila de quem lê muito e precisa de provar pouco.
Era impossível não gostar dele.
Fundámos uma tertúlia – como se Coimbra precisasse de mais uma! – a Legião Bohémia e decidimos, com a solenidade própria da idade, que todos os caloiros seriam rapados. Mas depois, fiéis a uma ideia muito nossa de justiça, concluímos que só podia rapar quem tivesse sido rapado. O Diogo não tinha sido. E, com a naturalidade dos justos, ofereceu-se para ser rapado já no segundo ano, só para ter legitimidade. Era isto. Era este o Diogo: alguém que aceitava a regra, mesmo quando a regra era absurda, desde que fosse justa.
Discutíamos tudo. O socialismo de Rosa Luxemburgo, a democracia-cristã e esse chão comum onde nos encontrávamos: a social-democracia. No meio dessas noites intermináveis, havia sempre uma constante: a admiração profunda que o Diogo tinha pelo irmão, Nuno. Falava dele com um orgulho silencioso, desses que não precisam de ser explicados.
Andávamos pela cidade como quem não tem destino: de tasca em tasca, de copo na mão, com a ilusão doce de que o mundo começava ali e não acabava nunca. Perco a conta às vezes em que o Diogo foi a minha sombra – uma sombra gigante! – impedindo, com uma presença calma e firme, que certas noites acabassem pior.
Nunca precisou de levantar a mão. Os seus dois metros e dez (a mim sempre me pareceram mais) bastavam. Mas mais do que a altura, era a paz que impunha.
Mas não era apenas presença. Era carácter. O Diogo tinha uma integridade rara, dessas que não se anunciam mas que se reconhecem. Era um homem de palavra, de lealdade inteira, um amigo de todas as horas: nos dias leves, mas sobretudo nos difíceis. Havia nele uma forma muito própria de estar – discreta, firme e disponível! – que fazia com que quem estivesse ao seu lado se sentisse, sem alarde, mais seguro.
Houve uma noite – lembro-me como se fosse hoje – em que decidi, num rasgo de estupidez juvenil, desafiar o chefe de trupe que se preparava para rapar o meu irmão. Quando dei por mim, estava cercado por dois ou três rostos pouco amistosos. O Diogo estava lá. E, sem um gesto, sem um empurrão, resolveu tudo. Há pessoas que não entram nos conflitos; dissolvem-nos.
Falava-me muitas vezes de basquetebol. E da praia de Quiaios, onde andou perdido durante anos. Quiaios, que também é minha e do nosso Gonçalo, como se certas geografias fossem herdadas por afinidade.
Estivemos juntos em bailes de gala e no chá dançante. E nunca esquecerei a imagem: o Diogo, aquele bom gigante, sentado, de rosto sofrido com uma dor de dentes, e a minha namorada de então – estudante de Medicina Dentária e hoje minha mulher – sentada ao colo dele, a obrigá-lo a abrir a boca, à procura de uma cárie improvável. Era uma cena absurda e perfeita. Como tantas coisas felizes são.
Vieram depois férias, fins-de-semana e os fins de ano: em Quiaios, em casa dos meus pais, em Oliveira do Hospital. E, como acontece à vida, o Diogo e a Ana deixaram de ser “o Diogo e a Ana”.
Dividi o meu afeto por ambos, sem nunca me pedirem para escolher. Mantivemos contacto. Quando nasceu a minha primeira filha, corri à Mealhada para a apresentar ao Diogo. Olhou para ela, com aquele humor que nunca abandonava, e disse que, felizmente, saía à mãe. Concordei. Ainda concordo.
Conheci a sua filha, Estelinha, anos depois, na nossa praia de Quiaios. E achei – sem surpresa! – que havia qualquer coisa dele nela. Talvez a forma de estar.
Soube que estava doente. Quis visitá-lo. Preferiu não o fazer. Respeitei. Há uma dignidade própria nos homens que escolhem como querem ser lembrados; e também nos que sabem respeitar essa escolha.
Fica, ainda assim, a consciência de que gostaria de ter estado mais presente nesse tempo final.
Vou ter saudades do Diogo. Não apenas das noites e das conversas, mas daquilo que nelas se revelava: um raro sentido de justiça, uma integridade sem concessões, uma lealdade firme e constante e essa forma serena de habitar o mundo que fazia dele um ponto de abrigo para quem tinha a sorte de o ter por amigo.
Falaremos dele. Muitas vezes. Não por saudade apenas, mas por dever de memória. Porque há vidas que não se encerram; prolongam-se nos que ficam, como medida silenciosa do que importa.
Ficará, porém, o essencial: a estatura que não era a dos seus dois metros e dez, mas a do homem que foi.
Foste cedo. Já nos fazes falta.
Autor: João Ramalhete
