A POLÍTICA DA CORRUPÇÃO
Há dias, um antigo director geral de finanças afiançava que os ricos e poderosos conseguiam fugir aos impostos através das […]
Há dias, um antigo director geral de finanças afiançava que os ricos e poderosos conseguiam fugir aos impostos através das malhas da lei deixadas de propósito para os beneficiar, leis essas frequentemente encomendadas a peso de ouro a reputados escritórios de advogados especialistas na matéria.
Subentende-se, aqui, uma deliberada conivência dos órgãos do estado a quem compete fazer e aprovar aqueles normativos.
Ninguém nos pode proibir de pensar que o suborno e a corrupção funcionaram. À custa do encurralado contribuinte, claro está.
Ninguém, ainda, nos poderá impedir de constatar que muitos impostos não chegam ao erário público porque aqueles a quem compete fazer e aprovar as leis são corruptos.
Do outro lado do Atlântico, uma Presidente da República, democraticamente eleita, está em vias de ser demitida por um Parlamento em que a maioria dos representantes do povo, incluindo o respectivo líder, está a contas com a justiça por comportamentos altamente lesivos e condenáveis de falcatruas e abusos de poder. Nas ruas, agiganta-se um clamor de cruzada contra a corrupção.
Se atentarmos no que se passa no Velho Continente, a que pertencemos, encontramos uma Europa completamente à deriva, sem lideranças, sem valores, sem políticas consistentes e justas, à mercê de aventureiros, ditadores e enfeudada a um capitalismo selvagem que domina as consciências e os governos também pela porta da corrupção.
Dá-nos a impressão de que os que governam, a classe política duma maneira geral, já se habituaram ao esquema e não se apercebem do mal que as suas atitudes de contemporização, subserviência e conivência causam à vida da colectividade e das disfunções que as mesmas provocam no funcionamento das instituições e do próprio estado.
Os partidos políticos parecem ter-se demitido da sua acção pedagógica, do seu mister moralizador e da sua função selectiva do mérito e da honorabilidade dos que escolhem para exercer o poder. Os partidos afundaram-se no atoleiro das negociatas e das manobras da baixa política, no conforto das mordomias à sombra do depauperado orçamento.
Nós, cidadãos, deixámos de acreditar na bondade e justiça das leis as quais, protegendo os mais ricos, fazem recair sobre os menos afortunados o peso das crises que aqueles, com a sua cupidez e egoísmo, vão desencadeando.
Nós, cidadãos, deixámos de acreditar nas instituições que promovem o direito e a justiça, a parcimónia na requisição do esforço de todos para prover o bem comum.
Os actos eleitorais tornaram-se num ritual cíclico e patético, sem qualquer efeito prático de mudança já que são sempre os mesmos os eleitos, com os mesmos projectos, os mesmos propósitos, os mesmos vícios.
A sociedade civil, neste quadro, encontra-se desguarnecida, apática, à mercê do cinismo desses mesmos projectos, desses mesmos propósitos desses mesmos vícios.
É, pois, chegada a hora de, no mais puro exercício da cidadania, aquela se organizar no sentido de criar um contrapoder com base na vigilância rigorosa dos actos do poder institucionalizado, no estudo das leis produzidas, na crítica e denúncia dos desacertos da governança aos diversos níveis.
As camisolas partidárias jamais poderão impedir o livre pensamento, a justeza da crítica, a descomprometida tomada de posição.
Urgente se torna implementar uma nova e séria forma de fazer política, mobilizando todas as boas vontades numa atitude colectiva de insubmissão à mediocridade e à trafulhice instaladas, de luta sem tréguas contra o caos cívico e político do politiqueirismo a que estamos condenados.
xa0
Artigo de opinião de Renato Macedo de Ávila
Autor: Jornal da Mealhada
