A SAGA BUÇAQUINA
No mês de Março passado foi aprovado um plano Especifico de Defesa da Mata Nacional do Buçaco encomendado a um […]
No mês de Março passado foi aprovado um plano Especifico de Defesa da Mata Nacional do Buçaco encomendado a um especialista em fogos mestre numa universidade americana. Não sabemos quanto pagou o município pelo trabalho, se é que pagou alguma coisa, assim como não sabemos, e devíamos saber como munícipes deste concelho e, portanto, pagantes directos, quanto custa à Câmara a manutenção dos 105 hectares da floresta. A democracia faz-se com clareza e transparência, doutra maneira é um engodo e arremedo. Já Cicero ou Cicerone de seu nativo nome dizia no primeiro século AC Senatores boni viri,senatos mala bestia o que significa mais ou menos que um bom homem político se perde facilmente juntando-se com outros no exercício das suas funções administrativas!
Dois mil e cem anos após, seguindo Cícero, é bom lembrar que a Mata Nacional é do Estado, Nacional nos dicionários, significa do Estado, coisa que a autarquia entende como sua. Mas de facto é de todos nós os portugueses, não é da Câmara da Mealhada, nem nossa, munícipes, não temos por isso obrigação de pagar os custos do que não nos pertence, já nos chega a carga fiscal mais pesada da Europa e este facto não deixa de ser indirectamente um imposto municipal sobre o munícipe por opção e imposição dos edis (senatores) locais. Ainda se a Mata estivesse bem, haveria uma desculpa, mas a realidade é que a Mata Nacional do Buçaco, nunca esteve tão degradada como hoje. Vem a propósito dumas queixas ouvidas do responsável ligado á fundação durante uma sessão sobre este plano, queixando-se da falta de ajuda do dito Estado para recuperar e manter a mata, confirmando a propósito que se deve á Câmara o principal apoio.
Porém não podemos deixar de lembrar que o dito responsável se esqueceu de esclarecer, e lá vem outra vez o romano Cícero ou Cicerone, que foi a própria autarquia que pediu insistente e teimosamente ao Estado que lhe deixasse gastar o seu orçamento na floresta e o Estado, satisfeito, acabou depois de meses de rogos e pedidos por lhe fazer a vontade através duma alteração aos estatutos da fundação, retirando-se ele, Estado, da recuperação da Mata e dos prejuízos provocados pelo ciclone de 2013 e endossando á autarquia da Mealhada, em exclusivo, os custos respectivos. É a única fundação política que não recebe dinheiro do orçamento do Estado, o que, para os nossos autarcas foi uma grande vitória e que, na minha maneira de ver foi uma grande burrice. Como é evidente, nem as verbas saem dos bolsos dos autarcas, nem os autarcas se preocupam muito com o cidadão munícipe, se assim fosse teriam uma interpretação completamente diferente.
Esclarecidos estes pontos, devo concluir que o autor do plano, com toda a sua sabedoria como especialista na matéria do fogo, porque afinal o que está em causa é a defesa da floresta contra o fogo, não aponta para caminhos novos com toda a tecnologia de ponta que refere, a acção é a mesma que já existiu na Mata do Buçaco há poucos anos, quando uma das últimas administrações florestais construiu alguns pontos de água, incluiu os lagos nessa rede e substituiu o batalhão de sapadores bombeiros agora sugerido pelo mestre, por um grupo de intervenção rápida constituído pelos funcionários florestais a quem proporcionaram formação, adestrando-os para acorrer em qualquer circunstância aos fogos na Mata Nacional do Buçaco com o apoio dum equipado camião de fogo. Foi assim com bom senso, um pouco de inteligência e pouco dinheiro que as coisas funcionavam. Qualquer pessoa da freguesia do Luso sabe que era assim, nada há de novo.
Mais tarde, porque faltava um ponto de água suficiente e próximo, a Câmara esteve envolvida num projecto da construção da albufeira agora preconizada, com a Direcção Regional da Agricultura, projecto que foi aprovado e teve início com a negociação de terrenos no sopé da serra. Era a chamada barragem do Vale da Ribeira, cuja parte destinada ao regadio foi executada através dum programa comunitário. A barragem, porém, entalada entre as gargantas dos habituais partidos do poder, não foi feita, simplesmente porque a Agricultura do Centro não se dava bem com a autarquia e vice-versa, isto é, eram de cores antagónicas. Assim, e seguindo o pequeno texto de Cícero, de indefinição em indefinição, a Câmara desinteressou-se do assunto, quer pela falta de estratégias, quer por se refugiar na comodidade da desistência. Entre lutas e falácias, optou do lustre dum gabinete pela verve fácil da má-língua e do silêncio e tudo foi por água abaixo.
O primeiro administrador nomeado para a dita fundação entretanto criada, chegou a mesmo a declarar publicamente que a barragem não era precisa para nada, não tinha qualquer utilidade, apesar de servir para levar a água ao regadio rasgado no vale da Vacariça, onde ainda estão aguardando os canais secos vindos da tal albufeira ponto de água que o mestre admite. Como pode um respeitável professor do Idaho, nos Estados Unidos da América, vir milagrosamente ressuscitar uma ideia defunto? Adivinhou?
Quanto aos sapadores bombeiros, com o devido respeito ao professor que duplicou a solução, sabe muito melhor do que eu que não somos os Estados Unidos da América, nem dispomos de riqueza para ter uma dúzia de sapadores bombeiros sentados ao fresco na Fonte Fria com a mangueira na mão á espera dum incêndio que pode deflagrar de vinte em vinte anos! De resto, que fariam os nossos bombeiros que têm dado tão boa conta do recado?
É bem certo que os santos da casa não fazem milagres!
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Opinião de Ferraz da Silva
Autor: Jornal da Mealhada
