Sábado, 15 de Agosto de 2026

«Eu acho que Deus me enganou …»

«Eu acho que Deus me enganou …»

Opinião

«Eu acho que Deus me enganou …»

Ficou alguns segundos em silêncio, até que as lágrimas fizeram o que as palavras ainda não conseguiam

Ela não é da Mealhada, mas tem aqui alguns amigos que, de vez em quando, a convidam para passar um fim de semana. Num desses domingos, aceitou o convite deles para participar na Missa. Falámos brevemente, no final, e combinámos conversar. Dias depois, voltou à Mealhada. Entrou na casa paroquial com um misto de esperança e receio.

– Bem-vinda. Senta-te. Que te traz até aqui?

Ela tentou responder, mas a voz não saiu. Ficou alguns segundos em silêncio, até que as lágrimas fizeram o que as palavras ainda não conseguiam.

– Padre… eu acho que Deus me enganou…

Não a interrompi. Aprendi que as dores precisam, antes de tudo, de ser escutadas. Ela respirou fundo e continuou.

– Desde pequena que sonhava ser mãe. Não era apenas um desejo, era aquilo que imaginava para a minha vida. Quando brincava, era sempre mãe e, ao pensar no futuro, via uma família. Sempre acreditei que Deus tinha colocado este sonho no meu coração.

Fez uma pausa.

– Há poucos meses, os médicos disseram-me que nunca poderei ter filhos. Nunca! Disseram-mo com toda a delicadeza, mas a palavra «nunca» ficou a ecoar dentro de mim.

Baixou os olhos.

– Desde esse dia deixei de perceber Deus. Diga-me, porque é que Ele me deu um sonho que nunca quis realizar? Porque me deixou desejar tanto uma coisa para depois ma tirar? Eu rezo, mas parece que as minhas orações batem no teto. Sinto-me… enganada por Deus.

Mantive-me em silêncio durante alguns instantes. Depois falei devagar.

– Posso fazer-te uma pergunta?

Ela acenou afirmativamente.

– Quando eras criança, confiavas nos teus pais?

– Sim.

– E houve momentos em que eles te disseram «não» a alguma coisa que desejavas muito?

– Sim, houve.

– Nessa altura compreendias porquê?

Ela abanou a cabeça.

– Não.

– Mas hoje percebes que eles continuavam a amar-te, mesmo quando não entendias as decisões deles.

Ela ficou pensativa, mas continuei.

– Não te estou a dizer que Deus te disse simplesmente «não». O que te aconteceu não é um castigo, nem uma recompensa, nem um jogo cruel de Deus. Vivemos num mundo ferido, onde existem sofrimentos que Deus não quer, mas nos quais nunca deixa de estar presente. A pergunta não é: «porque é que Deus fez isto?», mas: «como é que Deus me vai amar dentro desta dor?»

Ela voltou a chorar.

– Mas esta dor é tão grande…

Olhei para ela e respondi, com sinceridade:

– Só imagino…

Depois olhei para o pequeno crucifixo pousado junto ao candeeiro, sobre a secretária e peguei nele.

– Sabes qual é uma das maiores mentiras que o sofrimento nos diz?

Ela fez um gesto negativo.

– Que a nossa vida perdeu o valor porque perdeu um sonho. Jesus, aos olhos de quem O viu morrer, foi um homem derrotado. Tudo parecia acabado. Até os discípulos acreditavam que Deus os tinha abandonado. E, no entanto, era precisamente ali, naquela aparente derrota, que Deus estava a realizar a maior vitória da história.

Ela escutava cada palavra como quem tenta respirar depois de muito tempo debaixo de água.

– A tua cruz não é pequena e nunca te direi que aceites isto com facilidade, porque seria uma falta de respeito pela tua dor. Há feridas que nos acompanham a vida inteira. Mas sabes uma coisa? A maternidade começa muito antes do ventre.

Ela levantou lentamente os olhos.

– Uma mulher torna-se mãe sempre que gera vida no coração de alguém. Há professoras que foram mães de centenas de crianças. Há mulheres que acolheram crianças abandonadas, jovens perdidos e idosos esquecidos, fazendo nascer esperança onde só havia abandono.

– Mas eu queria um filho meu…

A voz saiu quase num sussurro. Assenti com a cabeça.

– Claro que querias e Deus conhece esse desejo melhor do que ninguém. Não tenhas medo de Lho dizer e podes até gritar com Ele. Aliás, os salmos estão cheios de gritos. O que Deus nunca te pede é que finjas que não sofres.

Ela limpou as lágrimas.

– Então nunca vou deixar de sentir este vazio?

– Talvez não completamente. Há perguntas que só terão resposta diante de Deus. A fé não elimina todas as feridas, mas impede que elas tenham a última palavra.

O silêncio voltou a preencher a sala. Já não era um silêncio pesado, mas um silêncio habitado. Antes de ela sair, disse-lhe apenas:

– Não me peças para explicar Deus, pois eu não consigo! Mas posso testemunhar uma coisa, nunca vi Deus abandonar quem decidiu continuar a caminhar, mesmo sem compreender.

Ela levantou-se e ao despedir-se, ainda perguntou:

– Padre… acha que Deus ainda pode fazer alguma coisa bonita com a minha vida?

– Tenho a certeza.

– Como é que pode ter tanta certeza?

– Porque Deus nunca desperdiça um coração que continua a amar, mesmo depois de ter sido partido.

Ela saiu da casa paroquial sem resposta para todas as suas perguntas. A infertilidade continuava a ser uma realidade e a dor permanecia, mas já não caminhava sozinha. Aliás, por vezes, esse é o primeiro milagre de Deus, a saber: não retirar imediatamente a cruz dos nossos ombros, mas fazer-nos descobrir que, desde o primeiro instante, era Ele quem a carregava connosco.

Depois, ela há de descobrir que Deus nunca abandona os seus filhos, mesmo quando a vida parece perder o sentido; que há lágrimas que Deus não evita, mas nunca deixa de enxugar; que, muitas vezes, o maior milagre não é Deus mudar a nossa história, mas caminhar connosco dentro dela.

Leitura

Autor: Padre Rodolfo Leite

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