Quinta-feira, 13 de Novembro de 2025 às 14:35

Inteligência e esperteza

Inteligência e esperteza

Opinião

Inteligência e esperteza

Por exemplo, «esperto» e «inteligente» são palavras irmãs, mas não gémeas, pois, embora partilhem a mesma raiz do raciocínio.

Há distinções subtis que, pelo facto de o serem, escapam ao nosso olhar apressado. Por exemplo, «esperto» e «inteligente» são palavras irmãs, mas não gémeas, pois, embora partilhem a mesma raiz do raciocínio, crescem em direções distintas. Ambas lidam com o pensamento, com a forma como o ser humano interpreta e age sobre os outros, o mundo e a sua realidade. No entanto, a esperteza pertence ao domínio da adaptação imediata, enquanto a inteligência afirma-se no campo da compreensão profunda. Uma é o reflexo rápido; a outra, o pensamento demorado.
Ser esperto é, acima de tudo, uma forma de «instinto social». A pessoa esperta sabe ler o ambiente, captar sinais não-verbais, perceber intenções. É alguém que, mesmo sem dominar a teoria, entende a prática das relações humanas e sabe tirar proveito dela. É o tipo de pessoa que chega a uma sala e, em pouco tempo, intui quem tem poder, quem tem influência e quem o pode ajudar.
O esperto vive do presente e age no instante. Ele não tem necessariamente uma visão de longo prazo, mas possui uma agilidade mental que o ajuda a navegar por situações complexas. Muitos confundem-no com o manipulador, mas nem sempre o é, pois há a esperteza ética, a do que sabe improvisar, e há a esperteza oportunista, a do que age apenas em benefício próprio e segundo os seus interesses.
A esperteza, portanto, é a aprendizagem pela observação, não pela reflexão profunda, mas pela agudeza dos sentidos. O «esperto» aprende «vendo fazer», não «lendo pensar». Entre nós, esta característica tem uma expressão muito própria: o «desenrascanço». Aliás, o verbo «desenrascar» significa resolver com o que se tem, improvisar com engenho e boa vontade. É uma espécie de criatividade de emergência, uma inteligência prática aplicada à vida do dia-a-dia.
A inteligência, pelo contrário, vem do latim intelligere, isto é, ler por dentro. Ser inteligente é penetrar na estrutura das coisas, compreender as suas causas e prever as suas consequências. Enquanto o esperto atua, o inteligente interpreta; enquanto o primeiro sobrevive, o segundo constrói. O inteligente é aquele que faz perguntas, questiona o óbvio, duvida do estabelecido, procura sentido onde os outros se conformam. A sua força não está na rapidez da resposta, mas na profundidade da pergunta. O esperto domina as situações, o inteligente tenta dominar-se a si mesmo.
Mas há um lado trágico na inteligência, a saber: o excesso de consciência, isto é, saber demais, por vezes, paralisa. Dostoievski, na sua obra O Idiota, referindo-se ao o Príncipe Míchkin, personagem principal, explicava que a consciência demasiado clara era como uma «doença». O inteligente pode cair na armadilha da reflexão sem fim, compreender tanto que hesita em agir. O esperto não, pois age mesmo sem compreender.
Entre estes dois extremos – a ação rápida e a reflexão profunda – está o equilíbrio da sabedoria. Aristóteles chamava-lhe phronesis, isto é, a prudência prática, a virtude de saber quando e como agir. A phronesis não é pura teoria nem impulso cego; é o juízo que integra pensamento e ação. O esperto tem metis, a astúcia da deusa grega que enganava os deuses com engenho. O inteligente tem logos, o raciocínio que dá ordem ao mundo. O sábio une os dois, age com metis, mas orientado pelo logos. A inteligência pensa o incêndio; a esperteza ateia o fósforo. Ambas são forças poderosas, mas, sem orientação ética, uma pode consumir a outra. O esperto sem consciência torna-se oportunista; o inteligente sem ação torna-se estéril.
À nossa volta, percebemos que a sociedade recompensa a esperteza. Os algoritmos premiam a rapidez, os mercados valorizam a flexibilidade, as redes sociais elevam quem reage primeiro. O inteligente, que pensa antes de falar, fica muitas vezes em desvantagem num mundo que confunde velocidade com valor. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han refere, em A Sociedade do Cansaço, que vivemos num tempo sem contemplação, onde o excesso de estímulos destrói a capacidade de atenção. Mas, com o tempo, a esperteza sem inteligência conduz ao vazio, à repetição de soluções improvisadas que não resolvem as causas profundas dos problemas. O esperto vence o dia; o inteligente constrói o amanhã.
O verdadeiro inteligente não é o que sabe mais, mas o que sabe melhor, o que sabe distinguir, escolher, resistir ao impulso de agir sem pensar. Ser esperto é adaptar-se ao mundo; ser inteligente é tentar transformá-lo. E talvez o desafio do nosso tempo seja unir ambas as forças: agir com rapidez sem perder profundidade; improvisar sem perder consciência; vencer sem deixar de compreender. No fundo, ser esperto é saber nadar; ser inteligente é perceber por que razão partimos do porto.

Já agora, em tempos, ouvi a alguém, qualquer coisa como: «o esperto aprende com os erros dos outros, o inteligente com os seus próprios erros, e o tolo com nenhum dos dois».

Padre Rodolfo Leite

Autor: Padre Rodolfo Leite

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