Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013

Buçaco, Vendaval e Vandalismo

Buçaco, Vendaval e Vandalismo

Região

Buçaco, Vendaval e Vandalismo

Ferraz da Silva Crónicas locais – 131 Não é a primeira vez que a Mata do Buçaco é destruída por […]

Ferraz da Silva

Crónicas locais – 131

Não é a primeira vez que a Mata do Buçaco é destruída por causas naturais. O terrível ciclone de 15 de Fevereiro de 1941, subsistindo na memória de alguns sobreviventes, feriu a floresta com idêntica violência e causou grandes prejuízos abatendo centenas de árvores. Quem de direito, no caso o Estado, ressuscitou-a replantando e levando a cabo as obras de reconstrução e o tempo alongou-se por anos e anos para dar o tempo ao tempo necessário para a regeneração natural. Não sabemos se irá acontecer o mesmo desta vez, esperemos que sim, que os responsáveis e os que aqui acorreram para fins de próprio prestígio, de fundos comunitários e outras bem aventuranças, estejam á altura dos acontecimentos.

Nós, os que escrevemos estas linhas sem um cartão partidário, não temos força para exigir, somos uns pobres na cidadania e na consideração que o poder instituído, a democracia, tem por nós, para lá da medida em que servimos para lhes governar a vida. Por tal motivo não há muito mais a dizer, para alem do choradinho habitual dentro da estranha ditadura democrática em que vivemos. Numa página dessa também estranha coisa que se chama facebook deixei uma nota pessoal a quente que vou deixar transcrita a frio. Dizia assim:

Á maneira pouco cuidada com que tem sido tratada pela fundação a Mata Politica do Buçaco, mas que na verdade é uma Mata Nacional, juntou-se a violência das forças da natureza como que a completar o serviço. Castigo, diriam frades, se deambulassem ainda pelas ermidas em sofrimentos de ossos e das almas!

Os paroquianos da política porém choram sobre a sobranceria, a arrogância e as habilidades das gestões da curiosidade divagada entre bosques e cimento. Os primeiros gritos aflitivos perante o problema foram por dinheiro, por peditórios até! Diga-se que os 44% da avaliação de que a gestora foi alvo estão bem assentes, ela terá a responsabilidade dos mesmos 44% que lhe são devidos pelas brincadeiras que vão levando a cabo.

A Mata vai continuar a ser amada da mesma maneira por quem verdadeiramente a ama, se é que se pode amar uma Mata. Mas não são o soldo, nem o cartão partidário nem o oportunismo que amam a Mata do Buçaco. Quem a ama é a população da freguesia a quem ela é recusada. Aqueles que se lembram ou sabem do ciclone de 41 por testemunho directo ou transmissão oral. Os turistas bem informados por livros de todo o mundo e que percorrem os sítios por paixão. Ingleses militaristas com a fobia das guerras, saudosos do passado, ambientalistas, caminheiros, até os que, crentemente, sobem da Bairrada na Romaria da Ascenção ou recalcam a Via-sacra por orações de penitência.

Hão-de chorar com o sentimento do amor ás coisas simples, ao berço, ás plantas, aos muros, aos liquenes, aos silêncios. Os mangas-de-alpaca, por outro lado, hão-de chorar o sentimento do metal, do partido, da regalia, do desenrasca, do oportunismo. Fazem-me rir as lamúrias de quem chora lágrimas de crocodilo ou notas de bolso roto! Porque a Mata, todas as Matas, por mais estima que se lhes possamos dedicar, estão sujeitas aos rigores da natureza, á destruição das forças que nos superam a vontade.

Nascem, crescem, vivem, morrem. Não há que chorar. Como Pombal, há que actuar sobre os vivos.

Se for recuperada por quem sabe destas coisas, felizmente este país já forma engenheiros na matéria florestal, há-de regenerar e voltar a ser o que era. O tempo, o saber, o amor e a profissão farão o milagre natural, não se duvide e mais e melhores cuidados de futuro podem ajudar a conservar o património agora destruído.

É que os arbustos cortados, o chão rapado, as regueiras entupidas, os cortes desenfreados de árvores, as clareiras abertas, o cedro de S. José ao abandono, partido que foi o suporte de aço que o sustentava á anos, as ribeiras obstruídas, a proibição de entrada no bosque dada aos primeiros socorristas do espaço que são os moradores da freguesia, a criação de anticorpos entre a gestão e os naturais, deram a todo o processo da Mata Nacional do Buçaco um ar de intrusão e posse de muito pouca sensibilidade para o coberto e para os humanos. Muito mau para a freguesia do Luso que não se revê naquela gente afundatória.

Mas não foram estes factos que destruíram a Mata. Tal como em 1941, ou 1834, foi o ciclone, o vendaval, a tempestade, porém, não pode passar em claro uma advertência, se a gestão fosse profissional, cuidada e de sabedoria, bem poderia ter sido mais reduzida a dimensão dos estragos provocados. Ficará este senão!

Tal e qual como aquela história dos azevinheiros no inicio do mandato, quando também, se houvesse uma gestão com um mínimo de bom senso, dezenas de azevinheiros, árvore protegida, não teriam sido cortados pelo tronco rente á terra mãe e não teria passado em claro mais um crime de lesa mata, entre os muitos que nesta nação são branqueados pelo poder. Há gente honesta que ainda se demite por estas coisas!

Nesta conformidade, faço votos por uma rápida recuperação da floresta do Buçaco, mas duvido que, pela mão de quem ali opera, seja feita com a eficiência exigida. Se for com o folclore amador dos 44%, bem pode a cura ser pior que o vendaval da natureza.

É uma opinião pessoal.

Luso, Janeiro de 2013,

Buçaco.blogs.sapo.pt

Autor: Jornal da Mealhada

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