Sábado, 28 de Janeiro de 2012

Bispo de Coimbra lembrou personalidade do Padre Abílio Simões

Bispo de Coimbra lembrou personalidade do Padre Abílio Simões

Região

Bispo de Coimbra lembrou personalidade do Padre Abílio Simões

O Bispo de Coimbra deslocou-se ontem, domingo, 29 de janeiro, à Igreja Paroquial da Mealhada, sede arciprestal, na sua primeira […]

O Bispo de Coimbra deslocou-se ontem, domingo, 29 de janeiro, à Igreja Paroquial da Mealhada, sede arciprestal, na sua primeira visita ao concelho da Mealhada desde a sua posse para presidir à celebração do Crisma de quarenta e nove paroquianos da Mealhada, Casal Comba e Vacariça, e à homenagem da paróquia da Mealhada ao Padre Abílio Duarte Simões, a poucos dias do quinto aniversário da sua morte.

Na homenagem da Mealhada ao padre que durante 32 anos foi o grande obreiro da construção da Igreja Paroquial da Mealhada, constou do descerramento de uma placa evocativa que passará a dar ao Salão Paroquial o nome de Padre Abílio Duarte Simões. Na cerimónia, presidida pelo Bispo de Coimbra, esteve presente significativo número de pessoas, da comunidade paroquial, o presidente da Câmara da Mealhada, Carlos Cabral, o presidente da Junta de Freguesia da Mealhada, José Felgueiras, o Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, João Peres e, ainda, os irmãos e sobrinhos do homenageado.

José Marques Santos, membro do Conselho Económico Paroquial usou da palavra, num discurso que emocionou muitos dos presentes, no qual para além de elogios ao Padre Abílio Simões fez uma referência à sua biografia, especialmente na maior parte dela, ou seja, os trinta e dois anos em que foi pároco na Mealhada e na Vacariça. (Reproduzimos o texto proferido por José Marques Santos no final desta noticia)

Também interviu o Padre José Gonçalves, o actual pároco da Mealhada, que lembrou, também, Aristides Ferreira, recentemente falecido e um dos obreiros desta homenagem.

Dom Virgilio Antunes, bispo de Coimbra, disse não ter tido a possibilidade de conviver com o Padre Abílio Simões. Acrescentou que, no entanto, tinha bem viva a memória do sacerdote que, no final da sua vida profissional aceitar dar aulas no Seminário Maior de Coimbra (Instituto Superior de Estudos Teológicos) com a condição de não lhe ser dada qualquer remuneração por isso. “Eu na altura era membro da direcção do Seminário e recordo como um grande exemplo o gesto do Padre Abílio Duarte Simões. Gesto que me marcou profundamente e a muitos dos responsáveis pelo Instituto”, disse o bispo de Coimbra. “Mais do que as paredes, que fique para exemplo de todos e do futuro, a grande obra deste homem: A que operou no coração e na alma de todos quantos com ele lidaram!”, concluiu Dom Virgilio do Nascimento Antunes.

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INTERVENÇÃO DE JOSÉ MARQUES SANTOS

Quando, em 13 de outubro de 1974, tomou posse como pároco das freguesias da Vacariça e da Mealhada, não sabia Abílio Duarte Simões, nem sabiam estas duas comunidades, o que seriam os trinta e dois anos seguintes, e o que seria a intervenção deste homem, um homem antes de ser um sacerdote, no concelho da Mealhada e em toda a região. Não se saberia, não se adivinharia, como muitos não conseguiram perceber até à sua prematura morte, em 7 de fevereiro de 2007, quem foi este homem, a intervenção que teve nos nossos corações e a intensidade da sua obra, ou do Espirito Santo através dele, na nossa vida colectiva.

