Quarta-feira, 06 de Fevereiro de 2013

Alberto Luxo, jurista e poeta – cidadão da Mealhada

Alberto Luxo, jurista e poeta – cidadão da Mealhada

Região

Alberto Luxo, jurista e poeta – cidadão da Mealhada

Alberto Luxo Simões de Melo nasceu no lugar do Travasso, freguesia da Vacariça, concelho da Mealhada, em 28 de Novembro […]

Alberto Luxo Simões de Melo nasceu no lugar do Travasso, freguesia da Vacariça, concelho da Mealhada, em 28 de Novembro de 1919, e faleceu na sua casa do Luso no dia 22 de Junho de 1997, com 78 anos de idade.

Concluída a escola primária na escola da Pampilhosa, passou para o Colégio da Mealhada e dali para o Colégio S. Pedro, em Coimbra, terminando o curso liceal no liceu José Falcão. No ano de 1939 matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde concluiu a licenciatura em Junho de 1945, já então casado com a D. Julieta Teixeira Lopes Simões de Melo, de cujo casamento nasceu a única filha, em Setembro do mesmo ano, tendo dedicado às duas esta quadra:

A minha filha é aquela

Que mostra a maravilha

Que é para mim a mãe dela

Por ser mãe da minha filha.

xa0

Tomou posse de delegado do Procurador da República em Agosto de 1946, mas em Agosto de 1947 pediu a exoneração do cargo para aceitar o convite de gerente da Sociedade da Água do Luso, feito pelo Conselho de Administração presidido pelo professor doutor Bissaya Barreto. Exerceu durante mais de cinquenta anos estas funções que conciliou durante algum tempo com a advocacia, nos concelhos de Anadia e Penacova. Na Faculdade de Direito teve como colegas de curso os drs. Alberto Vilaça, Augusto Soares Coimbra e José Zacaria da Costa e Nora, o juiz-conselheiro Laurentino da Silva Araújo e o professor catedrático da Universidade de Coimbra doutor Antunes Varela.

Sendo um homem de fé, tinha uma extrema devoção pela Rainha Santa Isabel a quem dirigia as suas preces, com visitas frequente ao convento de Santa Clara, desde o tempo de estudante e pela última vez ali foi rezar, no período agudo da sua doença, como que prenunciando um acto de despedida para a Eternidade.

Viveu a vida académica com o fulgor de um apaixonado por Coimbra , cidade onde evidenciou a sua primorosa arte de versejar, com refulgências de humor, de sátira e de saudade. As reuniões de curso, os casos do dia e até os acontecimentos políticos eram como a fonte de Hipocrene , não a fonte sagrada das musas de Hélicon da mitologia grega, mas o local paradisíaco onde brotava, lustral e murmurejante, a sua brilhante inspiração.

No retomar da festa da Queima das Fitas, no ano de 1980, publicou no Comércio do Porto de23 de Maio desse ano, este bonito e oportuno poema titulado por À COIMBRA ETERNA: Coimbra quer ter de novo/Queima das Fitas. Terá./Se é esse o querer do seu Povo/Alguém lho recusará? / Meu companheiro de outrora/Com mais de seiscentos meses,/Como eu, sentes agora/Mil saudades, tantas vezes. / Mas a juventude hodierna/Vai, no ano que decorre,/Trazer à Coimbra eterna/A tradição que não morre. / As tradições que são tuas,/Velhinhas, de longa idade,/Voltarão às tuas ruas/No fulgor da mocidade. / E nós que agora vivemos,/De ti, Coimbra, distantes,/É natural que apoiemos/Os actuais estudantes. / Queima das Fitas de outrora,/Foste passado, és presente,/Numa saudade que chora/Tão igual e tão diferente.

Tive o grato privilégio de conviver com o dr. Alberto Luxo e de haurir a sua generosa amizade. Nesse tão agradável convívio, em encontros frequentes no Café Nicola de Coimbra, conheci as poesias ocasionais que beliscavam o momento político do tempo. Recordo a crítica aos arrufos entre o presidente da República de então, dr. Mário Soares, e o primeiro ministro, Professor doutor Cavaco Silva, sobre duas fotos publicadas salvo erro no jornal O Público, uma foto mostrando o primeiro ministro a servir um copo de água Vitalis ao presidente, e outra com o presidente a coçar a vista com o dedo indicador. A primeira foto deu lugar a esta quadra, na boca do presidente: Eu tenho cá uma mágoa/Que até me deixa confuso:/Ter de beber uma água,/Que não seja água do Luso. Sobre a segunda foto, a quadra surgiu assim: Digo-lhe, senhor Primeiro/ E esta não me sai do caco:/Entrou-me aqui um argueiro/Do tamanho dum cavaco

O antigo elevador do Palácio da Justiça, que dava acesso ao Tribunal da Relação e estava quase sempre avariado, também mereceu reparo do poeta bairradino: Ora arranco, ora travo,/Esta a minha condição./Só quando há agravo,/É que subo à Relação.

O saudoso amigo chegou a formular-me o convite para uma tertúlia no Luso. Aquele fatídico mês de Junho pôs termo ao sonho, ao simpático convívio, e ao luminoso itinerário terreno que lhe dava tanta alegria! Ficou a saudade como recordatório da estima mútua e da amizade sempre evidenciada nos memoráveis encontros que tivemos. A Parca, maldita, imparável e traiçoeira, produz sempre os seus destroços no seio dos simples mortais, alguns, como este querido amigo, imortalizados pela sua postura, pela sua arte, pelos valores que professou, como filosofia admirável de Vida

xa0Aníbal Duarte de Almeida

Autor: Jornal da Mealhada

Find A Doctor

Give us a call or fill in the form below and we will contact you. We endeavor to answer all inquiries within 24 hours on business days.