Sexta-feira, 03 de Julho de 2026 às 09:34

O Bombo Silenciou-se, mas o Eco Fica

O Bombo Silenciou-se, mas o Eco Fica

Opinião

O Bombo Silenciou-se, mas o Eco Fica

“Zé gaiteiro” — herdando a alcunha carismática dos “Sobe e Desce” —, partiu no passado dia 1 de julho, aos 65 anos

Há homens que deixam uma marca indelével na cultura popular, não por procurarem o estrelato, mas porque a sua própria existência é um manifesto de autenticidade. António José Lopes de Albuquerque, que a Mealhada e o Luso conheciam simplesmente como o “Zé gaiteiro” — herdando a alcunha carismática dos “Sobe e Desce” —, partiu no passado dia 1 de julho, aos 65 anos. Com ele, silencia-se um dos bombos mais singulares da nossa região, mas a ecoar fica uma lição de entrega absoluta à música identitária.

Fazia já uma década que o Zé era peça fundamental na engrenagem dos Katembas. Quem acompanhou as arruadas e atuações do grupo ao longo destes últimos 10 anos sabe perfeitamente que ele não se limitava a marcar o compasso. O Zé encarnava o ritmo. A forma como pegava no bombo e o transformava numa extensão do próprio corpo era um espetáculo dentro do espetáculo. Aquela plasticidade única, aquele movimento corporal vigoroso e expressivo, era a imagem de marca que o distinguia e elevava a identidade do grupo.

Como quase tudo o que foge à norma e transborda originalidade, a sua performance dividia opiniões. Era profundamente apreciada pela maioria, que nela via a pura pulsação da festa, e olhada com alguma reserva e conservadorismo por outros. Mas a arte popular vive precisamente dessa fricção, dessa capacidade de não deixar ninguém indiferente. O Zé nunca foi indiferente. A sua entrega era total, visceral e contagiante. Sentia-se !

Ficou-nos na memória, além do bater compassado e enérgico, aquele que era o seu mais recente lema de vida e grito de guerra: “Ainda havemos de ir à América!”. Mais do que uma ambição geográfica, aquele desabafo lançado ao vento entre atuações era um hino ao otimismo. Era a prova de que para os Katembas, e para o Zé em particular, a música tradicional não tinha fronteiras nem teto. Era um incentivo puro a caminhar sempre em frente, independentemente do tamanho do palco.

A vida pregou-lhe uma rasteira dura . O fatídico acidente que o atirou para uma cama de hospital durante longos e dolorosos meses testou-lhe a resistência física, mas não lhe apagou a matriz. Natural de São Romão e com última residência nas Várzeas, no Luso, o Zé manteve sempre a dignidade dos homens da nossa terra.

O Zé partiu fisicamente neste arranque de julho, semanas após celebrar o seu 65.º aniversário. A Mealhada e o Luso perdem uma das suas figuras mais genuínas. Fica a homenagem justa a um homem que soube viver com ritmo, que desafiou a rigidez das convenções com o seu movimento e que me ofereceu, através das minhas objetivas, momentos fotográficos de pura autenticidade. Obrigado, Zé, pelos registos irrepetíveis e pela entrega. Um adeus eterno, a caminho dessa tua “América”, seja lá o que ela for.

Fotografia: Fernando Simões

LusoMealhada

Autor: Fernando Simões

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