O primeiro centenário do nascimento de Carlos Paredes. Ascendência oriunda do nosso Concelho de Mealhada
Gonçalo Paredes, funcionário público, fez a vida de casado com esta senhora num período em que o país atravessava grandes convulsões sociais
No ano em que estamos a comemorar o primeiro centenário do grande guitarrista português Carlos Paredes, Edgar Canelas, no seu programa da RTP da Antena 1, “Alma Lusa”, episódio 38, de 17 de novembro de 2025 e no domingo seguinte, entrevistou António Manuel Nunes, licenciado e mestre em História, professor e investigador, sobre a publicação da sua recente obra intitulada “ Pioneirismo, Genialidade e Modernidade em Arthur Paredes”, da editora Tradisom, publicada em outubro do corrente ano de 2025.
Dessa publicação, ressaltam conclusões importantes sobre a vida e obra dos grandes guitarristas do fado canção de Coimbra, Artur Paredes e de seu filho Carlos Paredes, designadamente sobre a sua ascendência que é oriunda da aldeia do Pego do Peixe, da freguesia da Vacariça, do nosso concelho de Mealhada, facto que é desconhecido da quase totalidade da sua população.
O investigador António Nunes revela-nos na sua obra o seguinte:
«António Rodrigues Paredes, guitarrista e carpinteiro, avô de Artur e bisavô de Carlos Paredes, era natural da aldeia de Pego do Peixe, da freguesia de Vacariça, do concelho de Mealhada; Pego do Peixe é uma aldeota (Mapcarta) que se encontra situada entre as aldeias de Carvalhinho e de Quinta do Vale, da freguesia da Vacariça. Deslocou-se para Coimbra para ali exercer a sua profissão de carpinteiro, em ano incerto da segunda metade do século XIX. Do seu casamento com Teresa Morgado, exposta na roda de Coimbra, natural de Arazede, do concelho de Montemor-o-Velho, teve três filhos: a mais velha de nome Maria, nascida em 1872; Gonçalo Paredes, em 1873, e o mais novo Manuel Rodrigues Paredes, que veio a ser ajudante de notário em Coimbra, tendo sido estes ambos guitarristas, ensinados pelo pai.
Gonçalo Paredes, que além de guitarrista foi compositor, nasceu em Coimbra. Suicidou-se na sua cidade natal, a 18 de abril de 1915, com apenas 41 anos de idade, de pois de ter dado um tiro na sua companheira Maria de Jesus Baptista, com quem vivia maritalmente, na convicção que ela havia morrido em consequência do disparo.
Gonçalo Paredes, funcionário público, fez a vida de casado com esta senhora num período em que o país atravessava grandes convulsões sociais: o regicídio de D. Carlos de 1908, a implantação da República em 1910, a 1ª Grande Guerra de 1914 a 1918 e as condições económico-sociais eram péssimas e o País vivia tempos difíceis».
Foi esta situação trágica de seu pai, que nos abstemos aqui de relatar com mais pormenores por razões óbvias, que levou a que Artur Paredes e seu filho Carlos Paredes sempre tivessem ao longo das suas vidas ocultado a sua vida privada, dizendo que esta nada tinha a ver com a sua vida artística e, ao mesmo tempo, ocultado inclusivamente a sua ascendência, que era oriunda do nosso concelho e que muitas pessoas desconhecem.
Gonçalo Paredes teve dois filhos da sua companheira Maria do Céu, nascida em 1872: A filha mais velha de seu nome Isabel Paredes, nascida em 1896, na freguesia de Santa Cruz de Coimbra e depois o filho Artur Paredes nascido também em Coimbra, no ano de 1899.
O filho Artur ingressou no Colégio Mondego, desaparecido há muitas décadas, sito no Pátio da Inquisição, onde realizou os estudos primários e secundários. Ali terminou o curso de contabilista, instrução e formação que lhe foi importantíssima para a sua vida futura de bancário, que sempre exerceu como forma do seu sustento familiar e nunca da vida artística.
No que respeita à formação musical da família e segundo depoimentos de seu neto Carlos Paredes, seu avô terá aprendido a tocar com seu bisavô António Paredes, grande guitarrista popular na Bairrada como se referiu, e por sua vez terá ensinado seu filho Artur.
