Um tema para refletir no Natal de 2025: a solidariedade. Como um pequeno gesto de solidariedade muda o Mundo.
A solidariedade é comumente definida como a atitude de se colocar ao lado do outro, manifestando empatia, apoio e ajuda […]
A solidariedade é comumente definida como a atitude de se colocar ao lado do outro, manifestando empatia, apoio e ajuda mútua em situações de dificuldade, sofrimento ou necessidade. É um sentimento que une as pessoas e se traduz em ações concretas para amenizar problemas, promovendo a justiça social e o bem-estar coletivo. A solidariedade pode ser vista em diferentes contextos, desde gestos individuais como ajudar um vizinho, até ações coletivas como doar para instituições ou defender direitos, e tem raízes etimológicas na língua francesa (“solidarité”).
Como um sentimento, é a disposição de se identificar com o sofrimento alheio e de se comprometer em ajudar a solucioná-lo, mesmo quando isso implica um sacrifício pessoal.
Como ação, manifesta-se através de ajuda, amparo, apoio, cooperação e empatia, fortalecendo os laços sociais e promovendo a justiça.
Em diferentes contextos: pode, no individual, ser um gesto de gentileza para com um colega ou a doação de sangue para um hospital; no coletivo, a organização de campanhas para ajudar vítimas de desastres ou a participação em iniciativas que visam melhorar a vizinhança; no âmbito jurídico, um acordo entre pessoas onde todas compartilham integralmente as obrigações ou responsabilidades de um ato ou dívida.
Como exemplos práticos: ajudar um colega de trabalho a terminar um projeto; doar alimentos, roupas ou livros para quem precisa; prestar apoio moral a alguém que passou por dificuldades; participar de campanhas de doação de sangue; defender uma pessoa que está a ser maltratada ou discriminada.
Um exemplo flagrante da solidariedade humana e que revela a sua superioridade em relação a todos os restantes animais terrestres é o apoio que se presta quando se tem um fémur partido. Nos animais isto determina a sua morte certa, seja jovem ou mais velho: impede-o que busque alimento ou que vá ao rio ou lago buscar a dessedentação. No homem, significa que alguém fica a seu lado prestando-lhe a ajuda que necessita para sobreviver.
O sociólogo Émile Durkheim, na sua obra sobre a solidariedade social, descreve dois tipos de solidariedade: a mecânica (em sociedades pré-industriais, baseada em tradições) e a orgânica (em sociedades modernas, baseada na interdependência do trabalho especializado) (A solidariedade, in IA, ttps://www.google.com/search?q=o+que+%C3%A9+a+solidariedade%3F&sca_esv).
A solidariedade é muito mais do que um simples gesto; é uma expressão profunda de empatia, respeito e compromisso com o bem-estar do outro. Manifesta-se como um elo que une as pessoas através da compreensão, da partilha e da vontade de ajudar, mesmo quando isso implica algum sacrifício pessoal. Ser solidário significa agir em favor de alguém, não por obrigação, mas por genuína preocupação com o bem comum.
A solidariedade também representa uma interdependência de sentimentos, ideias e propósitos, gerando um sentido de comunidade e de causa partilhada. Quando praticada de forma sincera, cria uma identidade coletiva, fortalecendo os laços sociais e promovendo uma convivência mais justa, equilibrada e harmoniosa.
Em suma: a solidariedade não é apenas uma atitude de apoio; é um princípio ético que sustenta a convivência humana, uma forma de nos reconhecermos uns nos outros e de construirmos, juntos, um mundo mais fraterno e cooperativo.
Na sociologia, existe o conceito de solidariedade social, que subentende a ideia de que os seus praticantes se sintam integrantes de uma mesma comunidade e, portanto, sintam-se interdependentes.
O que forma a base da solidariedade e como ela é implementada varia entre as sociedades. Nas sociedades mais pobres, pode basear-se principalmente no parentesco e nos valores compartilhados, enquanto as sociedades mais desenvolvidas acumulam-se várias teorias sobre o que contribui para um senso de solidariedade, também chamada de coesão social.
O dia internacional da solidariedade é a 20 de dezembro. A solidariedade também é um dos seis princípios da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e também é mencionada na Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos, mas sem conceito claramente definidos. À medida que a pesquisa e a produção de biotecnologia e aprimoramento biomédico aumentam, é importante a necessidade de definição distinta de solidariedade nas estruturas dos sistemas de saúde (A solidariedade in wikipédia).
