Amar e Viver, Viver e Amar
Escrevo estas palavras na manhã de sexta-feira, acabado de saber da notícia de um terrível acidente de autocarro em França, […]
Escrevo estas palavras na manhã de sexta-feira, acabado de saber da notícia de um terrível acidente de autocarro em França, que vitimou 12 portugueses (!). Como se já não bastasse o número elevadíssimo de baixas, acabo de saber também que entre as vítimas está uma criança de 7 anos. O horror não tem face nem pudor. Tragédias que poderão e deverão no mínimo abalar os fundamentos da fé de cada um de nós.
Há apenas uns dias atrás, mais um episódio surgido na já aparente banalização do terror no espaço europeu. Após sucessivas ameaças a acompanhar outras tantas notícias de ataques terroristas evitados pela graça e pelo engenho das autoridades e das forças de segurança, eis que mais uma vez o Daesh ceifa umas dezenas de cidadãos europeus e do mundo, no metro e no aeroporto de Bruxelas. Homens, mulheres e crianças. O terror não tem face nem pudor. Tragédias que poderão e deverão no mínimo abalar os fundamentos da fé de cada um de nós.
E pronto, assim vai o maravilhoso e lindíssimo planeta Terra onde vive a nossa Humanidade cada vez mais autofágica, cada vez mais decepcionante. A triste realidade é que nos comemos autenticamente e cada vez mais uns aos outros, e matamos para, aparentemente, poder sobreviver, o que é de uma ironia suprema. Nem vou agora recordar as desigualdades sociais e económicas galopantes que revelam a profunda injustiça na distribuição de recursos à escala global, até porque não é isso que faz os ricos mais felizes nem os pobres mais tristes, apesar de também ajudar, claro, mas o que me ocorre mesmo explorar é a lágrima de mundo onde todos vivemos, apesar da época pascal que agora celebramos efusivamente, justificada ao que parece pela ressurreição de Cristo ocorrida três dias após a sua crucificação no Calvário, conforme o relato do Novo Testamento (fazendo fé na wiki, que é escrita por mão terrena, logo uma fonte aparentemente não dogmática, que não se apresenta com um carácter de certeza absoluta). Esta é, pelos vistos, toda a motivação-base do nosso júbilo pascal, e eu nem me atrevo a dizer ai nem ui acerca, não vou atentar contra a sua factualidade. O que poderei fazer, e isso parece-me um conselho muito útil até, é convidar o leitor a interrogar-se um pouco mais sobre algumas certezas que tem como absolutas, mas que aparentemente poderão não o ser. O exercício é de louvar. Recordam-se da Caverna de Platão? Sim, esse já antigo mas actualíssimo texto filosófico que é todo um ele um convite à reflexão e à interrogação dos dogmas que vamos estabelecendo com afinco, e que o filósofo demonstra pela sua linguagem mítica e simbólica poderem perfeitamente ser um rotundo engano. É verdade. Estimado leitor, já reparou que há tantas e tantas pessoas que preferem viver uma vida inteira de mentira por não terem a mais elementar coragem de querer ver um pouco mais além? Os exemplos estão um pouco por toda a nossa volta. É uma questão de por vezes apenas querer ver, até porque o pior dos cegos é sempre o que não quer, não o que não pode.
“Não é que seja pessimista, é que o mundo é péssimo”, disse um dia o monstruoso Saramago, e eu sou obrigado a concordar com ele. A desgraça que grassa pela Humanidade cada vez mais intestina dos dias que correm poderá e deverá abalar os fundamentos da fé de cada um de nós, e eu convido-o desde já a fazer. Com tanta maldade e tanto pecado facilmente denotável e à vista desarmada, será possível acreditar que há mesmo alguém a olhar por nós? Às tantas não é altura para estar com esta conversa, mas adiante. Não pretendo evangelizar quem quer que seja, nem o oposto. O objectivo é tão-somente convidá-lo a interrogar-se apenas um pouco sobre este mundo onde todos vivemos, e sobre inquestionáveis verdades que eventualmente o possam acompanhar na sua existência, os tais dogmas que há pouco referi. Será possível acreditar que há mesmo alguém lá em cima a olhar por nós? Que cada um tire a sua ideia, eu respeito. A minha é a minha, e vale o que vale. É apenas e tão pouco a minha ideia. No entanto, deixemo-nos de tristezas sérias, das que dão que pensar, ou de constatações existencialistas desoladoras. Não pensar nem constatar já é um bom princípio, a fazer lembrar os mais profundos valores pessoanos de fuga ao penitencioso pensamento, pelo que vou já ali juntar-me à mesa farta com a minha bonita família, procurando sentir avidamente mais alguns momentos felizes que no final serão sempre aqueles que ficaram. Com ou sem motivação divina, isto é que é verdadeiramente importante. Amar e Viver. Viver e Amar.
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Opinião de Mauro José Tomaz
Autor: Jornal da Mealhada
