O vestido da República
A chegada de um novo Presidente da República ao Palácio de Belém deveria ser, antes de mais, um momento institucional.
Um símbolo de continuidade democrática, de estabilidade e de confiança nas instituições. No entanto, no nosso tempo hiperconectado, parece que até os momentos solenes correm o risco de se transformar numa espécie de passadeira vermelha improvisada — comentada ao segundo nas redes sociais.
Nos últimos dias assistimos a um curioso fenómeno: mais do que as palavras, os gestos ou a serenidade da família presidencial, o que captou a atenção de muitos foi… o vestido da esposa. E, já agora, o da filha também.
Azul claro, vimos. Símbolo de paz e harmonia, acrescentaram alguns. Mas rapidamente a conversa descambou para algo bem mais prosaico: quem era o costureiro, de que país vinha, quanto poderia ter custado. E pronto. Em poucas horas, parecia que o mandato presidencial se media não pelas ideias ou pela postura institucional, mas pelo corte e pela etiqueta do vestido.
Confesso que achei tudo isto um pouco… estranho – e não adjetivo mais.
Num país onde discutimos — e bem — problemas económicos, desafios sociais e incertezas internacionais, de repente o foco coletivo desloca-se para o guarda-roupa da primeira-dama. Como se o tecido do vestido tivesse mais peso político do que o
próprio momento institucional.
Ora, sejamos francos: se uma pessoa tem possibilidades de escolher uma peça de um bom costureiro, nacional ou estrangeiro, qual é exatamente o problema? Não se tratava de um vestido ostensivo, extravagante ou provocador. Era elegante, discreto e
adequado à ocasião.
Diria até que muitos maridos, como eu,, se forem honestos, não se importariam nada de ver as suas mulheres com algo do género.
Mas a lógica das redes sociais é outra. Vive-se da reação imediata, da opinião instantânea e, muitas vezes, da polémica fácil. E quando as redes entram em ebulição, a imprensa raramente resiste a amplificar o ruído.
Assim, aquilo que poderia ter sido apenas um detalhe estético transformou-se num pequeno “caso nacional”.
Entretanto, talvez tenha passado um pouco despercebido algo mais relevante: a tranquilidade e a confiança daquela família ao chegar a Belém. Sem exuberâncias, sem a necessidade de encenar grandeza.
Aliás, há até um detalhe curioso: o Presidente nem sequer vai viver em permanência no Palácio. Optou por continuar na sua casa e usar Belém apenas para atos oficiais. Numtempo em que tantas vezes se critica a distância entre poder e cidadãos, este gesto poderia ter merecido um “pouco mais de atenção”.
Mas não. O “país” preferiu discutir o vestido.
Talvez isto diga mais sobre uma parte da nossa sociedade atual do que sobre a própria família presidencial. Vivemos numa era em que a imagem, o detalhe superficial e o comentário rápido ganham frequentemente mais espaço do que a substância.
No meio de tantas notícias preocupantes no mundo — conflitos, crises humanitárias, instabilidade — acabámos por transformar um momento institucional num debate de moda.
Não sei se é progresso. Mas, pelo menos, ficou uma lição: em Portugal, até a política pode acabar avaliada pela paleta de cores, qualidade e origem do guarda-roupa.
E quem sabe se, no próximo ato oficial, não estaremos todos à espera de ver que tonalidade dirá mais sobre o estado da República, que “tecido” estaremos a discutir.
Se o grande debate nacional passar a ser entre azul-claro institucional ou azul-paz republicana, talvez possamos concluir que o país está, afinal, em relativa tranquilidade.
E nesse caso, confesso: não me incomoda nada. Antes discutir vestidos em paz do que fatos em estado de emergência.
Autor: Fernando Simões