A solidariedade evoluiu da solidariedade mecânica (ligada a costumes e semelhanças) para a solidariedade orgânica (ligada à interdependência na sociedade moderna, como o trabalho especializado). Posteriormente, o conceito evoluiu para uma ideia de fraternidade e amor ao próximo baseada em ideais igualitários, como os da Revolução Francesa, e mais tarde, para uma abordagem mais jurídica e formal focada em direitos humanos e responsabilidade social.
2 – Evolução do conceito da solidariedade.
O conceito de solidariedade partiu da obrigação solidária presente no direito romano e evoluiu depois através da fraternidade imanente no amor ao próximo da doutrina cristã para, na Revolução Francesa, alcançar os traços que mais o caracteriza nos tempos atuais. A partir desta altura, a fraternidade afastou-se das implicações religiosas, mantendo, contudo, a ínsita ideia de igualdade presente no Cristianismo.
Com o declínio do Estado Liberal, o princípio começou a apresentar um conteúdo socializante, tendo ingressado definitivamente nos estudos jurídicos da Escola Sociológica, podendo-se, então, falar em um princípio jurídico da solidariedade.
No final do século XX, a solidariedade atingiu o significado de valor capaz de informar os direitos fundamentais, dotados de alto grau de humanismo e universalidade, destinados a todo o género humano.
No direito constitucional portugês, a solidariedade é encarada como um princípio fundamental que se manifesta na responsabilidade coletiva, na construção de uma sociedade justa e solidária, e na proteção de direitos sociais. É um dever constitucional que se traduz, nomeadamente, no apoio à segurança social, na responsabilidade do Estado e de outros agentes públicos perante os cidadãos, e na necessidade de proteger as gerações futuras e o ambiente (artºs 1º, 9º, 13º, 26º e 63º da CRP).
Ganhou conteúdo com base nas ideias “pós positivistas” lançadas após a Segunda Guerra Mundial, como instrumento de mudança social, já que pode ser atualmente exigido juridicamente, através dos ideais da Revolução Francesa, das inestimáveis contribuições da doutrina cristã e da socialização do princípio operada com a queda do Estado Liberal.
No desporto, o conceito está bem patente no princípio “um por todos e todos por um” (e pluribus unum), cuja origem é atribuída ao poeta romano Virgilio, constante no emblema do Benfica, que significa “de muitos, um”, ou “a partir de vários, um só espírito”, simbolizando a união de todos os associados do clube para formar um só. Essa divisa latina representa a fusão de dois clubes, o Sport Lisboa e o Sport Clube de Benfica, em 1908, que deram origem ao atual Sport Lisboa e Benfica, um exemplo de unidade e força conjunta.
A mesma frase é também o lema, hoje nacional nos Estados Unidos, do município de Mongaguá, e da Polícia Civil de Minas Gerais (DEOESP), no Brasil.
Em suma: significa a união entre as partes e o todo, que deu origem a diversos sentidos, como já referimos, que teve origem nas sociedades greco-romanas clássicas, onde não havia muito lugar para a solidariedade numa sociedade extremamente desigual, esclavagista e machista. Para a solidariedade atingir o patamar que hoje ostenta percorreu um lento processo evolutivo, assentando nos ensinamentos de Aristóteles, na qual a amizade seria capaz de manter as cidades unidas; as relações sociais deveriam ser desenvolvidas a partir dos laços de amizade que cada um faz com quem bem entender, de acordo com sua livre afeição, afastando perentoriamente as relações baseadas somente na força da história familiar ou nos laços de sangue. As relações sociais baseadas na amizade, não na dominação de certas tradições tribais ou familiares, seria o primeiro pressuposto para o desenvolvimento da solidariedade clássica; nesta, a solidariedade ficava adstrita às altas classes urbanas, pois a sociedade da época era extremamente desigual, inferiorizando a mulher e admitindo a escravidão. Assim, para o deleite de uma classe dominante, o preço a pagar seria a exclusão dos “infames”: bárbaros, estrangeiros, mulheres e escravos. Nas sociedades clássicas, portanto, a solidariedade só se fazia sentir entre poucos.
A doutrina cristã, por sua vez, ampliou consideravelmente o sentido da solidariedade. Através de sua concepção, a solidariedade deveria ser entendida como amor ao próximo, incluindo aí os inimigos e estranhos, concebendo o homem como criação feita à imagem e semelhança de Deus, dever-se-ia reconhecer igual dignidade aos mesmos, já que tal qualidade lhes seria ínsita. Assim, o homem deve amar ao próximo como a si mesmo, pois todos são iguais em dignidade. Esse é, possivelmente, o maior fundamento filosófico do princípio da solidariedade. Tendo em vista essa igualdade entre todos os seres humanos, o cristianismo universalizou a ideia de solidariedade, tendo como destinatário não uma classe superior ou dominante, mas todo o género humano.
