Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015

AO RENDER DA GUARDA

AO RENDER DA GUARDA

Região

AO RENDER DA GUARDA

Terá sido este, porventura, o processo mais complicado de sucessão governativa no pós Abril. Uma campanha eleitoral atípica, pardacenta e […]

Terá sido este, porventura, o processo mais complicado de sucessão governativa no pós Abril.

Uma campanha eleitoral atípica, pardacenta e algo ácida; resultados complexos e nada consensuais, formação de governo problemática e controversa, um Parlamento em polvorosa numa fracturante e conflituosa dicotomia; um Presidente da República pronunciadamente alinhado com uma das facções em contenda.

Fala-se em usurpação de poder por preterição dum estatístico vencedor; contrapõe-se legitimidade de poder por exclusiva capacidade de construir maioria parlamentar de suporte do mesmo.

Na nossa modesta opinião, não existem níveas túnicas em todo este processo. Se uns não informaram os eleitores das suas intenções coligativas, outros tê-los-ão ludibriado na opacidade da apresentação dos seus projectos programáticos.

Uma campanha séria, por transparência de propósitos e clareza e suficiência de informação, talvez tivesse proporcionado uma mais clara e consciente arrumação dos votos. Foi o que não aconteceu e isso terá sido o resultado das crónicas escaramuças oratórias da confusão e do amesquinhamento.

A equipa que sai não deixa saudades assim como a que a antecedeu. Os números duma titubeante retoma não chegam para fazer esquecer o seu comportamento ostensivamente antissocial e anticívico, duma sobranceira e gratuita arrogância, duma pueril e cretina insolência, duma exasperante e desumana insensibilidade.

A que entra, com a original dúvida dum sólido e confiável apoio parlamentar, traz todavia na sua composição uma lufada de esperança pela sua filosofia de inclusão e de abertura com claros vislumbres de competência, apostada na prossecução dum projecto diferente mais virado para as reais necessidades do cidadão sem distanciar-se do rigor e da exigência dos números duma crise ainda latente.

O país precisa, de facto, duma nova política e os portugueses compreendê-la-ão se lhes for apresentada com clareza e seriedade e executada com equilíbrio e eficiência.

Todos sabemos que os tempos não estão fáceis, que no horizonte europeu, e não só, se adensam nuvens sombrias e que, certamente, tão cedo não navegaremos em mar de rosas. Que os sacrifícios que ainda serão necessários sejam distribuídos com equidade e sentido de justiça para que as gritantes assimetrias sociais e o golpismo financeiro sejam por uma vez neutralizados.

Não nos parece boa política exigir do país aquilo que ele não tem nem pode dar, mas é possível potenciar e distribuir com parcimónia e sentido social todo o produto que, com solidariedade, afinco e sentido patriótico formos capazes de gerar.

O desemprego e a debilidade social serão, porventura, as grandes fragilidades da nossa vida colectiva a exigirem uma atenção muito especial de quem governa. Há que dotar o país de meios suficientes para implementar as políticas que se impõem, especialmente no apoio às famílias carenciadas, à doença e incapacidade e à velhice.

O diálogo social e político reveste-se duma importância fundamental e poderá muito bem ser a grande pedra de toque deste governo. Sem ele, bem mais difícil se tornará a sua tarefa. Um diálogo franco e aberto entre os parceiros sociais para uma melhor política de trabalho, emprego e distribuição de rendimentos; um diálogo pedagógico e construtivo entre as diferentes forças políticas no sentido de se aplanarem ou amenizarem as divergências e potenciarem as convergências na prossecução racional e patriótica do interesse comum.

Os tempos não estão para despeitos e azedumes, muito menos para capelas e conluios negativos. Por cima das suas camisolas é mister que cada partido vista a camisola nacional. A Assembleia da República é a catedral da democracia, da divergência saudável e da convergência construtiva.

De lá saíram e lá terminaram, com toda a legitimidade o governo cessante, e o governo tentado mas não suportado por uma maioria; com a mesma legitimidade, sublinhe-se, de lá sai um novo governo com um apoio parlamentar difícil e negociado taco a taco.

Aproxima-se um tempo novo, inclusivo e abrangente em que a perspectiva política, a cor, a raça, as limitações físicas deixaram de ser impeditivas para o pleno exercício da cidadania. Seria bom que todos o compreendessem e, pondo de lado estultos pruridos de bacoco elitismo, fizessem luz sobre certos e redutores conceitos de democracia.

Confiamos que este render da guarda seja o espelho dum país adulto e que os nossos políticos, os lídimos representantes que povo há pouco elegeu estejam imbuídos dum elevado espírito construtivo e patriótico e à altura do momento difícil em que vivemos.

xa0

Renato Macedo de Ávila

Autor: Jornal da Mealhada

Find A Doctor

Give us a call or fill in the form below and we will contact you. We endeavor to answer all inquiries within 24 hours on business days.