Segunda-feira, 14 de Setembro de 2026

No reino da cegonha

No reino da cegonha

Opinião

No reino da cegonha

Ficções verdadeiras “A verdade é mais estranha do que a ficção” – Mark Twain

No Reino da Cegonha, dar à luz era sempre um acontecimento normalíssimo, com a infalível assistência hospitalar. Porém, quando o Conselho de Saúde implementou o Plano de Escalas Rotativas, com o pretexto de reorganizar os recursos, decretou-se que as maternidades passariam a funcionar como as farmácias de serviço: uma abre na margem norte ao sábado, outra na margem sul ao domingo, e as restantes fecham as portas para esterilização.

Na madrugada de uma sexta-feira, sentindo as primeiras contrações, uma jovem parturiente foi colocada pelo marido na carroça e correu para o Hospital do Vale. À chegada, depararam-se com um pergaminho preso à porta de ferro: “Urgência de partos encerrada. Dirija-se ao Hospital da Montanha, a vinte léguas de distância.”

A viagem tornou-se uma corrida contra o tempo e contra o trânsito da estrada. A meio do caminho, quando pararam numa estalagem para dar de comer e beber ao cavalo, o taberneiro avisou-os de que não fossem para o Hospital da Montanha, pois ainda há 5 minutos tinha vindo de lá uma senhora com o bebé na barriga. Que seguissem para o Hospital do Horizonte.

A carroça trepidava, o equino galopava e a grávida, tão ansiosa por chegar ao hospital como a pressa que o feto tinha em conhecer a célebre luz do dia, soltava ais e agarrava-se ao marido, que tentava decifrar o mapa do funcionamento das maternidades, que o Conselho de Saúde publicava às segundas-feiras. Nem foi preciso consultar o mapa: o bebé, alheio aos turnos das parteiras e parteiros, e nada sabendo de geografia de maternidades abertas e fechadas, nasceu em cima da palha da carroça, à beira da estrada, com o pai a aparar a criança, enquanto o cavalo rapava a erva da berma e felicitava o casal com relinchos de quem sabe o profundo significado da criação.

Quando o caso correu de boca em boca nas feiras do reino, o diretor do Conselho de Saúde apressou-se a mandar pregar um edital em todas as árvores da estrada real: “O nascimento do bebé na carroça demonstra o sucesso da nossa reforma. Reduzimos a pressão sobre os hospitais e provámos que a natureza humana, sempre desenrascada, consegue adaptar-se perfeitamente aos horários de encerramento das maternidades.”

Leitura

Autor: António Breda Carvalho

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