A Peluda Cicciolina
A minha gata Tareca morreu há oito dias. Tinha dezassete anos de idade, tantos os xa0que passaram desde que o […]
A minha gata Tareca morreu há oito dias. Tinha dezassete anos de idade, tantos os xa0que passaram desde que o meu amigo António ma veio trazer a casa num bolso da gabardine. Tão pequena era que ali cabia perfeitamente de corpo enrolado em pelo e a cabeça de fora. Porém no dia seguinte à sua chegada já corria pela casa atrás duma bola de papel que atei a um fio de atar chouriças e pendurei numa cadeira da sala de jantar. Aqui viveu a vida entre o fora e dentro da moradia, esperta e atilada consoante vida de gata e habituou-se a nós e nós a ela salvaguardado o devido respeito entre hábitos duns e doutros, uns de racionalidade, há quem diga, outros de irracionalidade.
Darwin abriu as portas a discussões sobre o assunto mas até hoje ainda não se conseguiu acertar devidamente a certeza das questões e se está mais ou menos encontrada entre humanos a solução , não será tanto a versão vista , caso a possam ver, pelos ditos irracionais. E não vou ao ponto absoluto de querer aplicar o raciocínio a animais como as troikas e beldroikasxa0 pois isso nos levaria muito longe a destrinçar sobre o que é humano e o que não é humano, sobre quem são os humanos e quem não são os humanos, sobre a dúvida sexa0 humanos são os mais ricos ou os mais pobres, os mais altos ou os mais baixos, os mais burros, sem ofensa paraxa0 o burro, ou os mais espertos, xa0etc etc.
Chego mesmo axa0 pôr hipótesexa0 de os portugueses serem ou não seremxa0 xa0humanos, ou se uns são humanos e outros não. Se uns tem direito á vida e outros não, se uns tem direito ao trabalho e outros não, se uns tem direito a comer e outros não, se uns tem direito a mentir e outros não. Se uns tem direito a justiçaxa0 e outros não. Se uns são escravos e outros senhores. No momento critico e desiludido por que passamos, pensar os portugueses doutra maneira exige muito boa vontade e consumir muita da esperança xa0que cada vez é menor.
A minha Gata Tareca não era racional nem escrava. Como não era estéril. Teve filhos e um belo dia perante a prole numerosa mudei-lhe o nome para Cicciolina. Há quem se lembre da onorabile Cicciolina que fazia por si só um grupo parlamentar na assembleia da republica italiana, o partido pornográfico ou da pornografia. Foi por isso que lhe alterei a cédula pessoal, a Tareca era afinal uma libertária militante, de cada vez que lhe vinha o cio e conseguia fugir para a rua, ficava imediatamente de promessas.
Ultimamente, com pouca vontade de sair do calor caseiro, xa0aprendia a bater teclas no computador, sistematicamente sentada à minha frente enquanto engendrava estas crónicas e passei a trata-la simplesmente por Ciccia. Mais simples e mais intimo. E gostava dela apesar de me apagar de vez enquanto nas suas deambulações pelos meus afagos e carinhos, com as patas e as unhas, metade do escrito que eu já tinha dedilhado.xa0 Mas claro que a minha Ciccia não era humana, embora eu percebesse muitos dos seus desejos e lhe fizesse as vontades e ela soubesse os modos educados que devia ter comigo. Entendíamo-nos mutuamente porque sempre respeitei o seu espaço e dei-lhe o meuxa0 na mesma proporção . E porque nunca lhe bati , nem passou fome, resumi os meus castigos a palavras mais sonoras do que outras, nunca me temeu, nunca me fugiu, nunca me arranhou. Também duvido se teria ou não alguma inteligência, mas memória sim, isso tinha e tinha uns olhos bonitos, que eu encontravaxa0 fixados em mim inúmeras vezes em instintiva adoração. Vivíamos ambos serenos e confiantes, tínhamos crédito para dar e vender entre ambos.
Parece-me ser essa credibilidade que nos falta a nós, portugueses. Achamosxa0 que os ministros são aldrabões, as assembleias uma chachada, os políticos mentirosos e oportunistas , a justiça para os ricos, a saúde uma treta, e que o fisco existe para nos rapar o dinheiro dos bolsos e subir o preço da gasolina todos os dias! Como se isto fosse indiscutivelmente a verdade ! Como se isto se passasse em Portugal , onde um ministro da economia bonacheirão e não sei sexa0 bom vivant , nos pretende convencer que destruindo a economia se constrói o desenvolvimento exa0 nos aparece a riqueza , dizendo por palavras suas que somos mais ou menos burros se não entendermos isto. Confesso que apesar de tentar me custa a perceber, sou burro, masxa0 tenho que entender á força e sou burro uma segunda vez, de sorte que já nem sei se sou bi-burro ou burro ao quadrado, tal a confusão que me vai nas sinopses nervosas !
Por outro lado dá-me vontade de rir perante a magia desta gente respeitável, supostamente responsável, xa0xa0julgando-se xa0malabaristas doxa0 Grande Circo Du Soleil, quando nem chegam a palhaços medíocres num circo nacional! Mas falam que se desunham entre fosquetas e risos.
E volto á minha saudosa Ciccia ou Cicciolina exa0 á séria credibilidadexa0 que era apanágio da nossa convivência. Demorou algum tempo a construir , mas depois conviveu por muito .
Tal como ela, também o poder que temos é prostituído e libertário ,xa0 não passa desse degrauxa0 e nem tem a seriedade de parir , como a minha irracional Ciccia, uma ninhada de gente honesta que nos renove a credibilidade e a confiança perdidas. Isto é o que a maioria de nós pensamos, quase ponho as mãos no lume!
Luso, Março de 2012
FERRAZ DA SILVA
CRÓNICAS LOCAIS #116
Autor: Jornal da Mealhada
