Entre o orgulho que afasta e a humildade que aproxima…!
Desde que começámos a tomar consciência de nós próprios, o orgulho faz parte da nossa história.
Desde que começámos a tomar consciência de nós próprios, o orgulho faz parte da nossa história. Surge quando percebemos que somos capazes de agir, escolher e deixar marca no mundo. Não nasce, por isso, como algo mau em si mesmo. É, muitas vezes, uma resposta natural à nossa fragilidade, uma forma de nos protegermos do medo de falhar, de não sermos aceites ou de termos de encarar os nossos limites. No fundo, o orgulho fala de alguém que aprendeu a sobreviver afirmando-se.
No dia-a-dia, o orgulho constrói uma narrativa interior muito própria. Contamos a nossa vida a partir do que alcançámos, esquecemos as mãos que nos sustentaram, relativizamos as nossas dependências e reinterpretamos os erros como culpa dos outros ou injustiças da vida. É um mecanismo humano de autoproteção, uma forma de manter uma imagem forte e coerente de nós mesmos para não tocar na vulnerabilidade que nos habita. Assim, o orgulho não é apenas uma atitude visível; é uma maneira profunda de nos olharmos e de olharmos os outros.
Mas este modo de viver tem consequências nas relações. Quando o orgulho ocupa o centro, vivemos em constante comparação. Medimo-nos, avaliamos, colocamo-nos acima ou abaixo. O outro deixa de ser alguém com valor próprio e passa a ser um rival, uma ameaça ou um espelho desconfortável. A diferença, que poderia enriquecer, transforma-se em obstáculo. Onde poderia haver encontro, instala-se o desempenho; onde poderia nascer proximidade, cresce a distância. O «eu», fechado em si mesmo, já não se deixa tocar nem transformar.
O orgulho molda também a nossa relação com o tempo. O passado é reorganizado para confirmar a nossa importância; o futuro é controlado pelo medo de perder lugar; o presente torna-se um palco onde precisamos de provar, continuamente, que valemos alguma coisa. Não há espaço para a gratuidade nem para o dom. Tudo tem de ser conquistado. E, por trás disso, instala-se um cansaço silencioso, aquele de ter de justificar a própria existência, todos os dias.
Mais cedo ou mais tarde, a vida interrompe esta ilusão. Uma doença, um fracasso, uma relação que se quebra, a proximidade da morte, algo acontece que nos lembra que não somos autossuficientes. É aqui que o orgulho pode transformar-se numa «crise fecunda». Descobrimos que não somos apenas quem faz, mas também quem recebe; não somos apenas fortes, mas também necessitados; não somos apenas autores, mas criaturas. Esta passagem abre caminho a uma forma mais madura e reconciliada de existir.
A humildade, então, deixa de ser humilhação e passa a ser verdade. É aceitar os próprios limites sem desespero, reconhecer que precisamos uns dos outros e viver essa dependência como riqueza. É perceber que a identidade não se constrói contra ninguém, mas com alguém. A humildade devolve-nos a capacidade de criar laços, de escutar, de aprender e de crescer em relação.
A fé cristã aprofunda este horizonte ao afirmar que só nos compreendemos plenamente diante de Deus e dos outros. O orgulho fecha-nos; o Evangelho abre-nos. Em Jesus Cristo, Deus revela-Se não pela imposição, mas pelo Seu esvaziamento
Autor: Jornal da Mealhada