Este ensinou a seu filho Carlos, apenas o mínimo e essencial, para que este fosse aprendendo e por si fosse evoluindo, vendo o seu pai tocar. Crê-se que Gonçalo Paredes era dado a pândegas e folguedos, gostando de acompanhar as manifestações artísticas da Baixa de Coimbra, os Ranchos, as festas das fogueiras do Romal, do Pátio da Inquisição e muitas outras. A peça instrumental “Valsa de Outros Tempos”, criada por Gonçalo Paredes, em 1923, com uma segunda parte de seu filho Artur Paredes, é ainda hoje uma relíquia no repertório da música de Coimbra de finais desse século XIX, de profundas mudanças na sociedade portuguesa.
Foi um cultivador do estilo da guitarra de Coimbra, envolvido no movimento de afirmação da canção de Coimbra como estilo autónomo do fado e da guitarra de Lisboa. Teve um papel decisivo no desenvolvimento musical do seu filho Artur Paredes.
Este, por sua vez, na sua trajetória de vida musical, tocou a solo e acompanhou autores e cantores como António Menano, Armando Goes, Edmundo Bettencourt, Lucas Junot, Paradela de Oliveira e muitos outros da chamada “época clássica” do fado canção de Coimbra.
Mas o seu feito mais importante foi o seguinte:
Como é consabido a origem do fado canção de Coimbra nada tem a ver com o fado de Lisboa e por isso são muito diferentes e acompanhados de formas diferentes.
O fado ou canção de Coimbra resulta de uma miscigenação entre a cultura popular e a erudita, embora, depois, também estivesse sempre aliado às tradições académicas da respetiva Universidade, fundada em 1290 e para Coimbra transferida definitivamente em 1537 por D. João III, daí as suas especificidades em relação ao fado de Lisboa.
O fado canção de Coimbra, na sua formação, sofreu assim grandes e diversificadas influências: dos estudantes vindos de todas as nossa colónias que vinham estudar para Coimbra que traziam consigo a sua musicalidade, folclore e tradições regionais, com ritmos, melodias e ambientes harmónicos dos “lundus,” que combinavam a harmonia da música europeia com ritmos africanos, levados para aquelas colónias pelos escravos, e a “modinha” brasileira, baseado na moda portuguesa e sempre acompanhada pela viola.
Quando um estudante se enamorava, era costume convencer alguns dos seus colegas para o acompanhar nas noites mais claras, iluminadas pela lua cheia, pois não existia iluminação publica nas ruas, para cantarem à janela da sua amada. Ouvia-se uma serenata deliciosa; o instrumento que acompanhava a sua voz era a viola de Coimbra, conhecida como “viola toeira” e depois pelo guitarrinho de Coimbra ou o bandurrinho. Assim, nasceu a “Serenata”, assim nasceu o Fado canção de Coimbra e o hábito da menina a quem a serenata era dirigida de agradecer ao pretenso namorado, com “o acender e apagar de luzes do seu quarto”, que significava o seu amor ser correspondido.
Entrementes, tanto a viola toeira como o guitarrinho desparecerem de Coimbra por razões várias, que aqui não poderei explicar devido à economia deste trabalho, e os estudantes nas suas serenatas passaram a acompanhar as vozes dos cantores com a guitarra portuguesa que foi importada no século XVI de Inglaterra e influenciada pela velha cítara ou cístolas medievais.
Porém, o fado de Lisboa era cantado dentro de portas, enquanto o fado de Coimbra na rua. Assim, havia que proceder a uma revolução na guitarra portuguesa para que fosse mais soturna adaptada ao fado canção de Coimbra. Foi o que fez Artur Paredes por volta da década de 1950:
Antes dele, as guitarras portuguesas (influenciadas pela cítara ou cístolas medievais) tinham uma caixa estreita, com pouco altura. Eram guitarras muito musicais, mas tinham pouca amplitude e eram conhecidas pela “guitarra portuguesa” e, anteriormente a ela, “a viola toeira” e o guitarrinho de Coimbra. Ora Paredes idealizou a guitarra com uma caixa mais ampla e associou à sua ideia a arte do construtor de instrumentos musicais Grácio, que residia em Coimbra e tinha oficina junto ao Penedo do Saudade, e fizeram as guitarras que se tocam ainda hoje, muito embora, a princípio, muitos tivessem relutância em a assimilar por a considerarem de sonoridade áspera. Artur sistematizou, assim, a afinação da guitarra que fica num tom mais grave, mais doce, mais próximo da voz de barítono, que permite às vozes de 1.º e 2.º tenores brilharem, porque se forma uma espécie de dueto entre esta massa instrumentística que está um pouco mais baixa e as vozes masculinas, que estão num registo mais alto”.
Esta sua atitude deu grande autonomia à guitarra de Coimbra em relação à que acompanha o fado de Lisboa.