Muitas vezes só percebemos verdadeiramente o que nos faz falta, quando o perdemos definitivamente. Para muitos terá sido assim com o Padre Abílio Duarte Simões. Muitos só o valorizaram depois de ele ter falecido e desaparecido do nosso convívio. Felizmente não foi assim com todos, e o Padre Abílio sabia que tinha bons amigos, irmãos verdadeiros neste rebanho que aos 29 anos acabado de vir de uma capelania na guerra em Angola assumiu na verdadeira acepção da palavra. Assumiu, verdadeiramente, e em todos os sentidos.

Lembramos hoje, aqui e agora, através do descerramento de uma placa que perpetuará o seu nome no principal salão da Igreja que ajudou a construir, a memória de Abílio Duarte Simões: Homem e Sacerdote. Uma Igreja que construiu, será talvez melhor dizê-lo assim. Teve o apoio de muitos, mas muito do que aqui se ergue foi trabalho seu, dinheiro seu, esforço seu, suor seu, preocupações suas. Mas a memória deste homem é mais do que estas paredes: É o seu exemplo, a sua entrega, a sua caridade, o seu Amor sempre dado, mesmo entre meias palavras, ou afirmações mais ácidas, ou maus feitios de que, genericamente, se arrependia pouco depois.

Nasceu a 19 de Agosto de 1945 em Ribeirinho, no concelho de Penela. Eramos, portanto, conterrâneos. Frequentou o seminário da Figueira da Foz, onde entrou com onze anos. Aos quinze anos entrou no seminário de Coimbra e licenciou-se em Teologia, com 14 valores. A ordenação sacerdotal ocorreu em 1 de agosto de 1970, a poucos dias de fazer 25 anos. Aluno exemplar, exerceu as funções de professor no seminário da Figueira da Foz, a partir de 1968. E de 1969 a 1971 foi coadjutor na paróquia de Cantanhede.

Durante a Guerra do Ultramar esteve em Angola, para onde foi em setembro de 1971, como capelão militar. Teve conhecimento de que seria pároco de Vacariça e Mealhada quando estava no sul desse território. Regressou à metrópole em Maio de 1974. Em 13 de Outubro desse ano, tomou posse do lugar de pároco nas freguesias da Vacariça e Mealhada, sucedendo ao padre Alberto Lopes Gil.

Um jovem, chegou a uma comunidade que o acolheu com alguma distância. Fosse porque não não o conheciam, fosse porque o país atravessava uma Revolução e um jovem, mesmo padre, poderia ser sempre uma revolucionário. Teve que impor o cumprimento de algumas determinações do Concílio Vaticano II, que já nessa altura tinha 10 anos, e começou logo por travar algumas guerras.

Sem prejuízo do desempenho dos seus cargos religiosos nas freguesias de que era pároco, o padre Abílio Simões sentiu necessidade de encontrar uma forma de rendimento e em 18 de Novembro de 1976, tornou-se professor do ensino oficial, no Grupo de Português e Latim. Na sua carreira docente, que só terminaria trinta anos depois, contam-se as escolas secundárias de Anadia, Montemor-o-Velho, Mealhada, Águeda, Abrantes e Cantanhede. Na escola de Cantanhede esteve como professor efectivo até pouco meses antes de morrer, quando se aposentou. Apesar de o poder fazer antes, fez questão de leccionar até ao fim do ano lectivo de 2005/2006, para não prejudicar os seus alunos.

Quando começou a avolumar-se, na zona do concelho da Mealhada, o número de imigrantes provenientes de países do Leste europeu, diligenciou para que eles aprendessem o essencial da língua portuguesa. Das suas diligências resultou a criação de cursos de Português na Pampilhosa, em Sepins, na Mealhada e na Curia (depois Aguim). Ele próprio foi professor de Português no curso de Sepins. Para além disso procurou também arranjar emprego para muitas dessas pessoas, que sentiu serem carentes de ajuda.

