Salvar o Passado para Honrar o Futuro
A preservação do património é mais do que uma obrigação legal: é um dever moral de todos nós.
A importância de proteger o património edificado na freguesia
A preservação do património é mais do que uma obrigação legal: é um dever moral de todos nós. O património construído, enquanto espelho da vida social e cultural de uma comunidade, deve ser tratado com responsabilidade, conhecimento e respeito. É nesse contexto que importa refletir sobre os erros do passado e as decisões do presente que afetam, por vezes de forma irreversível, a nossa herança comum.
Lições do passado
Ao longo dos anos, a freguesia assistiu à destruição ou descaracterização de elementos patrimoniais de grande valor. A fachada da antiga Fábrica de Cerâmica – Sucursal das Devesas (1886), conhecida como “Fábrica Velha”, foi uma das perdas mais simbólicas. O mesmo aconteceu com o Cineteatro (1908), cujas alterações não protegeram as características originais da sala – mobiliário e decoração – memória arquitetónica riquíssima dos antigos cineteatros de província dos inícios do século XX.
Estes episódios revelam como a ausência de uma política de proteção consistente e a falta de articulação entre entidades competentes podem resultar em decisões que apagam parte da nossa identidade.
Intervenções recentes e preocupações atuais
Nos últimos tempos, têm decorrido obras de requalificação das fontes e lavadouros da freguesia, responsabilidade da Junta de Freguesia. Embora saudemos a intenção, não podemos deixar de manifestar preocupação com alguns resultados.
A intervenção na “Fonte d’Aqui” — a mais antiga da freguesia e um raro exemplo de fonte de mergulho — comprometeu significativamente a sua originalidade. Além disso, outras alterações, como a mudança de nomes e a aplicação excessiva de placas informativas, têm contribuído para uma certa banalização estética e histórica destes espaços.
Estas intervenções, por mais bem-intencionadas que sejam, devem estar sujeitas à apreciação técnica da Câmara Municipal e dos seus serviços especializados. Só assim se poderá garantir que o património é preservado de forma competente e rigorosa.
Um apelo pela recuperação do Aqueduto da Fonte do Mello
Entre os elementos patrimoniais em risco, destaca-se o antigo Aqueduto que abastecia a Fonte do Mello, uma estrutura de grande valor histórico e arquitetónico, única no concelho. Atualmente invadido por vegetação densa, encontra-se em sério risco de colapso. A sua recuperação é ainda possível — e deve ser uma prioridade.
Este aqueduto não é apenas uma ruína esquecida; é um testemunho do engenho e das necessidades de outra época, e um marco da nossa memória coletiva. Ignorá-lo é deixar que o tempo apague mais uma peça do nosso passado.
Conservar é lembrar
O património não são apenas os grandes monumentos de pedra ou os edifícios imponentes. São também os pequenos espaços do quotidiano — uma fonte, um lavadouro, uma parede antiga — onde ecoam as vozes de quem por ali passou.
Preservá-los é garantir que as histórias da nossa terra continuam a ser contadas. É permitir que as gerações futuras conheçam, compreendam e se orgulhem do lugar de onde vieram.
Porque quando perdemos um pedaço do nosso património, perdemos também um pouco de nós.
Autor: Jornal da Mealhada
