Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026

O Risco do Algoritmo: Por que a Fisioterapia sem Raciocínio Humano Ameaça a Segurança do Doente

O Risco do Algoritmo: Por que a Fisioterapia sem Raciocínio Humano Ameaça a Segurança do Doente

Opinião

O Risco do Algoritmo: Por que a Fisioterapia sem Raciocínio Humano Ameaça a Segurança do Doente

A Ordem reforça que a IA deve funcionar estritamente como um apoio

A recente introdução de plataformas de Inteligência Artificial (IA) na reabilitação musculoesquelética do Serviço Nacional de Saúde em Portugal (SNS) tem sido promovida sob a bandeira da eficiência e da comodidade. Contudo, por trás da promessa de esvaziar listas de espera, esconde-se um debate urgente que a pressa tecnológica optou por ignorar: a segurança do doente. Ao transferir o cerne da intervenção clínica para um ecrã de tablet, estamos a expor os utentes a riscos severos que nenhum sensor de movimento é capaz de prever ou mitigar.

Esta preocupação não é corporativismo isolado; é uma questão de responsabilidade deontológica partilhada pela própria classe. Em resposta direta a este novo modelo, a Ordem dos Fisioterapeutas emitiu um alerta claro: as soluções digitais e a inteligência artificial não podem ser consideradas formas de substituir a fisioterapia.

A Ordem reforça que a IA deve funcionar estritamente como um apoio, uma vez que a avaliação, o diagnóstico, a prescrição e a decisão clínica final são competências exclusivas e intransmissíveis do fisioterapeuta humano.

 A Fisioterapia baseia-se na ciência do movimento humano, um domínio onde a segurança depende inteiramente de um ciclo rigoroso de avaliação, testes clínicos, diagnóstico em Fisioterapia e reavaliação contínua. Quando este processo é automatizado, quebra-se a linha de defesa que protege o doente de lesões secundárias. Um sensor colado à pele mede ângulos de movimento, mas é incapaz de realizar um diagnóstico funcional diferencial.

 Uma máquina não distingue uma dor mecânica benigna de um sintoma de alerta (red flag) — como uma compressão neurológica progressiva ou uma patologia vascular oculta — que exija a interrupção imediata do exercício e o encaminhamento médico urgente.

A ausência do toque e da presença física do fisioterapeuta compromete diretamente a integridade do tratamento. É através da palpação e do contacto manual que avaliamos a estabilidade articular real, a tensão tecidular e as micro compensações que o corpo faz para fugir à dor.

 Um algoritmo pode validar uma flexão de anca como “correta” com base em coordenadas espaciais, falhando totalmente em detetar que o utente está a sobrecarregar a coluna lombar para compensar uma falha de estabilização profunda. O resultado prático desta cegueira tecnológica não é a cura; é o agravamento da lesão ou o surgimento de novas patologias.

A tomada de decisão em saúde não é matemática. Ela exige sensibilidade clínica para perceber o limiar de fadiga do doente, o seu estado de fragilidade óssea e as suas barreiras psicológicas face à dor. Deixar que um doente, muitas vezes idoso ou com múltiplas patologias, execute forças e amplitudes ditadas por um ecrã, sem um profissional ao lado para realizar o re-teste imediato e ajustar a carga em tempo real, é uma negligência institucional disfarçada de inovação. Tal como defende a nossa Ordem profissional, a IA pode ser uma aliada útil na monitorização secundária ou na promoção da adesão ao exercício, mas nunca o pilar da reabilitação. Substituir a triagem e a avaliação humana por sistemas digitais, com o único propósito de reduzir custos e estatísticas, coloca os utentes num papel de cobaias de uma linha de montagem de exercícios. A segurança do doente não se garante com atualizações de software, garante-se com raciocínio clínico, responsabilidade profissional e supervisão presencial. Reduzir a Fisioterapia a um tutorial interativo em casa é um retrocesso perigoso para a saúde pública.

Saúde

Autor: Luís Ventura

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