Artur Paredes e seu filho Carlos Paredes desenvolveram as suas carreiras musicais em contextos completamente diferentes:
Carlos, quando se começou a afirmar, sobretudo em Portugal, beneficiou de um conjunto de novos instrumentos mediáticos que vão desde o cinema à televisão, do documentário sonoro ao audiovisual, ao teatro. O Carlos Paredes já beneficiou de instrumentos sonoros de amplificação, que no tempo do pai não existiam, e ele tirou um enorme proveito disso. De qualquer forma, grande parte da obra de ambos não foi gravada, pelo que que a obra do investigador António Nunes atrás citada se reveste de uma importância crucial, visto que além da parte escrita é acompanhada de um CD que contém gravações originais de temas musicais que foi colher junto de particulares, pelo que é importante para todos que gostem desta temática musical adquirirem a obra que poderá ser requisitada pela Alice da Peninha, como eu fiz.
Artur Paredes, nos últimos anos da sua vida, tocava para um “círculo muito fechado de amigos, acompanhado à viola pelo juiz Dr. Carlos de Figueiredo, pelo Dr. José Manso Fernandes em segunda-guitarra e, ocasionalmente, por Fernando Alvim, com quem gravou em cassete algumas das suas novas composições, nunca tornadas públicas.” (cf. Pedro Caldeira Cabral, 1999: 240).
Faleceu a 20 de dezembro de 1980, em Lisboa, vítima de doença prolongada e da grande consternação provocada pela morte da esposa, que nunca conseguiu superar.
Aquando da sua morte, o Dr. Afonso de Sousa, também guitarrista de Coimbra, contemporâneo de Artur Paredes e seu segundo guitarra em serenatas e gravações, dedicou-lhe esta quadra: “Coimbra na noite calma uma guitarra gemeu?
Porque me iludes a alma
se o Artur Paredes morreu?” (Artur Paredes, in Museu do Fado).
O seu filho Carlos Paredes herdou a genialidade, o hábito de secretismo de vida do pai e a sua forma de tocar a guitarra, ambos detentores de grandes manápulas para fazer tanger as suas cordas.
Assim, Carlos Paredes, seguindo as pisadas do pai e de seus antepassados, ampliou de tal forma a versatilidade da guitarra portuguesa que a tornou um instrumento conhecido em todo o mundo. Tinha uma semântica própria, totalmente autónoma do fado, e isso especifica a sua obra notável, que o transformou num dos melhores compositores portugueses. Deste modo, foi este guitarrista quem contribuiu de forma apaixonada e exímia para a valorização da guitarra portuguesa como instrumento autónomo.
A partir daí, a guitarra portuguesa teve o direito de entrar no Conservatório Nacional, em Lisboa, com o mesmo estatuto que os restantes instrumentos musicais aí ensinados. Até então, era um instrumento popular desvalorizado e associado apenas ao fado.
Carlos Paredes e familiares seus fizeram com que a guitarra de Coimbra corresse o mundo com as suas composições instrumentais originais.
Tudo isto, com o orgulho do nosso concelho de onde é oriunda a sua familia, como referimos.
É por isso que, no dia 12 de abril de 2026, a 4ª Grande Gala do Fado de Mealhada, a realizar no seu Cineteatro pelos Bombeiros, seja exclusivamente dedicada ao fado canção de Coimbra e aos seus cordofones: guitarra de Coimbra, levados ao mundo inteiro por aqueles que são oriundos do nosso concelho, e aos cordofones desaparecidos viola toeira e guitarrinho de Coimbra, mas agora em vias de recuperação, o último por um impulso de um conterrâneo nosso, Dr. Machado Lopes, residente em Pampilhosa, e este e a viola toeira em recuperação pela Orquestra de Coimbra “Estaca Zero”, composta por profissionais de musica de cordofones, que irão preencher a primeira parte do espetáculo. Para simular a Serenata Monumental contamos mais uma vez com o Grupo de Fados “Raízes de Coimbra”, composto pelos instrumentistas Drs. Rui Pato e Octávio Sérgio, antigos acompanhantes de Zeca Afonso, sendo este último segundo guitarra de Artur Paredes.
É, portanto, o fado canção de Coimbra e os seus cordofones que irão prestar homenagem ao grande guitarrista Carlos Paredes, nos 101 anos da sua existência, cuja ascendência é oriunda do nosso concelho.
Apelo, assim, à vossa presença em tal espetáculo tão significativamente simbólico para o nosso concelho, pelas razões referidas.
Autor: Jornal da Mealhada
