A importância duma mãe
É inquestionável o valor da mãe na vida humana através dos tempos e não só do homem, mas também de […]
É inquestionável o valor da mãe na vida humana através dos tempos e não só do homem, mas também de todos os mamíferos que dela dependem como sustento nos primeiros tempos de vida e da sua protecção contra todos os perigos.
Até nas aves é notável o carinho, os cuidados na alimentação e protecção das suas crias. Repare-se numa galinha com os seus pintainhos.
A amamentação dos primatas e, em especial, a humana, ao peito, favorece a ligação afectiva mãe-filho, além de outras vantagens como a transmissão de alguns anticorpos destinados a aumentar a resistência às doenças de infância e, segundo parece, protecção para o Alzheimer e outras doenças degenerativas dos idosos.
Noutros tempos, não muito longínquos, antes do advento da pilula que permite suspender a ovulação, por opção, engravidar mais tarde e, por via disso, produzirem menos leite. É frequente as jovens mães terem leite a mais, o que chega a causar desconforto.
Nas aldeias, onde na altura havia muitos bebés e mães que amamentavam até tarde, se surgisse uma em excesso de leite levavam-lhe um bebé saudável para ajudar a esvaziar-lhe os seios e, no caso contrário, em que a produção de leite fosse deficiente, havia sempre quem, com superprodução, desse uma ajuda. Era a solidariedade própria da aldeia que funcionava como família alargada. Não havia falta de alimento apropriado aos bebés e não se falava na existência de Alzheimer.
Antes de surgirem os antibióticos e outras armas terapêuticas eficazes, a mãe era o melhor suporte da vida.
Se estou vivo devo-o a ela. O mesmo sucedeu a muitos pacientes da minha geração que sofreram doenças graves e que, na altura, não tinham tratamento especifico.
Por nós passaram todas as doenças da infância como o sarampo, a rubéola, a coqueluche, as viroses mais diversas que, na altura, estavam abrangidas no denominado sarampelo que se dizia sete vezes vem ao pelo.
Era também as amigdalites, as gripes e febres sem causa determinada. Tudo junto contribuía para a mortalidade infantil que, na altura, era elevada, mas quando resistiam adquiriam capacidade para enfrentar outras doenças mais graves no futuro.
Sempre que ocorria doença com febre alta mandava-se chamar o médico que era esperado com ansiedade.
Demorava a chegar e quando chegava pouco podia fazer, por falta de medicamentos eficazes, mas só a sua presença e as suas palavras de esperança constituíam uma tábua de salvação a que todos recorriam.
Às vezes eram eficazes como a resolver partos difíceis ou a abrir e drenar um abcesso, ou quando usavam o termocautério para tratar de um antraz, um carboninho ou afecções malignas e infeciosas da pele.
Isso vai passar, diziam. O pior era quando se tinha tosse, então auscultavam e declaravam: Há uma congestão pulmonar. E prescreviam papas de linhaça bem quentes que a mãe aplicava no peito e nas costas, o que era uma chatice.
Recomendavam mantê-lo na cama, caldos de galinha e meterem uns supositórios para a febre.
Quando achavam necessário viam a garganta, apalpavam a barriga e às vezes pediam para mostrar as urinas e ter cuidados de higiene para evitar contágios.
No fim, depois de lavarem as mãos, perguntava-se Senhor doutor, quanto devo? Não é nada.
Mas senhor doutor, teve de vir cá Já disse, não é nada! Já pagaram a avença para a toda a família (o que era uma ninharia).
Depois os doentes, em geral, sentiam-se melhores.
Havia os casos de meningite, raros, mas fatais, a febre tifoide, frequente por falta de tratamento das águas, não era fatal, mas muito grave, matava com frequência e segundo se dizia, tinha pior prognóstico tratada nos hospitais do que na casa do paciente.
Quanto à tuberculose, embora não sendo fatal, era catastrófica, porque quando surgia numa família matava muitos jovens deixando-a destroçada.
Coube-me sofrer a febre tifoide, também conhecida por tifo ou febre intestinal. Teria eu os meus quinze anos de idade, mais coisa, menos coisa.
Recordo ter perdido totalmente o apetite, uns quinze dias antes de se manifestar a febre. Numa idade em que se come bem, nem as batatas salteadas com torresmos, de que eu gostava muito e até costumava confecionar quando chegava do colégio, vindo de bicicleta, me apetecia.
Surgiu a febre alta, contínua, que rapidamente atingiu os quarenta graus, não passava, tinha suores profusos e até delírios. Gritava a chamar pela minha mãe e só com ela à minha cabeceira conseguiria algum descanso e a certeza de estar protegido. Para isso, contribuía a água fresca que me punha na testa com compressas e também rodelas de babata.
Mandou chamar o médico que ordenou dieta apertada: só água fervida, repouso absoluto e cuidados de higiene para evitar contágio.
A febre altíssima persistia semanas a fio com algumas remissões ligeiras, mas logo regressava em suores, delírios, enfraquecimento, sempre com a mãe próxima e sempre com a sensação que se ela me faltasse não teria salvação possível. Mas aos poucos a febre baixou e o apetite regressou.
O médico continuava a restringir-me a dieta, agora permitia canja de galinha só bebida, eu estava magro, esquelético, cum uma fome devoradora e nada de leite e nem um grão de arroz, pelo que, até a canja era coada.
Os médicos tinham medo de surgir uma perfuração intestinal que daria uma peritonite e morte.
Estive acamado mais de um mês, mas lá consegui restabelecer-me e agora penso que, por ter suportado toda aquela febre, saí reforçado, com o sistema imunitário treinado para embates futuros, sendo o mais temível de todos o cancro.
Com idade avançada, já não tenho mãe, mas não esqueço os sustos que lhe preguei, os cuidados e carinhos que dela recebi em todas as doenças que me atingiram e penso que se estou vivo a ela o devo e como eu muitos da minha geração e das anteriores.
xa0
Opinião de Virgílio Brêda
Autor: Jornal da Mealhada