Com a preocupação de elevar a consciência religiosa e cultural dos seus paroquianos, pôs em execução, especialmente na paróquia da Mealhada, planos anuais de actividades. Destes planos destacam-se as Jornadas teológicas, as Semanas bíblicas, os Cursos bíblicos, as feiras do livro religioso, as conferências, as palestras e os debates sobre temas religiosos, sociais e culturais, etc.

Na freguesia da Mealhada foi a trave mestra da comissão que se responsabilizou pela construção desta igreja paroquial. A primeira pedra do templo foi colocada em 25 de maio de 1978 Dia do Corpo de Deus e a Igreja, esta igreja, foi sagrada em 29 de março de 1992. Foi o principal dinamizador de todo o processo e, para além da sua perseverança e do trabalho desenvolvido, despendeu também muito do seu dinheiro para custeamento das obras. Na freguesia da Vacariça, ao trabalho efectuado em prol da restauração da igreja e da compra de um terreno anexo, ele acrescentou, igualmente, importante contribuição monetária. Sublinhe-se que o padre Abílio não recebia qualquer importância pelos serviços religiosos que prestava aos seus paroquianos. Algum dinheiro que lhe entregavam ele encaminhava-o para as obras da igreja da Mealhada ou da Vacariça, conforme se tratasse de paroquianos de uma ou de outra freguesia. Nada recebeu, também, quando, temporariamente, foi pároco de Casal Comba, de Ventosa do Bairro e de Sepins.

Além dos cargos de pároco e de professor, o padre Abílio Simões desempenhou funções de dirigente associativo. Foi, aliás, um activo membro da comunidade que tornou sua, onde não residia, nem disso tinha intenções, mas que servia, sempre. Foi membro da comissão instaladora do Centro de Cultura do concelho da Mealhada, da Liga dos Amigos da Mealhada e presidente da mesa da assembleia geral da Casa do Povo da Freguesia da Vacariça, lugar que ocupou até à sua morte. Foi, ainda, membro da gerência do Jornal da Mealhada, tendo sido colaborador deste periódico, quase desde a sua fundação. Tornando-se, tempos depois, em elemento muito activo e competente da sua redacção até morrer. Artigos de opinião, textos de crítica social ou política, crónicas, notícias, reportagens e entrevistas, tudo o padre Abílio escrevia. E fazia-o também, no Correio de Coimbra e noutros jornais regionais.

Frequentou estudos pós-graduados em Bioética, na Universidade Católica Portuguesa, e, poucos dias antes de morrer, tinha iniciado uma outra pós-graduação, em Direitos Humanos, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

Senhoras e senhores

Senhor Dom Virgilio, nosso bispo

É com emoção que falo de um Homem que, para além de pastor, foi meu amigo. A todos nós deu tudo de si e eu disso pude beneficiar! Ocupava o tempo de forma sempre activa e ao Serviço dos outros, cumprindo horários, ao ponto de substituir refeições e descanso por trabalho, quase sempre em prol do seu próximo. Era Padre? Era professor? Mas era também sacristão, motorista, simples empregado profissional e tantas vezes juntava o almoço com o jantar, tantas vezes dormia a correr e mal instalado no banco do carro, à secretária, no cadeirão da sacristia. Podia dizer esse assunto não é comigo, ou não interessa, mas já estava a tentar solucioná-lo. Podia não saber cantar (como dizia), mas sabia a música de cor. Podia estar doente, mas não dizia a ninguém (nem ao médico), e preocupava-se em visitar os doentes, todos, conhecesse bem ou mal, fosse frequentador ou não da Igreja e a todos dava ombro, dava alento, mostrava a Paz e a Esperança.

Na altura em que faleceu, dirigi-lhe num jornal o seguinte pedido, que hoje renovo: Que intercedas por nós, aí, junto do Pai, Ele que te chamou tão cedo, para Seu colaborador.

Perdemos um talento na Terra, mas ganhámos um tesouro no céu.

Obrigado Abílio. Sempre.

Autor: Jornal da Mealhada

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