A Esperança, o Asco e a Desgraça
1. Para lá do calor e do aquecimento galopante no nosso planeta, há um outro problema global sério que também […]
1. Para lá do calor e do aquecimento galopante no nosso planeta, há um outro problema global sério que também merece ser destacado, para ajudar a promover uma reflexão geral cada vez mais necessária sobre o assunto: a alimentação. O consumo de carne é directamente problematizado por uma série de factores importantes, nomeadamente de ordem económica e ambiental. Sem esquecer a saúde. A questão é muito mais relevante do que se possa julgar. Por incrível que possa parecer, o consumo de um hamburger com pouco mais de 100 gramas implica um gasto de cerca de 2500 litros de água. Quando se fala na poupança do precioso recurso hídrico, nomeadamente a nível do consumo doméstico, esquecemo-nos de que a produção agrícola é responsável por gastos muitíssimo superiores, que deverão alertar o consumidor e levá-lo a uma ponderação sobre os seus hábitos alimentares. A árvore não faz a floresta mas é uma parte dela, e também a caracteriza tal como ela é. A este propósito, recomendo o visionamento de um filme de terror que já tem uns anos, mas continua muito actual: Cowspiracy. É daqueles que abana a sério quem o vê. Como se já não bastasse todo o celeuma em torno da carne, eis que também agora o peixe surge amaldiçoado. A verdade é que há um apetite cada vez mais voraz por peixe, sendo que o seu consumo duplicou nos últimos 60 anos, e a tendência é acentuadamente crescente, apesar do recurso ser finito. Muito saboroso e riquíssimo em nutrientes essenciais, o peixe está condenado pela poluição, pelas alterações climáticas e pela sobrepesca, problemas que não são de hoje mas que têm colocado cada vez mais em risco a sobrevivência de algumas espécies. Quem não gosta de um bom bife ou de uns belos nacos de leitão? E o bacalhau, o atum, ou as maravilhosas sardinhas frescas na brasa? Por mais doloroso que possa parecer, e comigo a encabeçar a lista dos deprimidos, há uma revolução cultural forçada em marcha, a nível alimentar. Por variadíssimas razões, nunca a horta biológica do fundo do quintal foi tão valiosa como agora. Uma esperança.
2. Depois da glória da improvável mas alcançada e merecida vitória no Europeu de futebol, feito único na História desportiva do nosso país, voltam a pairar alguns fantasmas na Europa. A saída do Reino Unido da União Europeia e o insuportável drama humano dos fluxos migratórios (um problema enorme que nos deveria a todos fazer corar de vergonha e que apenas agora está a começar) são questões pequenas para a Comissão Europeia, comparado com esse enorme flagelo do suave incumprimento do défice português de 2015. Incumprimento esse que importa punir, daí as já muito mediatizadas sanções. É importante informar as pessoas que estamos a ser sancionados pelas instâncias europeias por não cumprirmos os limites de um défice que surgiu após o escrupuloso seguimento das orientações programáticas sugeridas e impostas… pelas próprias instâncias europeias, durante a vigência do governo anterior. Isto é de pôr as mãos à cabeça. A mesma Europa da Igualdade que usa dois pesos e duas medidas na aplicação de sanções, poupando a França, por exemplo, o país europeu historicamente mais violador da regra dos 3%. Mas a França, a campeã dos infractores, “é a França”, segundo Juncker, e Portugal é apenas Portugal, claro. Não há sucesso desportivo algum que nos eleve o patamar da confiança e do respeito. No entanto, o descarrilamento moral europeu não fica por aqui. Para lá do Ronaldo, em relação ao qual sou suspeito de todas as simpatias, sem qualquer carga irónica, ainda há portugueses aparentemente confiáveis e respeitáveis, aparentemente susceptíveis ao mais ilustre reconhecimento. O nosso conterrâneo Durão Barroso, um fiel pró-austeritário com as mãos sujas de sangue da guerra, foi recentemente nomeado Presidente da Goldman Sachs. Os mais atentos devem lembrar-se que foi este poderosíssimo império financeiro (chamar-lhe grupo é meramente caricatural) que maquilhou as contas da Grécia, enganando a Comissão Europeia que na altura era presidida pelo mesmo Durão. Lucrar à grande com tragédias humanitárias terríveis onde populações inteiras são lançadas para a mais profunda miséria da busca incessante pelo remédio e pelo alimento, é este um dos pérfidos desígnios da GS. Lembram-se também da crise financeira global de 2008 que nos catapultou o rating da dívida, a crise do famoso subprime? Isto realmente é mesmo de pôr as mãos à cabeça. Depois de dez anos de Comissão Europeia que tiveram o resultado que tiveram, o insigne Durão é agora o Presidente da usura e do empréstimo predatório. A política de braço dado com a alta finança. Um asco.
3. Um tunisino louco ao volante de um camião atropelou e assassinou mais de 80 pessoas em Nice, uma das mais bonitas cidades de França, deixando ainda umas largas dezenas de feridos graves a lutar pela vida. Entretanto, uma tentativa falhada de golpe de estado na Turquia já causou pelo menos 200 mortos, também nas últimas horas. Valorizemos tudo o que temos de bom, meus amigos porque o mundo em que vivemos é este. Uma desgraça.
A esperança o asco e a desgraça. Valha-nos o que ainda nos resta.
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Mauro José Tomaz
Autor: Jornal da Mealhada
