Apesar de tudoQue bom é ser Padre!
Num destes domingos de Verão, depois de um sem fim de tarefas, uma senhora liga-me, ao final da tarde, para […]
Num destes domingos de Verão, depois de um sem fim de tarefas, uma senhora liga-me, ao final da tarde, para que passasse no Hospital da Misericórdia, pois aí se encontrava internada uma pessoa que estava muito desanimada e precisava de falar com um padre. Pediu-me para que lhe desse uma palavra de conforto, pois era de longe e não tinha ninguém conhecido aqui. Embora com algum esforço, mas sem hesitação, lá fui eu!
Dirigi-me ao quarto indicado e encontrei-a, deitada na cama, com um rosto fechado e um olhar sem brilho. Ao apresentar-me, vi a sua expressão de surpresa. Fiz-lhe somente algumas perguntas de circunstância, para lhe dar oportunidade de falar de si e das suas dores.
Com efeito, não foi difícil. Falou muitos minutos, contando quase tudo de toda a sua vida. Agora doente, sem forças, vê-se sozinha e sente-se injustiçada pela vida. Tudo à sua volta está a desmoronar-se O casamento dos filhos; os netos que não têm emprego ou não querem trabalhar; o marido que faleceu no ano passado Uma vida de dores e de desamores A certa altura, parou a narrativa, para me dizer:
– Podia-me chegar a água. Os medicamentos fazem-me secar a boca.
Prontamente, a ajudei a beber uns goles de água. Restabelecida, continuou. Não tive coragem nem hipótese de a interromper, pois percebi que era importante o que me estava a dizer e o facto de mo dizer. Num ritmo um pouco acelerado, com um tom nervoso e a voz trémula, como que teve necessidade de pôr «fora» as memórias e os acontecimentos da sua história, certamente para depois os voltar a arrumar «dentro». Aliás, conforme a ia escutando, percebi que locais como aquele, onde o sofrimento da dor e da doença se mistura com a esperança do alívio e da cura, são propícios para fazer «sínteses» Sim! As «sínteses da vida» que permitem que o mais importante permaneça na mente e no coração e o banal fique fora, pois muitas vezes é mero lixo que suja e fere, por dentro, o coração da pessoa.
Ao terminar, voltou a pedir água, acompanhado de um respirar fundo como de quem tinha cumprido bem uma tarefa difícil! Quando me preparava para lhe dizer algo, ela prontamente me diz.
– Senhor Padre, já passa das sete Não se preocupe! Já pode ir embora! Fez-me bem ter «desabafado». Não precisa de dizer nada, noutro dia que passe e seu ainda cá estiver, falaremos. O mais difícil está feito. Nunca me abri assim com ninguém Sabe, vocês os padres, podem ter muitos defeitos, mas ainda são os únicos com quem podemos falar… Não sou uma pessoa de muita fé, nem me recordo da última vez que fui à missa, mas sempre desejei falar com um padre Deus faz com que vocês entendam melhor as nossas vidas. Não sei! São homens como os outros, não haja dúvida! Mas Deus dá-vos algo diferente! Não acha?
Respondi-lhe afirmativamente, com um sorriso e meio desconcertado com tal afirmação. Despedi-me, então, e prometi passar depois.
No regresso a casa, apesar do calor, do cansaço e das correrias do dia, senti que aquele fim de tarde foi reconfortante. Percebi, mais uma vez, que o essencial da missão de um padre está também nesta forma de, sem nada dizer, saber escutar e acolher o dizer da vida daqueles a quem servimos. Ser padre é estar, frequentemente, diante dos outros, com o «coração escancarado», para que aí possam depositar as suas alegrias e dores. Ser padre é, muitas vezes, não ter discursos nem argumentos, não poder rezar nem celebrar, mas ser simples presença deste Deus que quer ser Amor para todos. Ser padre é colocar-se diante Deus, sempre e permanentemente, na verdade fiel e humilde de pouco ou nada poder fazer perante os problemas e dramas da humanidade, a não ser sofrer, com e por cada um. Ser padre é, continuamente, ser «samaritano da esperança», mesmo quando a morte e o mal se agigantam diante de todos, pois há a certeza de que o Amor de Deus é sempre muito maior.
Em casa, vendo o noticiário, fiquei chocado e envergonhado por mais escândalos de pedofilia no clero. Como é possível!? Nem tive apetite para jantar. Depois de alguns telefonemas da praxe e de mais um zapping, tentei ler um pouco, mas não consegui concentrar-me. Consternado e emocionado, fui deitar-me.
Ao fazer o «exame de consciência», repassando o meu dia e apesar de tudo o que tinha visto na televisão, comecei misteriosamente a sentir uma alegria profunda desta minha vocação. Bendita a hora em que Deus me chamou. Bendita a Igreja que me gerou como batizado e como padre. Bendito o Dom magnífico que Deus me vai concedendo de poder ser para os outros, de tantas maneiras, instrumento da ação Sua amorosa, que jamais nos abandona!
Percebi, então, o desafio que me estava a ser colocado, perante estes crimes e maldades de padres e bispos, a saber: cada vez mais ser, para os outros, o padre que Deus quer, manifestando e vivendo na minha história, apesar de tantas fragilidades e fraquezas que a marcam, o amor que Ele a todos tem!
Foi curioso que, ao outro dia, acordei escutando uma frase, na rádio: A infidelidade só nasce na vida daqueles que não são fiéis!. Com efeito, a melhor forma de vencer os «males» da Igreja e da Sociedade, é cada um, na sua vida, seja padre, casado ou solteiro, ser fiel ao Amor que Deus é, em Si, e para nós!
Autor: Jornal da Mealhada