Isso levou à alteração da legislação em diversas partes do mundo: em Israel, em que era admitida a escravidão, os proprietários deveriam libertar seus escravos e pagar-lhes alguma quantia para mantê-los por certo tempo, reconhecendo-se, ainda, direito à liberdade para o escravo que fosse seriamente ferido por seu senhor. O princípio da solidariedade em sua feição de ajuda ao próximo imprimiu substancial alteração nos mecanismos de arrecadação e distribuição de tributos entre os judeus. Alteraram-se, ainda, as regras acerca do endividamento pessoal, fazendo com que as dívidas fossem perdoadas a cada sete anos, causando a diminuição da escravidão por dívidas e desencorajando o abuso daqueles que emprestavam quantias vultosas sabendo da impossibilidade de pagamento do necessitado. Estas ideias cristãs eram muito revolucionárias para seu tempo. Defender a igualdade de todos os homens e o amor ao próximo, seja este desconhecido ou inimigo, acabaria não surtindo o efeito prático esperado numa sociedade essencialmente desigual. Para os cristãos, a solidariedade, ou seja, a efetivação do mandamento concernente em amar o próximo como a si mesmo, era o caminho para se alcançar o reino dos céus, mostrando como a solidariedade ainda não tinha qualquer aspeto político ou jurídico. A doutrina cristã, finalmente, fez evoluir a ideia de solidariedade clássica, referível a poucos, para uma solidariedade atribuível a todos.
A solidariedade cristã era voltada para outro mundo, pois estava intimamente relacionada com a salvação pessoal. Esse caráter sobrenatural foi, no entanto, fortemente combatido pelas ideias postas em movimento após a Revolução Francesa, originando a ideia moderna de solidariedade. Foi somente através desta que se conseguiu superar o idealismo de igualdade sobrenatural cristão e as profundas desigualdades das sociedades clássicas, que eram esclavagistas e machistas. Assim, pode-se dizer que as bases modernas do princípio da solidariedade foram de fato lançadas, em 1789, desenvolvendo-se juntamente com o constitucionalismo, quando a solidariedade cristã foi politizada e, posteriormente, abraçada pelos movimentos sociais do século XIX, concretizando-se, finalmente, através do Estado do bem-estar social (A EVOLUÇÃO DA SOLIDARIEDADE: DAS SOCIEDADES CLÁSSICAS À PRINCIPIOLOGIA CONSTITUCIONAL de Emanuel De Melo Ferreira).
3 – Como um pequeno gesto de solidariedade muda o Mundo.
Mais uma vez damos um exemplo do pesquisador brasileiro Reginaldo Ramos de Britto: (“Posso comer com o senhor?”, de Reginaldo Ramos in https://pt.quora.com/).
«A voz suave e trémula da menina parecia frágil, mas atravessou o burburinho do restaurante mais sofisticado da cidade como um raio de silêncio.
Alexander Walsh, um homem de negócios imponente, de terno azul-marinho impecavelmente alinhado, já prestes a saborear a primeira garfada de um suculento bife dry-aged, congelou no gesto. Sua mão, firme até então, tremeu levemente ao pousar o garfo de volta no prato. Lentamente, virou-se para a origem da voz.
Ali estava ela. Uma garota magra, de cabelos castanhos desgrenhados, ténis gastos que pareciam dois pedaços de pano amarrados aos pés, e um moletom puído, cheio de furos, que mal protegia do frio daquela noite chuvosa. Seus olhos eram imensos, de um castanho profundo, e neles havia fome, dor e abandono… mas também, de forma quase milagrosa, uma centelha de esperança.
Qual é o seu nome? perguntou Alexander, baixando o tom de voz, como quem tem medo de quebrar um cristal frágil.
Maya, respondeu, quase num sussurro: Não como desde sexta-feira…. Era terça.
Alexander respirou fundo, como se precisasse conter algo dentro dele. Fez sinal para o garçom, apontou para a cadeira vazia à sua frente.
Sente-se. Traga para ela o mesmo prato que eu estou comendo… e um copo de leite quente.
Maya arregalou os olhos, como se tivesse medo de que aquilo fosse apenas uma ilusão prestes a desaparecer. Sentou-se devagar, com as mãos no colo, encolhida. Quando o prato chegou, o aroma quase a fez chorar. Ela devorou cada pedaço com uma pressa dolorosa, como se estivesse disputando contra o tempo, como se cada garfada fosse um fio de vida que não podia desperdiçar.
