Quinta-feira, 05 de Maio de 2016

BAIRRO DA LATA DE CHAMPIGNY

BAIRRO DA LATA DE CHAMPIGNY

Região

BAIRRO DA LATA DE CHAMPIGNY

Este doloroso pesadelo vivido pelos migrantes e refugiados, em debandada dos seus países, não nos poupa um único dia. Tragédia […]

Este doloroso pesadelo vivido pelos migrantes e refugiados, em debandada dos seus países, não nos poupa um único dia. Tragédia em cima de tragédia.

Quer queiramos quer não, agita o mais íntimo do nosso sentimento já fragilizado, acabando por nos envolver, quanto mais não seja, psicologicamente.

Creio que já nos basta, entre outros, o nosso seríssimo problema, que é a pobreza que a cada momento se nos depara sem contarmos, ao virar duma esquina, no vão de uma escada, no rebate de uma porta, numa rua, numa casa, num supermercado, numa instituição, numa grande urbe, num pequeno amontoado, enfim, em locais, onde até há bem pouco, seria impensável existir miséria. Já nos basta o que por cá vai!

Foi largamente noticiada a existência de um campo de migrantes e refugiados em Paris, denominado Selva” de Calais onde estaria a ser levada a efeito a demolição de uma parte desse campo com a transferência de residentes para contentores com condições mais dignas, o que veio, segundo informam, a ser objecto de contestação por parte de uns tantos residentes. Vá lá saber-se o porquê.

O que é certo, é que este campo, fez-me retroceder aos anos sessenta de má memória, onde na região de Paris, existiu o mais conhecido e tristemente célebre bairro da lata de Champigny, como forma de habitação e acolhimento de trabalhadores portugueses. Em mil novecentos e sessenta e sete residiam nele catorze mil e vinte e cinco nossos compatriotas. As condições eram extremamente miseráveis, segundo várias fontes e, infelizmente, confirmado por alguém que não se envergonha do seu passado escravo.

Entre mil novecentos e cinquenta e oito e mil e novecentos e setenta e quatro, cerca de um milhão de Portugueses, instalaram-se em França dispostos a trabalhar em tudo que lhes aparecesse.

A exploração brutal a que foram sujeitos começou logo em Portugal, com as redes que os transportam até à fronteira e não raro os abandonam pelo caminho, muitos morrem neste percurso. Em França, são vítimas de todo o tipo de discriminação no trabalho e no alojamento.

Os factores determinantes para a emigração massiva foram a crise do sector agrícola, a total incapacidade de outros sectores económicos, a repressão da PIDE sobre todo aquele que se opusesse ao regime e a fuga à guerra colonial.

A geração dos quarenta foi, em minha opinião, uma das mais sacrificadas. Nascidos em plena segunda guerra mundial, com toda a miséria que se arrastou anos a fio, durante e após o seu términus, prateleiras vazias, filas para tudo, doença, fome, desemprego e emprego escravo mal pago, analfabetismo e meios de saúde quase inexistentes, o terror da ditadura com perseguições, prisões, torturas e mortes e, como se não bastasse, a desgraça da guerra colonial que arrasou milhares de jovens renascidos das cinzas e esperançados numa vida que fizesse esquecer o passado.

Apesar de todo este inferno, os que sobreviveram lutaram com os seus próprios e escassos meios, como homens de bem.

Como eu gostava que as gerações de hoje fossem tão unidas, amigas, solidárias, respeitadoras, criadoras e, acima de tudo, honestas, como a geração a que tenho a honra de pertencer.

O mundo, seria muito, mas muito mais justo.

xa0

Artigo de opinião de Hermínio Pires

Autor: Jornal da Mealhada

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