A DESUNIÃO EUROPEIA
Era previsível! Mais do que uma sucessão de tratados, a Europa Unida era sobretudo um acordo de cavalheiros que sonharam […]
Era previsível!
Mais do que uma sucessão de tratados, a Europa Unida era sobretudo um acordo de cavalheiros que sonharam um solidário espaço de paz, de liberdade e de progresso e justiça social os quais, interpretando corretamente os anseios e interesses dos povos martirizados por seis anos de destruições e morticínios, granjearam a sua confiança.
Voaram as décadas, alargaram-se as fronteiras, mudaram-se as vontades. A introdução da moeda única e a mercantilização das relações lançou pesada dose de lixívia sobre o solidário cavalheirismo dos pioneiros substituindo a magnanimidade e mutualidade das ajudas pela formalidade negocial dos empréstimos. A genuinidade da sonhada Europa dos cidadãos transformava-se, pois, na artificialidade duma Europa dos consumidores.
A Comunidade onde a riqueza e a pobreza davam as mãos para construir a Europa solidária e social transformou-se numa estranha União de meia dúzia de ricos na mira duma rebanhada de pobres.
E para que não restassem quaisquer dúvidas, a chanceler Merkl, do alto do seu trono imperial, afirmava perentoriamente que não existe (que não está nos horizontes) qualquer europa social.
Há, sim, uns que mandam e outros que cumprem, uns que emprestam e outros que pagam, uns que se banqueteiam com caviar e outros que comem o pão que o diabo amassou.
Hoje, não há cavalheiros. Há parasitas. Hoje não há políticos solidários defensores de políticas sociais. Hoje há financeiros apostados no lucro.
Logo, União Europeia é uma fábula. Jamais um sonho. Muito menos uma realidade.
Neste contexto e pelos acontecimentos que a história vem registando, especialmente no dealbar deste terceiro milénio e de que se destaca o ultimatum e o garrote financeiro à Grécia, a vil atitude de muitos países relativamente às migrações, e não só, os povos manifestam inquietação e animosidade perfidamente aproveitadas pelos movimentos extremistas que começam a pontificar no euro espaço.
As consultas referendárias já realizadas em alguns países revelam que quase metade dos europeus está contra esta Europa antissocial de meia dúzia, sem projecto e sem futuro.
A vontade britânica só apanhou desprevenidos aqueles que, na cegueira dum poder usurpado, pouca atenção deram à soberania popular. Daí as atitudes revanchistas, os castigos com que pretendem eivar o processo de saída dos atrevidos europeus de além-Mancha. Daí a preocupante opacidade da geoestratégia que tão levianamente(?) hostiliza o mais importante exército da Europa.
A Europa que pensamos para as gerações vindouras não é esta.
Irão dizê-lo, doravante, muitos mais povos. Está aberta uma caixa de pandora!
A Europa de Adenauer, De Gasperi, Schuman, Monet dispensa os imperadores e os parasitas.
A Europa precisa urgentemente de cavalheiros!
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Opinião de Renato Macedo de Ávila
Autor: Jornal da Mealhada