Alexander a observava em silêncio. Via cada detalhe: a forma como ela segurava o garfo com as duas mãos, como quem teme que alguém arranque a comida; o jeito de olhar para os lados, desconfiada; a pressa misturada com vergonha.
Quando terminou, enxugou a boca com a manga do moletom rasgado. Só então respondeu à pergunta que ele vinha guardando desde o início:
E sua família?
Maya baixou os olhos. A voz saiu trémula, mas firme, como quem já não tinha lágrimas para gastar:
Meu pai morreu… caiu de um andaime enquanto trabalhava na construção. Minha mãe… foi embora há dois anos e nunca mais voltou. Eu vivia com minha avó, mas ela… ela se foi semana passada. Sua voz falhou, mas ela não chorou. Talvez porque já tivesse chorado tudo o que podia.
Alexander sentiu um nó na garganta. Aquela história ecoava como um reflexo distorcido da própria vida. Ele também soubera o que era dormir ao relento, sentir o estômago doer de fome e o coração ser esmagado pela solidão. Também já havia parado diante de vitrines iluminadas, imaginando como seria sentar ali dentro e ter um prato só seu.
Por um instante, não viu Maya diante dele. Viu a si mesmo, anos atrás, pequeno, perdido, invisível para o mundo. E percebeu, com um choque interno, que não conseguiria deixá-la sair dali para voltar às ruas.
Engolindo em seco, ele disse com a voz firme, mas os olhos marejados:
Maya… você não precisa pedir comida para estranhos nunca mais.
Ela o olhou, confusa, sem entender. Alexander se levantou, caminhou até o balcão e fez uma ligação rápida. Voltou em seguida, agachou-se diante dela, ficando na altura de seus olhos assustados, e completou:
Você vem comigo. Hoje, você vai dormir em uma cama limpa, vai tomar um banho quente e vai ter o que comer todos os dias.
Maya abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Apenas lágrimas silenciosas escorreram pelo seu rosto sujo.
Naquela noite, Alexander a levou para sua casa. A princípio, dizia a si mesmo que seria apenas “até encontrar um abrigo seguro”. Mas, dentro dele, algo já sabia: aquela menina tinha vindo para mudar sua vida.
Os dias viraram semanas. As semanas, meses. E a conexão entre eles cresceu como se sempre tivesse existido. Alexander, acostumado a viver em mansões silenciosas e jantares solitários, começou a redescobrir pequenos gestos que havia esquecido: preparar chocolate quente antes de dormir, ouvir risadas pela casa, ver desenhos coloridos grudados na geladeira.
Maya, por sua vez, aprendeu aos poucos o que era confiar. No início, ainda guardava comida no bolso, com medo de que faltasse. Ainda acordava de madrugada, assustada, verificando se a porta estava trancada. Mas com o tempo, seu coração começou a acreditar: ela não estava mais sozinha.
Seis meses depois, Alexander assinava os papéis de adoção. E naquele instante, Maya não ganhou apenas um sobrenome. Ganhou um lar. Um pai. E algo que nunca havia conhecido: amor incondicional.
Nunca mais pediu comida na rua. Nunca mais sentiu frio. Nunca mais dormiu com medo de acordar sozinha.
E Alexander… descobriu que, às vezes, a vida devolve tudo aquilo que um dia nos tirou, mas de um jeito ainda mais bonito. Porque ao salvar Maya, ele também salvava o menino que um dia fora, perdido nas ruas, invisível para todos.
Os anos passaram.
Maya cresceu, estudou com afinco, tornou-se uma jovem brilhante. Escolheu a carreira de assistente social, dedicando sua vida a ajudar outras crianças em situação de abandono. Porque ela sabia, mais do que ninguém, o poder que um gesto de compaixão pode ter.
Em cada lar que visitava, em cada criança que abraçava, ela carregava dentro de si a lembrança da noite em que perguntou, com a voz trêmula: “Posso comer com o senhor?”.
E Alexander, já mais velho, orgulhoso, sorria ao vê-la transformar dor em propósito.
Ele entendia, finalmente, que a vida tinha lhe dado o presente mais precioso de todos: a chance de ser pai de alguém que jamais teria sobrevivido sem aquele encontro.
Porque, no fim, o que realmente muda o mundo não são grandes discursos ou fortunas incalculáveis. Mas sim, o gesto mais simples, feito no momento certo.
Uma refeição. Um olhar de compaixão. Uma porta aberta. Foi isso que mudou o destino de Maya. E foi isso que transformou Alexander em alguém completo».
Bom Natal a todos.
Autor: Jornal da Mealhada
