Terça-Feira, 23 de Dezembro de 2025

A vida de um século na voz de Américo Fonseca

A vida de um século na voz de Américo Fonseca

Região

A vida de um século na voz de Américo Fonseca

“Chegou à Mealhada em 1947, depois de casar e de construir vida, família e património […]”

É aos 103 anos que Américo Tomás Fonseca, natural de Mortágua e residente no lar da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada desde janeiro deste ano, recorda memórias vividas durante mais de um século de história. Conservador assumido, trabalhador incansável e profundamente marcado pelo meio rural onde cresceu. Transformações agrícolas, ditadura, guerras e um país que diz já não reconhecer, foram temas que Américo Fonseca reviveu.

Chegou à Mealhada em 1947, depois de casar e de construir vida, família e património. Dedicou-se desde muito cedo ao trabalho na agricultura e ao comércio de gado, atividades essas que descreveu com árduas, mas gratificantes, “tinha uma agricultura acima da média. Produzia três mil de vinho e 3.500 litros de azeite por ano.” O trabalho ocupava-o dias inteiros, “passei noites na adega, no lagar, no campo. Hoje as pessoas nem imaginam o que era trabalhar vinte e quatro horas seguidas”.

Apesar das dificuldades dos tempos antigos, recorda-os com nostalgia, sobretudo quando o Natal é mencionado, “era como outro dia qualquer. Não havia presentes nem árvores de Natal”, recorda. Em criança, tudo se resumia ao essencial, a uma vida mais simples, “a vida era pobre, mas era diferente. Não havia tantos impostos, tanta papelada. O que se ganhava era para a casa, e ninguém tinha que prestar contas”. Hoje, já com um século de vida, conta como é o seu Natal, “passo aqui, janto com os outros utentes, há alimentação e tudo mais”.

O património que construiu não veio de heranças, sublinha. “Os meus filhos estudavam em Coimbra e decidi comprar uma casa para lhes dar conforto. Depois comprei outras… uma delas estava em mau estado, subi dois andares.” Com as fragilidades do trabalho na agricultura, Américo Fonseca previu mudanças e vendeu grande parte das suas terras, investindo em floresta. “Comprei prédios de floresta há uns dez anos, quase por acaso. Hoje tenho sete hectares e é disso que vivo”. Hoje, Américo fala com orgulho dos filhos e dos netos, incluindo um neto formado em gestão e atualmente a viver em Espanha. “Estão empregados e bem estabelecidos”, refere.

Mas a história da sua família não se resume a trabalho e economia. Há nela um percurso marcante ligado à história política do país. Entre os seus antepassados encontra-se Tomás de Fonseca, figura intelectual conhecida e homenageada em Lisboa. “Há uma rua chamada Tomás de Fonseca, em Benfica. É da minha família”.

Entre as muitas histórias para contar, há acontecimentos que nunca vai esquecer. O 25 de Abril é um deles, foi uma grande transformação, mas também houve injustiças que me magoaram. Sou conservador e honesto. Ver os bens das pessoas serem tomados era doloroso”. Apesar do seu posicionamento, explica que nunca sofreu nenhuma perseguição política direta, “era contra o regime, mas nunca fui chamado nem incomodado pela PIDE”.

Entre os anos de trabalho físico, noites inteiras na adega, madrugadas no lagar e decisões que lhe garantissem estabilidade, Américo Fonseca explica que, “fisicamente estou fragilizado, tomo medicamentos todos os dias, mas aqui estou. Chegar aos 103 anos é raro, mas é possível”.

HistóriaMealhadaMortáguaVida

Autor: Jornal da Mealhada

Find A Doctor

Give us a call or fill in the form below and we will contact you. We endeavor to answer all inquiries within 24 hours on business days.